Os servidores superendividados do Governo do Distrito Federal (GDF) farão propostas ao novo presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, para tentar resolver o problema. Um documento foi elaborado pelo grupo da Caixa de Assistência de Benefícios (Cabs) com ao menos quatro sugestões.

A primeira é a “compra” da dívida pelo governo local. Dessa maneira, o servidor poderia usar benefícios não gozados, como as licenças-prêmio, para abater os débitos. “A sugestão é que o GDF deva ao banco, que é dele, e pague com as dívidas que tem com os servidores. Pode ser em licenças-prêmio, pecúnias e tíquetes-alimentação atrasados”, explicou a presidente da Cabs, Elied Barbosa de Oliveira.

Outra medida é a aplicação dos mesmos juros usados pela Caixa Econômica Federal (CEF) nas negociações com correntistas endividados: enquanto o BRB cobra 1,2% mensais, a CEF aplica 0,88%. O terceiro ponto é a negociação em um “pacote completo”, não de maneira isolada, para cada servidor. Uma quarta proposta a ser apresentada é que pessoas com 60% do salário comprometidos também sejam consideradas superendividadas.

O pacote de Ibaneis
Paralelamente a essa negociação, o governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), deve anunciar nesta terça-feira (5/2) medidas para tentar ajudar os correntistas superendividados a reverter essa situação. Até a noite de segunda (4), técnicos do governo trabalhavam em um projeto de socorro aos servidores com até 100% dos salários comprometidos com dívidas de empréstimos consignados e outros serviços do banco.

As iniciativas dos correntistas e do GDF ocorrem dias após a Polícia Federal e o Ministério Público Federal deflagrarem a Operação Circus Maximus. No domingo (3), o Metrópoles mostrou que enquanto dirigentes do BRB abriram os cofres para dilapidar o patrimônio dos investidores e acionistas, aliando-se a grupos de interesses duvidosos de olho em dinheiro fácil e propina, milhares de correntistas foram tratados com mão de ferro após serem induzidos a contrair empréstimos e comprometer integralmente os salários.

“É revoltante o servidor passar por situações de necessidade, sem negociação de redução de juros, enquanto o banco pode ter sido lesado em um valor tão alto”, lamentou a presidente da Cabs, Elied Barbosa de Oliveira. Ela se refere às investigações da PF e do MPF que apontam movimentações suspeitas do BRB que chegam à casa dos R$ 400 milhões, com suposto pagamento de propina de R$ 40 milhões a ex-gestores do banco.

Segundo Elied, as tentativas de negociação e renegociação de superendividados ocorrem desde 2015, quando um servidor postou, em um grupo administrativo, foto com um revólver apontado para a cabeça, dizendo que ia se matar porque o BRB ficava com todo o seu salário havia três meses.

“Rapidamente, mais de 300 pessoas responderam a postagem, dizendo estar na mesma situação que ele e implorando para que ele não concretizasse aquele desejo. Então, como administradora do grupo, decidi criar outro, o Servidores do GDF Reféns do BRB, que hoje conta com mais de 5 mil membros”, relatou a presidente da Cabs.

Humilhação
Por meio da Cabs, ela conseguiu abrir possibilidades de negociação, mas insuficientes para casos como o da policial civil aposentada Eduarda*, 53 anos. Em 2016, ela tinha 100% da remuneração comprometida. Hoje, recebe apenas 10% do salário – o restante fica retido no BRB para pagar a dívida com o banco. “O gerente começou a me oferecer crédito e benefícios. Tudo virou uma bola de neve. Hoje, devo R$ 134 mil e vou ficar com 10% do meu salário pelos próximos 10 anos”, disse.

A aposentada lembra que, em uma tentativa de renegociação há dois anos, chegou a ser humilhada por um diretor à época. “Ele disse que estávamos superendividados porque não conseguíamos ver um tênis de marca, que logo queríamos comprá-lo. A presidente da Cabs respondeu que ele não estava lidando com adolescentes, mas com adultos que não queriam tênis, queriam colocar comida em casa”, relata. Hoje, Eduarda está no grupo de servidores que vão levar propostas ao banco.

Há cinco anos na Secretaria de Educação, Ana* tem 70% do salário comprometido. Devido às dívidas contraídas, ela teve uma crise depressiva e hoje precisa de medicação controlada. “Sempre tentei concurso público. Quando passei, o banco me ofereceu uma série de benefícios, fiquei empolgada com a estabilidade e me endividei”, relatou a servidora.

Sobre o possível esquema de corrupção investigado pela Polícia Federal na cúpula do banco brasiliense, ela diz se sentir roubada. “Os funcionários do GDF estão totalmente vinculados ao BRB. É o nosso dinheiro. Me sinto lesada”, afirmou.

Expectativa
Além da esperança de conseguirem ter demandas atendidas no banco, os servidores aguardam quais medidas serão anunciadas por Ibaneis. Uma das expectativas é que ele determine a proibição de os endividados receberem menos de 30% do salário.

Ao Metrópoles, Ibaneis afirmou que está preocupado com a situação: “Meu compromisso com o servidor é integral, e nós vamos encontrar uma saída para resolver os problemas de endividamento. O BRB pode ter uma linha de crédito especial para isso, mas não é a única alternativa”, disse.

Na quinta (31/1), o novo presidente do BRB tomou posse com a missão de discutir e solucionar os problemas. Por meio de nota, a instituição informou que “o banco só vai se pronunciar sobre os superendividados no lançamento do programa voltado a essa temática”.