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Esquema da Máfia das Próteses é muito maior, diz delegado

Adriano Valente garante que prisões, documentos apreendidos e relatos de vítimas revelam que o esquema envolvendo médicos, empresas e hospitais é bem maior. Há fortes indícios do envolvimento de planos de saúde e funcionários das operadoras

João Gabriel Amador/Metrópoles
João Gabriel Amador
 

O delegado-adjunto da Divisão de Repressão ao Crime Organizado (Deco), Adriano Valente, diz que a Operação Mister Hyde, que revelou o suposto esquema envolvendo médicos, empresas do ramo de órteses e próteses e hospitais do Distrito Federal terá novos desdobramentos para alcançar outras pessoas e outros grupos envolvidos. Na mira das investigações estão as operadoras e funcionários de planos de saúde. “Já sabíamos que se tratava de um esquema grande. E esta foi apenas a primeira fase (da operação). É apenas a ponta do iceberg. Conforme a investigação avance, novos suspeitos devem ser identificados”, afirma Valente.

De acordo com as apurações, alguns planos de saúde chegaram a desembolsar até três vezes mais os valores de mercado nos procedimentos dos médicos e hospitais envolvidos. Há suspeita de facilitação e “vista grossa” nas auditorias internas. O termo “auditorias frágeis”, usado revelado nas escutas da Mister Hyde, é, na avaliação da polícia, um forte indício de participação de funcionários das operadoras no esquema.

Essa nova linha de investigação, entretanto, só será iniciada após a coleta dos depoimentos das vítimas. Mais de 50 vão ser ouvidas. Somente na manhã desta quinta-feira (8/9), três pessoas estiveram na Deco, no Setor de Indústrias e Abastecimento (SIA), e relataram complicações sérias após passarem por procedimentos feitos por médicos citados na operação Mister Hyde, deflagrada na quinta-feira na semana passada (1º/9).

Entre as pessoas que foram na Deco está um aposentado (foto acima), que preferiu não se identificar. Ele afirma sofrer com constantes dores depois de ter passado por uma cirurgia na perna, em janeiro deste ano. “Tive uma pequena fratura na tíbia e colocaram 10 parafusos no meu osso. Já faz oito meses e a situação não melhorou”, conta. O homem teve de pagar R$ 70 mil pelo procedimento feito pelo médico Juliano Almeida e Silva no Hospital Home. O médico é um dos envolvidos no suposto esquema e foi preso durante a operação deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

Outra vítima, que também não se identificou por medo de retaliação, conta que teve quatro parafusos colocados na coluna, mas três quebraram. Ao buscar a opinião de um outro especialista, não envolvido com a máfia, ficou sabendo que a cirurgia foi desnecessária. “Agora convivo com dores e não consigo fazer atividades comuns, como lavar louça ou levantar peso”.

Mesmo quem não teve danos visíveis está buscando orientação na polícia. Um auxiliar de produção que passou por uma cirurgia na lombar se diz decepcionado com o médico Rogério Damasceno, outro envolvido no suposto esquema. “Eu confiava nele. Falávamos sobre a família, sobre os filhos. Mas agora não tenho certeza se o que foi colocado em mim é de boa procedência”. O paciente conseguiu a lista de materiais usados em sua operação e buscará outro especialista para saber se as próteses foram necessárias. As vítimas que registraram ocorrência devem ser chamadas para prestar depoimento na próxima semana.

Vítimas
O delegado Adriano Valente afirma que já são mais de 30 possíveis vítimas que buscaram a divisão, somente em uma semana, mas o número é bem maior. “Hoje (quinta) mesmo recebi ligações de outras delegacias que ouviram pessoas que se sentiram lesadas pelos investigados”, conta.

Até esta sexta (9), o delegado deve reunir e catalogar os documentos e ocorrências. A partir da próxima semana, as supostas vítimas começarão a ser chamadas para depoimentos mais detalhados. Nos casos em que os erros médicos forem mais prováveis, as pessoas serão encaminhadas para perícia.

O delegado informou ainda que, após a investigação do esquema da Máfia das Próteses, serão instaurados inquéritos individuais a fim de tipificar os danos causados às vítimas. Valente reforça que aqueles que acreditarem ter sido lesados pelos envolvidos no esquema devem procurar a delegacia para orientação.

Muitas pessoas disseram que tinham medo de processar o médico, por não acharem que não conseguiriam uma vitória na Justiça. E infelizmente esse temor condiz com a realidade. Mas, com o inquérito policial, esperamos que a situação seja diferente"
Adriano Valente, delegado-adjunto da Deco

Dos 13 presos na Operação Mister Hyde, cinco conseguiram habeas corpus no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) e deixaram a carceragem do Departamento de Polícia Especializada (DPE), ao lado do Parque da Cidade, por volta da meia-noite de sexta-feira (2). São eles: os médicos Rogério Gomes Damasceno, Wenner Costa Catanhêde, Henry Campos e Leandro Flores, além de Mariza Martins, que seria sócia da TM Medical, uma das empresas que estariam envolvidas com a máfia das próteses.

Os outros acusados foram levados para a Papuda. “Eles devem ficar presos enquanto a investigação não terminar”, diz o delegado. Segundo Valente, os investigados mantiveram-se em silêncio até o momento.

 

 

 

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