Sem-teto não têm prazo para sair do Clube Primavera
Depois de passar quase uma semana em hotel de luxo, invasores se instalam em Taguatinga. Vizinhos vão acionar MP para retirá-los

A piscina luxuosa com vista para a Esplanada dos Ministérios usada nos dias de calor por integrantes do Movimento de Resistência Popular (MRP), no Hotel St. Peter, foi substituída por uma bem diferente: abandonada, com água parada e em meio a ruínas do clube Primavera, em Taguatinga. Apesar do lodo e da sujeira, adultos e crianças insistiram em passar a manhã desta segunda-feira (21/9) pescando. “Já peguei três peixes”, disse orgulhoso Pedro Brasil, 39 anos, enquanto arrumava o anzol sem isca.
Do luxo ao lixo, os invasores não se aborreceram com a mudança. Pelo empenho do Governo do Distrito Federal em arrumar o local, a estada dos hóspedes no novo espaço não será tão curta. Uma nova reunião entre invasores e integrantes do GDF está agenda para esta terça-feira (22).

A reportagem do Metrópoles percorreu a área destinada para os invasores. Entrevistas foram interrompidas por coordenadores do movimento sob alegação de que os integrantes poderiam se confundir ao explicar a situação. “Eles não sabem o que dizem, podem falar algo de forma equivocada. Se você tem dúvida, fala diretamente com os coordenadores”, disse um dos responsáveis pelo grupo.
Apesar do calor – e da ausência do ar-condicionado que ajudou a amenizar a temperatura nos dias de ‘hospedagem’ no St Peter –, as famílias se empenharam em fazer uma faxina na construção desgastada pelo tempo. Alguns mostravam com orgulho o espaço que seria o quarto e sala da moradia improvisada, outros preparavam o almoço do grupo na cozinha ou em um fogão a lenha. O cardápio se restringe a arroz e macarrão, fruto de doações.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DF
Com energia, mas sem água
Barracas de acampamento estão instaladas em toda área verde do clube. Os acampados já contam com energia. A água será fornecida em breve pela Caesb. Saber improvisar é pré-requisito para quem adere ao movimento. A água de uma nascente é usada para dar banho nas crianças e lavar panelas; garrafas PET, quando cortadas, servem como pratos e copos.
Os dois vigilantes que trabalhavam no clube foram substituídos por guardas do movimento. “São pessoas de confiança e antigas no MRP, eles se revezam em turnos e só deixam entrar pessoas autorizadas pelos coordenadores”, explica Solange Oliveira, 36 anos, que também responde pelo MRP. Com um filho e grávida de três meses, a mulher se mostra satisfeita com a situação do grupo.

“Uma equipe da Terracap já veio cortar a grama e, em breve, deve demarcar os terrenos para cada família construir um barraquinho”, completou. De acordo com Solange, a relação de nomes das famílias inscritas na Codhab já foi enviada para o GDF. Apesar do movimento alegar que todas as famílias possuem cadastro, a reportagem localizou integrantes que disseram não ter o registro de inscrição.
Cobras encontradas
Com mais de 90 crianças, o acampamento exige atenção redobrada dos adultos. Três cobras foram encontrada pelos sem-teto. Reclamações sobre furtos também são recorrentes entre os invasores. “Já pegaram minha pasta de dente, colher, pratos e lençol. Quando estávamos lá no hotel, tive que trancar minha mochila em um dos banheiros e quebrar a fechadura, estou aprendendo umas artimanhas para driblar a situação”, desabafou uma integrante que não quis se identificar.

Sobre a situação dos acampados, Francinaldo Silva, um dos coordenadores, afirmou que, na medida do possível, tenta atender solicitações e reclamações. “Conversamos com eles para evitar possíveis problemas. O movimento é formado por famílias carentes e honestas. Não levamos nada do hotel, não vamos pagar essa conta”, destacou. Uma nova reunião entre o movimento e o GDF está agendada para esta terça-feira (22/9), no Palácio do Buriti.
O governo entendeu que nosso movimento é legítimo, já regularizamos a situação do MRP e estamos cooperando.
Francinaldo Silva, coordenador do movimento
Polêmica na vizinhança
A chegada dos sem-teto em Taguatinga não agradou aos moradores da QSC 17, região vizinha ao Primavera. Na noite desse domingo (20), eles tentaram impedir a entrada do grupo com barreiras de pneus queimados. A estratégia não deu certo e o tumulto tomou conta do local. A polícia teve de conduzir o comboio de sem-teto para os fundos do clube, onde há uma entrada alternativa. Insatisfeitos com a manobra, os moradores seguiram os veículos, mas não conseguiram evitar a entrada deles no terreno.

Durante a madrugada os vizinhos afirmaram que os invasores tentaram arrombar o portão que dá acesso à rua da QSC 17. Diante do impasse, os moradores tiveram que soldá-lo. “Minha família está preocupada com a nossa segurança. Tentaram entrar aqui em casa para assaltar e chamamos a polícia”, disse o biólogo Lúcio Costa, 43. Ele conta que contratou uma empresa para instalar alarme e câmeras de segurança na residência.
O estudante Guilherme Rangel, 21, também se mostrou insatisfeito com os novos vizinhos. “A sensação é de insegurança”, desabafou. Os moradores da região recolheram 100 assinaturas e acionaram o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), alegando que a região ocupada pelo MRP tem alto valor de preservação ambiental e não pode ser ocupada.
Sobre o clube
O Clube Primavera fez sucesso em Taguatinga desde sua inauguração, em 1972. Nos anos 1980, vivia cheio e o público aproveitava o período de calor escaldante tomando sol e banhando-se nas três piscinas do endereço. Por conta de obrigações trabalhistas não cumpridas pela direção, o Primavera fechou as portas em 2004. O local encontra-se abandonado desde então.



