Suicídios no DF caíram 15% em 2019, mas tentativas cresceram 22%

Especialistas avaliam que melhor maneira de prevenir o impulso emocional é o suporte familiar e de amigos quando sinais aparecerem

Thiago S. Araujo/Especial para o MetrópolesThiago S. Araujo/Especial para o Metrópoles

atualizado 26/01/2020 20:13

Quinze minutos antes de o despertador tocar, Karina* já está de pé para enfrentar a rotina. Organizar o material escolar dos dois filhos, preparar o café da manhã, lancheiras e se arrumar para o novo trabalho voltou a ser um costume para a consultora de marketing. Quem hoje acompanha a naturalidade com que ela enfrenta as responsabilidades não imagina que há poucos meses a mulher de 42 anos quase se deixou vencer por uma forte depressão.

A crise foi gerada após ser demitida inesperadamente de uma empresa para a qual dedicou os últimos anos. O sentimento de rejeição se somou às dívidas que se acumularam durante o período de desemprego, resultando até numa ordem de despejo do apartamento onde morava. “Deus me livre sentir isso novamente. Falar sobre isso, mesmo depois de superado, ainda me incomoda, me faz pensar como não pedi ajuda antes para sair daquele buraco. Acho que, na verdade, eu não conseguia enxergar que minha vida poderia voltar a ser normal, como está hoje”, confidenciou ao Metrópoles.

Nossa personagem é apenas uma das inúmeras pessoas que sofrem ou sofreram com a doença silenciosa e que, em grande parte, escolhem o suicídio como forma de estancar a dor. No caso de Karina, o diálogo e o suporte da família e de amigos foram os fatores determinantes para driblar o mal. Por sorte, ela não integra os registros oficiais da Secretaria de Saúde do DF.

No DF, para se ter ideia, entre 2018 e o ano passado, os casos de suicídios notificados oficialmente pelas autoridades caíram 15%: foram 170 casos em 2019, contra 200 no ano anterior. Os números foram computados até o dia 30 de dezembro. Embora haja o registro de decréscimo, os índices ainda são expressivos, uma vez que representam uma vida perdida a cada dois dias. Ainda segundo o mesmo relatório, os óbitos evitáveis têm incidência maior entre homens. O autoextermínio, ainda conforme dados oficiais, atingiu principalmente pessoas maduras, na faixa etária de 40 anos.

“Existem formas diferentes de lidar com os sofrimentos. As mulheres conseguem se abrir com mais facilidade. Geralmente, os homens são mais resistentes para falar de sentimento, principalmente quando é para pedir ajuda. Isso faz com que eles demorem mais a pedir e aceitar ajuda externa. Muitas vezes, a pessoa está passando por dificuldades, mas não se sente à vontade para falar sobre isso. É muito importante que, dentro do núcleo de confiança, especialmente no familiar, todos estejam atentos a comportamentos e mantenham o diálogo aberto”, explica André de Mattos Salles, psiquiatra da infância e adolescência do Hospital Universitário de Brasília (HUB).

Prevenção

Se por um lado a queda nos registros pode ser considerada um avanço, por outro, as tentativas de ceifar a própria vida cresceram 22%, segundo a Secretaria de Saúde. O Núcleo de Saúde Mental (Nusam) do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência do Distrito Federal (Samu) contabilizou mais atendimentos relacionados ao suicídio no primeiro semestre de 2019 do que no mesmo período do ano anterior. Foram 792 chamados para tentativas e 219 por planejamento em 2019, contra 678 tentativas e 171 de ideação no ano anterior.

Os dois casos, tanto nas notificações de suicídio quanto de tentativas, ocorreram em maior número em setembro, justamente no período estabelecido pelo Ministério da Saúde para a realização da campanha de prevenção ao suicídio, o chamado de Setembro Amarelo. Os especialistas estão debruçados nos números, embora considerem que o assunto não pode ser tratado com a frieza matemática.

“Não dá para dizer qual é a causa do suicídio e nem por que está aumentando ou diminuindo. É o resultado de vários fatores individuais muito específicos. Existem fatores de risco, como transtornos mentais, a depressão, histórico familiar, abuso de substâncias, traços de personalidade e até história de vida, como abuso e negligência na infância. Por isso, temos os fatores de proteção, como a inserção social, para tentar inibir a atuação dos fatores de risco. Não dá para tratar de forma simplista”, explica a psiquiatra Fernanda Benquerer, coordenadora do Comitê Permanente de Prevenção do Suicídio do DF, órgão ligado à Secretaria de Saúde.

