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Respeitado e temido entre os criminosos, Fernando Henrique de Oliveira Ribeiro (foto em destaque), 28 anos, preso na Operação Circuitus, na quinta-feira (19/10), tentava não chamar atenção dos vizinhos. Integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC), ele mantinha uma rotina simples com a mulher e o filho pequeno.

A família vivia em um condomínio de classe média em Valparaíso, município goiano vizinho ao DF. Morando na divisa com a capital, Fernando conseguiu montar uma célula criminosa que cometia roubos e homicídios em Brasília e no Entorno.

Segundo a polícia, o objetivo do criminoso era expandir os negócios e se consolidar na região com o aliciamento de mais “soldados” para uma nova organização na qual ele seria o mentor. No entanto, o plano foi frustrado nesta quinta após operação deflagrada pela Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos (DRFV). A investigação durou três meses.

Nascido em Brasília, Fernando Henrique ou Nandinho – como é chamado pelos comparsas – passou a ganhar a vida com roubos e assaltos. Em setembro de 2015, chegou a ser preso pela Polícia Civil de Goiás, em Cristalina (GO).

Fuga cinematográfica
À época, os investigadores apontaram Fernando e mais três pessoas como autores de diversos assaltos praticados em Luziânia (GO). No dia 14 do mês seguinte, o criminoso organizou uma fuga cinematográfica no Presídio de Cristalina.

Michael Melo/Metrópoles

Fernando Henrique, preso na Operação Circuitus

 

Fogos de artifício
Enquanto adolescentes soltavam fogos de artifício do lado de fora do complexo, 23 detentos serravam a laje da cela. O barulho dos rojões camuflou a movimentação dentro da unidade. Funcionários de um frigorífico próximo à penitenciária contaram a policiais militares que viram um grupo de homens vestidos de branco – cor da roupa usada por detentos – correndo em direção a um matagal. Um suspeito foi preso em flagrante e outros cinco acabaram capturados em seguida.

A comunicação do homem com grupos que ainda cumprem pena em presídios de Goiás era intensa. Eles se tratavam como “irmãos”. Atuante no PCC, Fernando Henrique tinha o cargo de “comando-geral”. Partia dele autorizações para o cometimento de homicídios e roubos. A rede de contatos do bandido levou a polícia a investigar outras quadrilhas ainda em operação no Distrito Federal.

Ele queria usar o que aprendeu com a facção para implementar uma organização perigosa, que faz uso de arma de fogo. Fernando tem um grande conhecimento na adulteração de veículos e documentos. Foi preciso antecipar a operação porque eles ofereciam risco para a comunidade"
delegado-chefe da DRFV, Marco Antônio Vergílio

Fernando tinha preferência por atuar nas sombras. Por isso, evitava circular pelas ruas de Brasília e do Entorno. Capcioso, chegou a passar por apuros ao ser parado em uma barreira policial, mas apresentou uma identidade falsa e escapou sem maiores problemas.

Organizados
O grupo alvo da investigação da DRFV foi formado por Fernando Henrique. As ações eram sempre meticulosamente organizadas. Existiam equipes responsáveis por cometer os roubos, outras que se dedicavam à ocultação de automóveis e as que adulteravam os sinais identificadores dos carros. Até a mãe de um dos presos foi autuada por receptação, pois veículos com placas clonadas estavam na residência da mulher.

Os carros mais visados pelos comparsas eram os de fácil aceitação no mercado, como Toyota Corolla e Fiats Palio, Uno e Strada. Fernando e seu bando responderão pelos crimes de receptação, adulteração de sinais identificadores, falsificação de documento público, posse ou porte de arma de fogo e associação criminosa. De acordo com a Polícia Civil, o grupo atuava em Sobradinho, Asa Norte, Lago Norte e Santa Maria. Em Goiás, as ações eram praticadas em Luziânia e Valparaíso.


Outros presos
Entre os detidos na operação, está Lucas Marques Rodrigues, de 19 anos – com histórico de assaltos e receptações. O jovem, que aliciava outros criminosos para transportarem os veículos roubados, “trabalhava” diretamente com Fernando Henrique.

Também foi presa Susan Monique Carvalho Silva, 31, companheira de Lucas, que auxiliava o grupo mantendo contato com os criminosos e traçando estratégias de atuação. O lote em que ela mora era usado para guardar veículos roubados.

Com passagens por latrocínio e homicídio, Diego Felix Rodrigues da Silva, 30, e Fábio Júnior da Silva Ferreira, 33, cometiam os roubos. Violentos, sempre agiam munidos de armas de fogo. As pistolas, inclusive, eram usadas em confrontos com integrantes de grupos criminosos rivais de Sobradinho. Jardeon Dias Carneiro, 33, também detido pela DRFV, fornecia o armamento.

DF como alvo
Há mais de cinco anos a polícia registra tentativas do PCC de fincar raízes no Distrito Federal. Em 2014, a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Deco) descobriu que integrantes da organização criminosa se preparavam para invadir a Penitenciária de Águas Lindas (GO) e resgatar lideranças que atuavam em Brasília antes da prisão.

A investigação apontou que o grupo finalizava a logística da operação e fazia uma espécie de vaquinha entre os integrantes para financiar o assalto ao presídio. Seis criminosos do bando seriam libertados numa provável ação violenta. Um deles era Sirlon Francisco Nunes, o Simbá. Na hierarquia da quadrilha, ele atuava como “gerente regional”. Eram dele as ordens para o cometimento de roubos, sequestros e homicídios no DF e em Goiás.

Advogados recrutados
No mesmo ano, a mesma delegacia especializada investigou a participação de advogados recrutados pelo PCC em Brasília. Conhecidos como “sintonia geral dos gravatas”, os defensores eram responsáveis por levar informações a lideranças presas no Complexo Penitenciário da Papuda.

Já em abril deste ano, a Polícia Civil deflagrou uma megaoperação para conter o avanço da facção na capital do país. Na ocasião, foram expedidos 54 mandados de prisão, sendo 42 para pessoas que já estavam encarceradas.

Os investigadores identificaram o chefe da filial criminosa em um presídio no Paraná. Gilvane de Assis, 33 anos, cumpre pena na Penitenciária Estadual de Foz do Iguaçu II e foi alvo de um dos oito mandados de busca e apreensão que a Deco cumpriu na cadeia paranaense.

Na cela de Gilvane, policiais apreenderam um livro com diversos manuscritos que apontam o nome, o apelido e a função de todos os integrantes que fazem parte da célula. Mesmo atrás das grades em um presídio no sul do país, ele conseguia enviar ordens por meio de celular a outros criminosos que estavam nas ruas do DF e nas cadeias do Entorno.

 

 

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