Vai pescar o pirarucu? Saiba que peixe pode atacar seres humanos
O Ibama liberou a pesca e abate no peixe natural na região da Amazônia no DF e Goiás. A espécie “invasora” ameaça o equilíbrio ambiental
atualizado
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A invasão do pirarucu (Arapaima gigas) não coloca em risco apenas espécies nativas das águas do Cerrado, mas também banhistas. Não há registro de ataques, mas, segundo especialistas, o peixe de grande porte, natural da região da Amazônia, pode atacar nadadores desavisados durante o período de reprodução.
Veja:
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) liberou a pesca do pirarucu em rios e lagos específicos que integram o Distrito Federal (DF) e o Goiás (GO), a exemplo do Lago Paranoá. O peixe foi classificado como invasor fora da Amazônia. E por isso o abate foi liberado para controle ambiental.
Segundo o diretor técnico da Associação de Pesca Esportiva, Subaquática e Conscientização Ambiental do DF (APSSHARK-DF) e integrante do Instituto Peixes da Caatinga, o biólogo, Paulo A. D. Franco, de 59 anos, não há registros de ataques a humanos, mas pode haver comportamento defensivo em situações específicas, como durante a reprodução.
“Considerando que Arapaima gigas é uma espécie silvestre, é esperado que indivíduos apresentem comportamentos defensivos em determinadas situações. Durante o período reprodutivo, o macho exerce cuidado parental direto sobre ovos e alevinos, o que pode resultar em aumento da agressividade territorial“, pontuou.
Neste contexto, para o especialista, eventuais respostas agressivas não caracterizam comportamento ofensivo, mas sim uma estratégia adaptativa de defesa da prole, comum em espécies com cuidado parental. “Assim, a aproximação de potenciais ameaças, incluindo humanos, pode desencadear reações defensivas por parte do macho”, alertou.
Para Paulo, em regiões como o DF e outras áreas do Brasil onde a espécie não é nativa, a liberação da pesca é considerada uma medida positiva, pois é um instrumento para manejo ambiental.
“Nesses locais, o pirarucu pode atuar como predador de topo, exercendo pressão sobre espécies nativas e promovendo alterações nas cadeias tróficas. Assim, a autorização para captura e abate, sem restrições típicas aplicadas a espécies nativas, visa reduzir sua população e mitigar potenciais impactos ecológicos, caracterizando a pesca como ferramenta de controle”, explicou.
Dessa forma, segundo o especialista, a decisão não deve ser classificada simplesmente como “certa” ou “errada”, mas sim como tecnicamente adequada dentro de uma estratégia mais ampla. “Sua efetividade depende da integração com políticas públicas consistentes, incluindo monitoramento científico, controle de introduções, educação ambiental e fiscalização. Em outras palavras, é uma boa ferramenta de manejo, mas não uma solução isolada”, completou.
Gigante da Amazônia
A espécie Arapaima gigas é amplamente conhecida como o “gigante da Amazônia”, sendo um dos maiores peixes de água doce do mundo, podendo atingir mais de 3 metros de comprimento e cerca de 200 kg.
O nome pirarucu tem origem na língua tupi, significando “peixe vermelho” (pira = peixe; urucum = vermelho), em referência à coloração avermelhada observada principalmente na região da cauda.
Apresenta respiração aérea obrigatória, possuindo uma bexiga natatória altamente modificada, com função semelhante a um pulmão primitivo, o que permite a sobrevivência em ambientes com baixos níveis de oxigênio dissolvido.
Morfologicamente, caracteriza-se por corpo alongado, coloração predominantemente escura, variando entre verde e ocre, com tons avermelhados na região caudal. Possui escamas espessas e resistentes, além de uma cauda marcadamente avermelhada.
Pesca no DF
A decisão do Ibama autoriza a pesca, a captura e o abate do pirarucu quando a espécie for encontrada em 11 bacias espalhadas pelo país. Duas delas são a Região Hidrográfica do Paraná e a Região Hidrográfica do São Francisco. No DF, há seis bacias dentro das regiões hidrográficas do Paraná e do São Francisco.

A bacia hidrográfica do Maranhão, que passa pela região Norte do DF, não está inclusa na instrução normativa do Ibama.
Pesca em Goiás
Em Goiás, as regras variam conforme a bacia hidrográfica — divisão que leva em conta o conjunto de rios e as características ambientais de cada região.

Nas bacias do Paranaíba e do São Francisco, que abrangem principalmente áreas do Sul, Sudoeste e Leste do estado, o pirarucu não é nativo. Nessas regiões, a espécie foi introduzida e passou a ser considerada invasora. Por isso, estão liberadas a pesca, a captura e o abate durante todo o ano, sem limite de tamanho ou quantidade.
Nesses casos, há uma regra obrigatória: todo exemplar capturado deve ser abatido, sendo proibida a devolução à água.
Já na bacia Tocantins-Araguaia, que cobre o Norte e Nordeste goiano e inclui rios como o Araguaia, o pirarucu é naturalmente do ambiente. Por fazer parte do ecossistema local, a pesca segue proibida, como forma de preservação da espécie.
Confira os detalhes já conhecidos
- No que diz respeito ao DF, todo pescador amador e profissional que pescar pirarucus no Lago Paranoá e nas bacias do Rio Descoberto, Rio Corumbá, Rio São Bartolomeu e Rio São Marcos deverá abater o peixe.
- A bacia hidrográfica do Maranhão, que passa pela região norte do DF, não está inclusa na instrução normativa do Ibama. Portanto, a pesca predatória não está permitida.
- Já no Estado de Goiás, por exemplo, a pesca está liberada nas bacias do Parnaíba e do São Francisco.
- O pescador não poderá devolver o pirarucu à água. Em caso de captura, agora há a obrigação de abater o animal.
- Não há limites de quantidade e peso para a pesca. O pescador pode capturar e abater quantos pirarucus quiser, independentemente do peso de cada um.
- A instrução normativa é válida pelos próximos três anos. Findado o período, o Ibama poderá reavaliar a ordem para verificar se o controle da espécie foi concluído.
Lula brincou com a espécie
O pirarucu virou assunto das conversas à mesa de um jantar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com lideranças da Câmara dos Deputados, em 4 de fevereiro deste ano. Em tom de brincadeira, Lula contou aos parlamentares que os peixes da espécie que são criados no lago da Granja do Torto estavam se tornando um “problema”.
Segundo relatos de deputados, o presidente disse que sempre gostou de pescar e que o pirarucu está entre seus peixes preferidos. Lula afirmou ter recebido cerca de 20 exemplares, ainda pequenos, como presente do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.
Com o passar do tempo, porém, os peixes cresceram além do esperado e, de acordo com o presidente, os pirarucus passaram a devorar outras espécies que viviam no lago da casa de campo oficial da Presidência.
Rindo, Lula contou que os peixes chegaram a pesar cerca de 45 quilos e que ficaram “tão grandes que começaram a comer os patinhos” da primeira-dama Janja Lula da Silva.












