Paradas do medo: pontos de ônibus do DF têm mortes e até arrastão

Assaltos com faca, arma usada por bandidos que chegam de bicicleta, moto e até carro, são recorrentes nas primeiras horas do dia

Insegurança nas paradas de ônibus geram medo na população - Santa MariaFoto: Myke Sena/ Especial para o Metrópoles

atualizado 15/03/2020 13:25

Antes de o sol nascer, muitos usuários do transporte público já aguardam por ônibus no Distrito Federal. Acostumados a enfrentar o transporte cheio, os passageiros são atormentados por outro problema: assaltos nas primeiras horas do dia. A morte a facadas do professor Hebert Silva Miguel, 26 anos, no último dia 7, em uma parada de ônibus, causou ainda mais tensão em quem não tem alternativa para se deslocar.

O Metrópoles percorreu vários pontos em regiões administrativas da capital do país e conversou com quem espera por condução nas primeiras horas da manhã, assim como o docente, assassinado por volta das 6h. Segundo os usuários, o problema da insegurança é crônico. Pontuam ainda sobre a falta de estrutura.

Quem necessita sair de casa cedo para não perder o coletivo precisa conviver com o medo. Na QR 203 de Santa Maria, o horário crítico é entre 5h e 7h. De acordo com a doméstica Conceição de Lima, 60, assaltantes armados passam de bicicleta e levam os pertences de quem aguarda o trasporte público. “Eles aproveitam que a claridade é pouca e o comércio está fechado”, relata.

A camareira Cristina Silva, 44 , é amiga de Conceição e ambas sempre vão juntas para o ponto de ônibus, por volta das 5h30. “A gente fica atenta. Eu mesma evito utilizar o celular e fico observando a movimentação”, diz.

Marido de Cristina, Domingos Martins, 43, faz questão de acompanhar as duas, mesmo não trabalhando cedo. “A gente sabe que não consegue empatar com os criminosos, mas é uma tentativa de inibir”, pondera. Mesmo assim, ele ressalta que há situações em que o melhor mesmo é correr. “Se vir um cara chegando de bicicleta, já pode ficar ligeiro”, avisa.

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Sol Nascente

No Sol Nascente, em frente à Unidade Básica de Saúde (UBS) 16, o modus operandi dos marginais é mais refinado. De acordo com o funcionário público Roberto Laroqui, 32, é comum, por volta das 5h, vários bandidos dentro de veículos descerem dois quilômetros pelo balão da Avenida Hélio Prates, saindo da Feira do Produtor e ultrapassando o posto de saúde, para assaltar trabalhadores. “Eles passam pegando todo mundo, fazendo arrastão. Sai um do carro e vai tomando bolsa, mochila, marmita. É a mesma coisa sempre”, lamenta.

Ele próprio já foi assaltado três vezes no mesmo local – a última, em janeiro. O servidor público afirma não ter opção: “Aqui é o único lugar onde posso pegar meu ônibus; não tenho para onde correr”, resigna-se.

Mesmo sendo alvo recorrente de criminosos, a rua raramente tem a visita de viatura policial, reclama Roberto. Conforme conta, só é vista alguma movimentação das forças de segurança depois que o arrastão acontece. “Só fazem uma figuração, para dizer que vieram. É aquela maquiagem”, salienta.

A insegurança faz com que Ana Teodoro de Morais, 48, dona de um carrinho de doces e salgados atrás do ponto de ônibus, chegue ao local apenas depois de amanhecer. “Prefiro ganhar um pouco a menos a correr o risco”, explica.

Segundo a trabalhadora, além das paradas, as lojas ao redor também estão na mira dos bandidos. “Tinha um restaurante bem aqui em frente. Foi assaltado duas vezes e fechou. A dona não aguentou”, relata.

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Os moradores de Samambaia passam pelo mesmo problema. Na QN 410, um beco localizado logo atrás de um ponto de ônibus serve para dar fuga aos bandidos – que já são até conhecidos dos usuários. “Eles param a moto ou o carro ali atrás, descem aqui e depois saem correndo”, diz a vendedora Maria do Socorro, 44.

O medo fez com que ela passasse a aguardar o transporte público na rua de cima, mais movimentada. “Aqui fica bem escuro e não tem policiamento. Tinha um posto policial perto, mas acabou fechando”, lamenta.

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Abrigo físico não existe na Quadra 1 do Setor Leste da Cidade Estrutural. A falta de estrutura torna ainda mais complicada a vida dos usuários. “Quando o comércio está fechado, aqui é muito perigoso”, alerta a operadora de loja Tamara Lopes, 20.

 

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O outro lado

Procurada, a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) pontuou que, “para coibir roubos dentro dos coletivos e nas paradas de ônibus, a participação conjunta dos rodoviários, da comunidade e da PM em grupos de mensagens, nos quais há troca de informações sobre suspeitos e suas formas de agir, tem sido uma estratégia fundamental”.

Segundo a corporação, são realizadas “inúmeras operações a fim de evitar o cometimento de crimes como, por exemplo, a Operação ‘Anjo da Guarda’, que consiste em abordagens aos ônibus e usuários”. Assinala ainda que “blitzes são realizadas de forma sistemática nas principais rodovias de todo o DF, o que tem contribuído para a diminuição desse tipo de crime”.

A nota enviada pela PMDF aponta ainda “que a reincidência é um fator que dificulta o trabalho da Polícia Militar”.

Nesse sentido, policiais militares à paisana têm sido colocados no interior dos coletivos em operações específicas. Em 2019, a corporação prendeu ou apreendeu 13.346 pessoas por diversos crimes. Nos dois primeiros meses deste ano, informou a força de segurança, foram realizados 1.519 flagrantes, resultando em 1.699 detidos e 450 menores apreendidos.

A Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) foi procurada para comentar sobre a quantidade de ocorrências registradas por assaltos em paradas de ônibus, mas disse não ter esse dado. O número, destacou a pasta, está inserido nos casos de roubo a transeunte, que totalizam 4.526 nos primeiros dois meses de 2020.

Já a Companhia Energética de Brasília (CEB) se manifestou com relação às reclamações sobre a pouca ou nenhuma claridade nas paradas de ônibus mencionadas nesta reportagem. Segundo a empresa pública, foi acionada “uma equipe de manutenção para vistoriar e realizar os reparos na iluminação dos locais indicados”.

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