Pela importância do assunto, a médica especialista defende que toda a estrutura da rede pública de saúde esteja preparada para atender suspeitas ou tentativas a fim de evitar o suicídio. “Não é todo o serviço que vai tratar, acompanhar, cuidar, diagnosticar. Mas se você chega numa unidade básica, a pessoa precisa saber ouvir e saber como agir. A pessoa em risco de suicídio é um caso grave e precisa de um acompanhamento especializado. Para isso, temos os ambulatórios de atendimento mental, os CAPs [Centros de Atendimento Psicossocial], as emergências de pronto-socorro, o núcleo de saúde mental dentro do Samu. Temos todas essas redes para atenção psicossocial”, frisou a médica.

Ainda segundo ela, a Secretaria de Saúde do DF criou o Plano Distrital de Prevenção do Suicídio, aprovado em agosto de 2019. A especialista coordena o comitê desde dezembro de 2019, quando o grupo foi instituído por uma portaria distrital.

Valorização à vida

Voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV), Leila Herédia disse acreditar que o trabalho do grupo de ajuda também é importante na prevenção do suicídio. “Quando a pessoa não está bem, ela pensa na morte para se livrar daquela dor. Quando a pessoa fala, ela libera essa quantidade de emoções que está dentro dela”, disse.

Segundo Leila, políticas mundiais que deram certo precisam ser aplicadas no DF. “Falo do aumento do número de centros de saúde mental, o que garante mais acesso ao acompanhamento. No nosso caso, somos as chamadas help lines, que também são colocadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos três pilares para a prevenção ao suicídio. Outra coisa é criar barreiras para evitar o ato, que muitas vezes é resultado de uma impulsão. A gente não tem pretensão de substituir nenhum profissional de saúde, mas a gente quer ocupar o aqui e agora. É justamente o desabafo que evita essa impulsividade”, acredita.

Os mais de 100 voluntários que participam do projeto ouvem os desabafos de quem geralmente está sozinho e em momento de desespero, mas não podem indicar nenhum tipo de tratamento. Contudo, os especialistas que atuam na área de saúde orientam que, caso haja testemunho ou algum sinal de tentativa, que o Samu seja imediatamente acionado pelo telefone 192. Uma equipe multiprofissional irá até o local para avaliar e, a depender do caso, um acompanhamento passará a ser feito.

“A partir do momento que as pessoas conseguem identificar que não estão bem e que precisam de ajuda, já é meio caminho andado. É muito importante lembrar que esse momento é um processo de adoecimento. Durante a depressão, a pessoa tem a tendência de ver as situações de forma mais negativa. Esse julgamento crítico fica mais inibido e impede que a pessoa realmente perceba a situação em que se encontra”, reforçou o psiquiatra André de Mattos Salles.

Debate necessário

Metrópoles tem a política de publicar informações sobre casos de suicídio ou tentativas que ocorrem em locais públicos ou causam mobilização social. Isso porque é um tema debatido com muito cuidado pelas pessoas em geral.

Na avaliação do site, o silêncio camufla outro problema: a falta de conhecimento sobre o motivo que, de fato, leva essas pessoas a se matarem.

Depressão, esquizofrenia e uso de drogas ilícitas são os principais males identificados pelos médicos em um potencial suicida. Problemas que poderiam ser tratados e evitados em 90% dos casos, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria.

Está passando por um período difícil? O Centro de Valorização da Vida (CVV) pode te ajudar. A organização atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias.

*Nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.

 

SOBRE O AUTOR
Caio Barbieri

Cursou jornalismo no Centro Universitário de Brasília (UniCeub). Passou pelas redações do Correio Braziliense, Agência Brasil, Rádio Nacional e foi editor-adjunto da Tribuna do Brasil. Ocupou a assessoria especial no Ministério da Transparência e foi secretário-adjunto de Comunicação do GDF. Chefiou o relacionamento com a imprensa na Casa Civil, Vice-Governadoria, Secretaria de Habitação e na Secretaria de Turismo do DF. Fez consultoria para vários partidos, entidades sindicais e políticos da Câmara Legislativa e do Congresso Nacional. Assina a coluna Janela Indiscreta do Metrópoles e cobre os bastidores do poder em Brasília.

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