Roda presa: uso de bicicletas compartilhadas do GDF cai pela metade

Secretaria de Transporte e Mobilidade pretende expandir o modelo, que hoje enfrenta a concorrência de outras plataformas

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 06/10/2019 22:47

Bicicletas sem freio, com pneu furado e estações de retirada sem sinal ou lotadas. A vida de quem utiliza as bikes compartilhadas do programa da Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) não é fácil. Tanto que, com o aparecimento de concorrentes e patinetes, o número de acessos caiu vertiginosamente.

Só em agosto, último mês com informações disponíveis, foram realizadas 26.653 viagens por meio do app +Bike, o que significa redução de 47,5% quando comparado o mesmo mês do ano passado. O levantamento foi realizado pelo (M)Dados, núcleo de análise de grande volume de informações do Metrópoles.

A reportagem foi às estações de retirada e devolução das bicicletas do Plano Piloto para conversar com usuários do veículo e entender quais são as reclamações que justificam a queda no número de viagens.

Local mais popular no que tange ao uso do app +Bike, a Universidade de Brasília (UnB) conta com três estações – no Instituto de Artes, no Centro Olímpico e no ICC Sul. Os veículos ajudam os alunos a se locomoverem entre os 500 mil m² de área construída do campus. “Tenho aula quatro vezes por semana e uso as bicicletas para me deslocar”, comenta o estudante de química Lucas Nunes, 24 anos.

Segundo o universitário, os veículos estão localizados em pontos estratégicos da UnB e, na maioria das vezes, encontram-se em bom estado. “Algumas vezes, tem um pneu furado ou o freio não funciona, mas no geral elas são boas. O que poderia mudar é o sistema de entrega. Às vezes, a estação em que parar está cheia e, até achar outra, é muito longe. Isso atrapalha um pouco”, pondera.

Outro problema enfrentado é a falta de sinal de internet nas estações. Não é raro, diz Lucas, o aplicativo do GDF sair do ar quando da devolução ou retirada de bicicleta.

Quem também pedala bastante pela universidade é Edlla Souza, 22, aluna de arquitetura. Moradora da Casa do Estudante, ao lado do Centro Olímpico (CO), ela diz que costuma voltar das aulas ou do Restaurante Universitário (RU) sobre duas rodas. “Geralmente, meus horários não batem com os da van que circula aqui na UnB. Dessa forma, quando preciso atravessar a L4 Norte, prefiro pegar uma bicicleta lá e descer, que cansa menos”, frisa.

Assim como Lucas, Edlla também sofre quando as estações estão lotadas. Segundo a acadêmica, os 12 espaços para devolução são insuficientes para atender a demanda. A jovem relata que, durante o horário de aula na Faculdade de Educação Física, é impossível estacionar a bicicleta.

“Como moro ao lado, quando está cheio eu deixo a bike encostada e fico olhando da janela até aparecer uma vaga. Isso acontece com muita gente aqui. Se demora muito, pedimos para algum colega destravar uma nova só para devolver a anterior”, explica.

Outro ponto de muita utilização das bicicletas compartilhadas da Semob é na Rodoviária do Plano Piloto. Com três estações próximas ao terminal de ônibus, a movimentação é mais intensa no final da tarde, de acordo com os dados da secretaria.

É o caso do vigilante Wellington Dias, 42, que utiliza a bicicleta praticamente todos os dias. Morador de Samambaia, ele chega ao Plano Piloto por ônibus ou metrô e, depois, vai até o Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde trabalha, sobre duas rodas.

“Tem uma estação ao lado do TSE [Tribunal Superior Eleitoral]: é onde deixo a bicicleta. É muito prático para mim. Em sete minutos, saio da Rodoviária e chego ao meu trabalho. É mais rápido até do que se eu fosse de ônibus”, compara.

Entusiasta do ciclismo, ele diz que é praticante de mountain bike e, portanto, a oportunidade de pedalar para o trabalho é perfeita. “É muito prazeroso. Seria bom se esse projeto fosse expandido para as outras cidades do DF. Eu usaria o serviço com toda a certeza”, afirma.

Rodrigo de Aguiar, 28, que trabalha no Setor Bancário Sul (SBS) com suporte de TI, também utiliza a estação da Rodoviária. Ele volta todos os dias para sua residência, na Asa Norte, com a bicicleta compartilhada e diz que a principal vantagem é o preço. “Se comparar com os patinetes ou a própria Yellow, as da Semob são mais baratas. Já até pensei em usar as outras, mas R$ 10 por ano é um preço muito bom”, diz.

