PM retira sem-teto do Clube Primavera. Alguns invasores permaneceram na rua

Maioria dos ocupantes saiu voluntariamente na manhã desta terça (20/10). Pequeno grupo ficou no local sem saber para onde ir. GDF alega que eles construíram barracos e que cadastro do movimento não foi regularizado

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Mirelle Pinheiro
 

A Polícia Militar do DF fez uma operação na manhã desta terça-feira (20/10) para a retirada de integrantes do Movimento Resistência Popular (MRP) do Clube Primavera, em Taguatinga. Um cordão de isolamento foi feito em volta da área por cerca de 140 homens.

Os invasores saíram das instalações de forma pacífica, mas alguns deles permaneceram na rua sem saber para onde ir. No início da tarde, o grupo seguiu rumo à Praça do Relógio, fechou o trânsito da Avenida Comercial Norte e tentou invadir a Biblioteca Pública, antes de ser dispersado pela PM.

Brasília - DF, 20/10/15. integrantes do MRP (movimento resistência popular no centro de taguatinga. eles saíram da praça do relógio. ocuparam a comercial norte e depois o espaço cultural de taguatinga. Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

Sem-teto invadem a Biblioteca Pública de Taguatinga, mas são dispersados pela PMRafaela Felicciano/Metrópoles

 

O Governo do DF disponibilizou ônibus e caminhão para que as pessoas pudessem ser levadas para albergues públicos e casa de amigos e parentes, mas nem todos aceitaram. Representantes do governo local informaram que a retirada foi determinada após a constatação de que os invasores estavam construindo barracos de madeirite dentro do clube, descumprindo o acordo feito para que eles ficassem ali temporariamente.

Barracos construídos dentro do Clube Primavera pelos invasoresDivulgação/PMDF

Outro motivo que levou a desocupação da área é que os responsáveis pelo MRP não regularizaram a situação cadastral do movimento junto à Codhab e, por isso, não foi possível incluir os 240 integrantes na lista dos programas habitacionais de baixa renda. Segundo o governo, muitos dos invasores teriam moradia.

De um lado para o outro
Vastilane Rodrigues, 31 anos, é manicure e integrante do MRP. Ela contou que saiu cedo do clube para ajudar familiares e quando voltou se deparou com a rua interditada. “Não fomos avisados da desocupação. Tenho dois filhos pequenos e não temos para onde ir. O governo fica nos jogando de um lado para outro e não resolve nossa situação”, reclamou.

Francinaldo Silva, um dos coordenadores do MRP, alegou que não houve negociação com o governo e até ele foi pego de surpresa. “O Ministério Público pediu para a Codhab interromper o cadastramento das famílias. O governo quebrou o acordo que fez com a gente. As barracas foram construídas no local que a Novacap limpou pra gente. Não há dano ambiental. Remanejar para o albergue não é uma alternativa, se fosse não teríamos gente do albergue na ocupação”, acusa.

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Logo cedo, policiais militares cercaram a área do clubeRafaela Felicciano/Metrópoles

 

Memória
Os sem-teto foram levados para o Primavera pelo próprio Governo do DF. O grupo reivindica uma área definitiva para morar e a ampliação do pagamento do benefício do aluguel social.

Os sem-teto estavam no local desde o dia 20 de setembro, após passar uma semana no Hotel St. Peter, no centro do Plano Piloto. Os invasores deixaram o hotel em cumprimento a um mandado de reintegração de posse da propriedade expedido pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios.

Os integrantes do MRP, dissidência do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), foram encaminhados pelo governo, temporariamente, ao Clube Primavera, área pertencente à Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal (Terracap). A ideia inicial é que eles permanecessem no local até a escolha de uma áreal definitiva para atender aqueles que tiverem direito ao Morar Bem.

Conflito
Mas a chegada dos sem-teto ao clube gerou um conflito com os moradores vizinhos, que não aceitavam a permanência deles no local. Além disso, o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) também questionou a permanência dos invasores no Primavera.

Em 25 de setembro,  a Promotoria de Justiça de Defesa da Ordem Urbanística (Prourb) pediu explicações ao GDF sobre a transferência dos invasores para o Primavera. Em 2013, a promotoria instaurou procedimento administrativo a respeito do local. Após relatório elaborado pelo Ibram, certificando que a área é de proteção permanente e que o clube integra a Área de Relevante Interesse Ecológico JK e parte do Parque Ecológico Saburo Onoyama, a Promotoria de Defesa do Meio Ambiente e do Patrimônio Cultural (Prodema) passou a acompanhar a recuperação da área.

Memória
O Clube Primavera fez sucesso em Taguatinga desde sua inauguração, em 1972. Nos anos 1980, vivia cheio e o público aproveitava o período de calor escaldante tomando sol e banhando-se nas três piscinas do endereço. Por conta de obrigações trabalhistas não cumpridas pela direção, o Primavera fechou as portas em 2004. O local encontra-se abandonado desde então.