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“Vamos arrancar sua cabeça.” Jovens infratores ameaçam servidores

Agentes socioeducativos do Ciago, unidade de internação do Recanto das Emas, encontram carta na qual menores falam em rebelião com reféns e morte de funcionários do local. Sindicato levará o caso à Justiça

Andre Borges/Agência Brasília
Suzano Almeida
 

Um dia após o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) recomendar ao governador Rodrigo Rollemberg a instalação de postos da Polícia Militar nas unidades de internação de adolescentes, agentes socioeducativos recolheram, nesta quinta-feira (2/6), uma carta com ameaças a servidores na instituição do Recanto das Emas. Em versos de rap, o documento fala em “rebelião” e em “arrancar cabeças” dos funcionários, citando alguns pelo nome.

Os internos do Centro de Internação de Adolescentes Granja das Oliveiras (Ciago) afirmam que têm facas e outras armas brancas de fabricação caseira  para usar contra os agentes. O caso acendeu o sinal de alerta na unidade.

Segundo o presidente do Sindicato dos Servidores da Carreira Socioeducativa do DF (Sindsse-DF), Cristiano Torres, “as ameaças são graves e serão encaminhadas à Justiça”. Ainda assim, Torres disse que esse tipo de situação é comum e não vai intimidar a categoria. “Essa carta serve para alertar a todos que não trabalhamos em creches, mas também reforça que estamos no caminho certo em tentar manter um mínimo de segurança nas unidades. As ameaças dos internos são comuns no sistema. No entanto, os agentes socioeducativo não vão se intimidar”, assegurou.

O dirigente sindical, entretanto, alertou que a categoria sofre com a falta de efetivo. “Enquanto não houver a implementação de horas extras e a entrada de novos concursados, não há condições de termos as unidades em funcionamento total.”

Arquivo pessoal

 

Recomendação do MPDFT
Na quarta-feira (1°), o MPDFT recomendou ao GDF que determine a instalação de unidades da Polícia Militar nos centros de internação. A medida visa garantir a proteção dos adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas, dos servidores e da vizinhança.

Além da instalação de postos policiais na área externa das unidades de internação, o MPDFT solicita, ainda, a presença contínua de policial militar no interior de cada local. O prazo para o cumprimento da recomendação é de 90 dias.

De acordo com os promotores de Justiça de Defesa da Infância e da Juventude Luciana Medeiros e Renato Varalda, para manter o êxito da proposta punitiva e pedagógica, é necessário a existência de um sistema que garanta a segurança e a integridade de todos. “São 862 adolescentes e jovens nas unidades de internação do DF. Muitos foram internados em razão da prática de atos infracionais graves, oriundos de gangues e rixas. Por isso, os socioeducandos tornam-se vulneráveis a serem vítimas de vingança ou de represálias pelos atos praticados”, explicam.

Também há a possibilidade de rebeliões, fugas e resgate de adolescentes, tanto dentro das unidades quanto durante o trajeto para os fóruns. “São situações que expõem a risco de morte os adolescentes, os jovens e os atendentes de reintegração social, que não possuem autorização para portar armas em serviço”, enfatizam os promotores de Justiça.

Violência
Os episódios envolvendo violência nos centros de internação são recorrentes no Distrito Federal. Em 26 de fevereiro, dois servidores da Unidade de São Sebastião ficaram feridos durante uma tentativa de fuga. Os adolescentes aproveitaram o pequeno número de agentes – somente dois naquele momento – que acompanhava o banho de sol dos internos e tentaram fazê-los reféns. Eles estavam armados de estoques – ferro com ponta afiada – e chegaram a deter um agente e um funcionário da manutenção, mas os dois conseguiram fugir após sofrerem ferimentos leves.

Em janeiro, um adolescente de 14 anos foi assassinado na Unidade de Internação de São Sebastião. O jovem foi enforcado pelo companheiro de quarto. Em dezembro do ano passado, um interno de 17 anos foi morto por outros adolescentes que cumpriam medidas socioeducativas na mesma unidade de internação.