Posto onde começou a Operação Lava Jato vira ponto de venda de drogas à noite

Traficantes aproveitam o movimento de clientes na lanchonete e no bar do Posto da Torre para comercializar entorpecentes como cocaína

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 11/08/2019 10:09

No início da madrugada, quando as bombas de combustível são desligadas e os frentistas encerram as atividades, o Posto da Torre, conhecido nacionalmente por ter sido o ponto de partida para a Operação Lava Jato em março de 2014, se transforma. Traficantes, garotas de programa e usuários de drogas passaram a frequentar o complexo comercial, formado por bares e lanchonetes, e viram oportunidade para lucrar.

O Posto da Torre pertence ao doleiro Carlos Habib Chater, condenado a 10 anos e 11 meses de prisão por crimes contra o sistema financeiro. A pena foi imposta pelo então juiz federal Sergio Moro em setembro do ano passado.

No comércio que ganhou os holofotes na primeira fase da Operação Lava Jato, a venda e o consumo de cocaína e outras drogas nas dependências do estabelecimento são tão intensos que contam com um “revezamento” de traficantes noite adentro. Os banheiros externos ficam ocupados por grupos de usuários até o amanhecer, onde usam os entorpecentes sem serem incomodados.

Durante duas semanas, a reportagem do Metrópoles acompanhou a movimentação, que costuma ser regada a álcool e drogas. Sempre às quartas-feiras – geralmente dia de futebol na TV –, o posto recebe uma multidão. A partir da meia-noite, frequentadores que chegam de carro chamam atenção, quase sempre, pelo som alto. Outros param a bicicleta nos acostamentos e há quem se aproxime a pé.

A lanchonete especializada em comida árabe, o bar com narguilé e a loja de conveniência permanecem abertos e faturam com a venda de bebidas. O comércio de drogas começa com a chegada de dois traficantes, que “dividem” a clientela.

De boné e mochila nas costas, os criminosos se destacam no meio da multidão pela popularidade. Quase todos os frequentadores cumprimentam os dois homens, que transitam por todas as mesas armadas ao redor das lojas.

As transações para a compra do pó ocorrem de maneira discreta, e o consumo é feito, muitas vezes, na companhia deles dentro dos banheiros. As placas que definem os banheiros masculino e feminino são ignoradas.

Homens entram em grupos no sanitário das mulheres e vice-versa, apesar de cada unidade contar apenas com um vaso sanitário. Eles aspiram o pó e deixam o local. A movimentação se prolonga por toda a noite.

“Coisa boa”

Além da cocaína consumida freneticamente nos banheiros, os frequentadores do local cheiram alguma substância dentro de latas de refrigerante – provavelmente solvente. Cigarros de maconha também são acesos entre uma cheirada e outra.

Circulando entre as mesas e passando pelos usuários, a equipe de reportagem chegou a ser abordada em uma madrugada por um dos traficantes. “Tenho coisa boa aqui, posso conseguir o que vocês precisarem, é só chamar”, disse o homem, de boné e calça escura.

Garotas de programa e travestis também aproveitam a grande oferta e a facilidade para comprar drogas no posto. Muitas ficam no local bebendo e consumindo os entorpecentes entre os intervalos dos programas feitos no Setor Hoteleiro Sul. Algumas compram drogas antes de entrar nas boates que exploram a prostituição e funcionam nas redondezas.

Nas mesas laterais ao posto, onde funciona a lanchonete especializada em comida árabe, traficantes aproveitam para retirar a droga de locais onde haviam sido escondidas pelos próprios criminosos. Uma dupla tira os sapatos e as palmilhas dos tênis onde estavam acondicionadas as trouxinhas de cocaína.

Apesar da aparente tranquilidade, os traficantes que atuam no local costumam trocar de roupa durante a madrugada, supostamente para evitar o reconhecimento das autoridades caso haja alguma denúncia. A reportagem flagrou, por duas vezes, os suspeitos mudando as peças de vestuário antes de deixarem o local após toda a droga ser comercializada.

Sem saberem que estavam sendo gravados, alguns frequentadores do local comentaram que os traficantes adquirem a cocaína em cidades no Entorno do DF e repassam durante as noitadas no Posto da Torre.

