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Há um ano, a diarista Isabel de Sousa Braga, 56 anos, sentiu um nódulo no seio e procurou o posto de saúde próximo de casa, no Riacho Fundo II. Desde então, a busca por diagnóstico se tornou uma jornada sem fim. “Me indicaram uma mamografia, mas nunca havia vaga e não consegui marcar o exame. Agora, quando eu vou ao clínico geral, ele já não me encaminham mais. Os nódulos aumentaram, eu sinto dor. Estou sem expectativa de tratamento”, desabafa.

O drama de Isabel é partilhado hoje, por 8 mil mulheres no Distrito Federal. Segundo a Secretaria de Saúde, esse é o número de pessoas que aguardam por uma mamografia — exame indicado ao público feminino acima dos 50 anos, que detecta nódulos nos seios. “É perigoso quando você deixa de ter o diagnóstico precoce e só faz depois, quando os primeiros sintomas aparecem. A possibilidade de cura passa a ser menor”, ressalta Carolina Fuschino, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia/Regional Distrito Federal.

O Distrito Federal tem 12 mamógrafos espalhados pela rede pública, mas só quatro estão funcionando. O problema ganha dimensão maior ainda quando se sabe que o câncer de mama é a maior causa de morte de mulheres no Brasil, principalmente na faixa etária entre 40 e 69 anos. Devido à gravidade da situação, este mês é dedicado, anualmente, à campanha do Outubro Rosa não apenas no país, mas em todo o mundo.

O tratamento em Brasília está muito aquém do necessário. O diagnóstico tardio não traz apenas mais sintomas, ele aumenta o número de mortos e é isso que o Governo do Distrito Federal vai colher se nada for feito"
Carolina Fuschino, médica

A Sociedade Brasileira de Mastologia aproveita a data para conscientizar a população da importância de se detectar precocemente tumores desse tipo. O problema é que, na rede pública do DF, diagnosticar a doença no início está tão difícil quanto ter acesso ao tratamento.

Fila de espera para o tratamento
Se a mulher vencer a etapa para marcar uma mamografia na rede pública e tiver o infortúnio de ser diagnosticada com o câncer, precisa entrar em mais uma fila de espera para receber o tratamento adequado. Hoje, há 1.035 pacientes esperando para fazer radioterapia e mais 14 para a quimioterapia.

“O ideal é que a pessoa com câncer seja tratada o mais rapidamente possível. Nós alertamos as mulheres sobre a importância de fazer os exames com o Outubro Rosa, mas do que adianta se elas não têm acesso aos procedimentos?”, lamenta a médica Carolina Fuschino.

Apesar dos relatos, a Secretaria de Saúde garante que pacientes diagnosticados com câncer de mama são acompanhados por um mastologista e um oncologista. “A partir da primeira consulta com o especialista, o paciente já pode agendar o tratamento a ser realizado”, disse a pasta, por meio de nota.

Segundo a secretaria, se uma mulher perceber um caroço na mama, a orientação é que “ela procure o centro de saúde mais próximo da residência. O clínico avaliará a paciente e a encaminhará para o especialista, caso haja necessidade”.

Justiça
No mês passado, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação na Justiça pedindo para que o Governo do Distrito Federal zere a fila de espera para mamografias em até 180 dias. O órgão também solicitou que o governo termine em 45 dias o processo de contratação da empresa que fará a manutenção dos mamógrafos que estão estragados. No entanto, segundo o MPF, por enquanto, as partes ainda foram apenas intimadas e não há prazo para nenhum tipo de decisão.

Sem acesso aos exames e tratamentos, cada vez mais a população aciona a Defensoria Pública. “Só em setembro, 125 pessoas nos procuraram em busca de tratamento oncológico e você pode ter certeza que a maioria é para tratar o câncer de mama. E tem que procurar mesmo, não podemos deixar essas pessoas à margem do acesso à saúde”, afirma Celestino Chupel, coordenador do Núcleo de Saúde da Defensoria Pública do DF.

Cura possível
O rápido diagnóstico e o tratamento imediato são imprescindíveis para aumentar em 90% as chances de cura do câncer de mama. Foi o que ocorreu com quatro mulheres que não se conheciam, mas que tiveram trajetórias parecidas, de muito sofrimento e dor. E, hoje, a administradora Joana dos Anjos, 40 anos; a aposentada Maria das Neves, 54; a empresária Cristiane Bittencourt, 34; e  a dona de casa Maria de Fátima Moura, 62, celebram a vida, pois estão curadas.

Confira o emocionante depoimento delas:

 

 

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