O único problema que o brasiliense relata encontrar é na manutenção. Dizendo-se “vacinado” contra as avarias que as bikes costumam apresentar, Rodrigo sempre confere, antes de começar a pedalar, se o freio está funcionando e se os pneus não estão furados. “Aprendi depois que peguei uma bicicleta em que o freio traseiro não funcionava. Foi difícil ir controlando só na frente, até porque pego algumas descidas até chegar à minha casa”, conta.

Democratização é necessária

Para o coordenador-geral da ONG Rodas da Paz, Raphael Barros, a baixa qualidade na manutenção das bicicletas é um dos principais motivos para a diminuição do uso no app do governo local. “Estão aparecendo mais unidades estragadas. A empresa que administra tem reclamado que o valor que ela recebe é muito baixo, e fica nesse impasse”, salienta.

Raphael ainda pontua que, para resolver os problemas de devolução das bicicletas em estações cheias, bastava aumentar o número de espaços em cada estação. “Elas poderiam ser um pouco maiores. Uma opção era tirar mais uma vaga de carro e estimular as pessoas a andarem de bike”, sugere.

Além da melhoria dos serviços, a ONG defende que outras regiões administrativas sejam contempladas pelo +Bike. “A expansão é extremamente necessária. Não dá para que a bicicleta fique apenas em áreas privilegiadas e seja utilizada para turismo. As estações têm que estar perto de escolas, shoppings e estações de metrô”, reclama.

“Uma forma de estimular o uso seria criar a integração com o transporte público. Quem usar ônibus, por exemplo, e depois a bicicleta, poderia pagar mais barato”, sugere Raphael.

Secretaria quer ampliar modelo

Segundo a Secretaria de Mobilidade, a redução no número de viagens feitas com o app tem explicação. De acordo com o subsecretário de Planejamento da Mobilidade da Semob, José Soares de Paiva, os motivos são “a depredação tanto das bicicletas quanto das estações, o recall realizado a pedido do Ministério Público, a entrada no mercado de outra operadora de modelo semelhante e a chegada dos patinetes”.

Paiva conta ainda que, das 288 bicicletas autorizadas a circular no Plano Piloto, apenas 177 estão em operação no momento. “O processo de reposição é lento. Caso algum dos modais apresente dano, é preciso que o veículo passe pelo processo de recolhimento, verificação e manutenção. Eventualmente, pode ser necessário até que seja fabricada outra, em São Paulo, o que também demanda tempo”, explica. A expectativa, no entanto, é de que 60 novas bikes sejam colocadas em operação nesta semana.

Aliado a isso, assinala Paiva, a necessidade de reparação das bicicletas após acidentes no início do ano, quando o eixo de uma das unidades se partiu, fez com que menos bikes estivessem disponíveis. “Foi detectado que, de fato, havia a necessidade de reforço em uma determinada peça. Agora, já está resolvido”, garante.

 

Pela lei atual, afirma o subsecretário, não é possível realizar nenhuma ampliação do +Bike. Por esse motivo, um projeto já foi enviado à Câmara Legislativa para que mais estações sejam construídas em todo o DF.

“Essa proposta se insere no programa de mobilidade ativa do governo. A nossa ideia é expandir as bicicletas compartilhadas para todas as cidades do DF, não só com as estações, como temos no Plano Piloto, mas também no modelo em que é possível deixar os veículos em qualquer lugar. Até mesmo patinetes nós queremos disponibilizar”, detalha Paiva.

A tarifa a ser cobrada da população nesse novo modelo, no entanto, ainda não está definida. O subsecretário enfatiza que o preço atual de R$ 3 por dia, R$ 6 por mês ou R$ 10 por ano está sendo contestado pela administradora das estações. “Ainda estamos analisando essa alteração de tarifa. A atual empresa considera o preço atual baixo e, na renovação do contrato que será feita no final do ano, vamos avaliar o pedido.”

Confira o projeto de lei apresentado pela Secretaria

PL que versa sobre a regula… by Metropoles on Scribd

Procurada pela reportagem para também comparar os números de uso das bicicletas compartilhadas no Distrito Federal, a Yellow, que iniciou suas atividades em janeiro deste ano em Brasília, disse que o serviço “tem demonstrado boa aceitação e número crescente de usuários”.

A empresa, que inclusive opera com patinetes na capital do país, ressaltou que “acredita em alternativas sustentáveis de locomoção e continuará trabalhando no desenvolvimento dessa nova cultura em mobilidade, que gera impactos positivos e tangíveis no meio ambiente”.

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