Briga generalizada

Em uma das noites em que a reportagem esteve no local na semana passada, uma briga de grandes proporções tomou conta do posto. Aparentemente um desacerto entre traficantes e usuários ocorreu. Algumas pessoas chegaram a pegar garrafas de vídeo, cones de sinalização e pedaços de madeira para agredir os envolvidos. Poucos minutos após a confusão com socos, chutes e quebra-quebra entre os dois grupos, viaturas da Polícia Militar chegaram ao local. Naquela ocasião, ninguém foi preso.

Durante a segunda semana do acompanhamento feito pela reportagem, equipes da PM tentaram realizar prisões em flagrante no local. Quando as viaturas encostaram, algumas pessoas correram para trás do posto e desapareceram na escuridão. Arrancando, uma das viaturas tentou perseguir os suspeitos, sem sucesso. Após o retorno dos policiais, um grupo de usuários foi colocado contra a parede e revistado durante a abordagem. Contudo, não houve flagrante nem prisões.

Minutos após a saída dos militares, o esquema de tráfico e consumo de drogas foi retomado até o amanhecer. Alguns usuários fazem do posto uma espécie de drive-thru do pó. Eles encostam os veículos, os traficantes se aproximam, fazem a transação e, em seguida, os compradores deixam o local rapidamente. Alguns, além da droga, saem com garotas de programa que batem ponto no posto.

 

Réu na Lava Jato

Mesmo após a descoberta do maior esquema de corrupção da República com a Operação Lava Jato, o Posto da Torre se mantém em operação. Desde então, ampliou as atividades: além do comércio de combustíveis, foram abertos lanchonete especializada em culinária árabe, bar e loja de conveniência. Também há uma lavanderia.

No ano passado, o dono do local, o doleiro Carlos Habib Chater, foi condenado, na operação Lava Jato a 10 anos e 11 meses de reclusão pelo então juiz federal Sergio Moro. O nome da operação, aliás, se refere ao Posto da Torre, embora ali nunca tenha existido um serviço de limpeza de veículos. Aquela foi a terceira condenação do doleiro no âmbito das investigações que miram desvios na Petrobras. Chater, contudo, recorre em liberdade.

Durante as apurações conduzidas pela Polícia Federal, o posto foi apontado como uma espécie de “caixa eletrônico da propina”, tendo gerenciado contas que movimentaram pelo menos R$ 10,8 milhões entre 2007 e 2014. A perícia da PF conseguiu levantar provas de que o dinheiro transitou por 375 contas bancárias. Também no posto, funcionava uma casa de câmbio, atualmente fechada, a ValorTur, que, segundo agentes federais, lavava dinheiro.

Chater foi citado em uma das delações premiadas feita pelo doleiro Alberto Youssef, personagem central nas investigações, como sendo um dos intermediários da propina a agentes públicos e políticos no esquema de corrupção que operou na Petrobras. Youssef é o principal acusado de lavar dinheiro desviado de contratos superfaturados da estatal para políticos.

Ao longo da semana passada, o Metrópoles procurou duas vezes os administradores do Posto da Torre, na tentativa de conversar com Chater sobre o esquema de tráfico de drogas que passou a invadir o local durante as madrugadas. No entanto, as duas interlocutoras que conversaram com a reportagem afirmaram que retornariam as ligações, o que não havia ocorrido até a última atualização desta matéria.

Habib Chater

Há mais de três anos, a extinta revista Veja Brasília publicava a matéria Sujo e Mal Lavado, que trazia um perfil detalhado de Carlos Habib Chater. A reportagem, da diretora de redação do Metrópoles, Lilian Tahan, detalhava a longeva carreira do personagem como doleiro em Brasília, sua lista de empresas (“todas elas amparadas em contratos falsos e em nome de laranjas”), seu envolvimento com o tráfico internacional de drogas e as inserções no submundo da corrupção da política nacional.

Conjur/Reprodução
Carlos Habib Chater: doleiro envolvido na Lava Jato foi condenado três vezes no âmbito da operação

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