Acumuladores são alvos de fiscalização no combate ao Aedes aegypti
Regionais de saúde estão mapeando residências de pessoas que não conseguem se desfazer de objetos que podem atrair o mosquito e orientam os acumuladores a buscarem tratamento
atualizado
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Com o aumento nos casos de dengue no Distrito Federal, o governo do DF tem atacado o mosquito Aedes aegypti em diversas frentes. Além das casas abandonadas e dos focos no meio da rua entre os alvos, estão os acumuladores de lixo — pessoas que muitas vezes possuem transtornos psicológicos e reúnem grande quantidade de objetos, que podem trazer riscos à saúde de todos.
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As regionais de saúde são responsáveis pela identificação dessas pessoas. A primeira ação com esse foco começou a ser realizada no Gama há duas semanas, onde foram mapeadas 18 residências em que há acúmulo de lixo. As visitas — promovidas pela equipe do Comitê Executivo Intersetorial de Gestão do Plano de Prevenção e Contingência da Dengue (Geiplandengue-Gama) — começaram pelo Centro de Saúde 1, para percorrer a Quadra 4, a Comercial da Quadra 3 do Setor Sul e a Quadra 23 do Setor Leste.Na Quadra 3, os fiscais tiveram dificuldade para entrar em uma das residências. A moradora não quis abrir a porta para os agentes. Somente após muita conversa, ela permitiu que eles entrassem e procurassem focos do mosquito em seu terreno. “A quantidade de lixo é tão grande que dificulta a vistoria. Apenas em uma casa foram encontrados dois baldes grandes, dois tambores e diversos outros recipientes pequenos que acumulavam água da chuva e continham larvas. Nós aplicamos larvicida e tratamos todo o local”, relatou o chefe da Vigilância Ambiental do Gama, Edson Rocha.
A moradora não quis falar com a reportagem, mas os vizinhos disseram temer a situação. “Nós já acionamos as autoridades algumas vezes. Minha casa tem criança pequena, tenho muito medo de que fiquem doentes”, reclama Elisângela Ribeiro, 36 anos, que mora no prédio ao lado.
Diretor da Associação Psiquiátrica de Brasília, Carlos Guilherme Figueiredo explica que o perfil psicológico de um acumulador é complexo e caracteriza-se pelo hábito de guardar bens considerados sem grande importância. Podem ser vasilhas, garrafas ou qualquer recipiente, que acabam se tornando habitat do mosquito transmissor.

Para o especialista, não basta retirar o entulho dessas casas. “Em muitos casos, quem apresenta o transtorno de acumulação não percebe que aquela atitude pode trazer risco à sua saúde e a de demais pessoas. O ideal é que ela seja encaminhada ou orientada a buscar tratamento. Caso isso não ocorra, é provável que volte a juntar objetos”, explica Figueiredo.
A Secretaria de Saúde informou que os profissionais da pasta são instruídos a orientar os acumuladores a buscar tratamento nos Centros de Atenção Psicossocial. “No entanto, o mais difícil é o paciente aceitar que tem algum problema”, afirmou a secretaria, em nota.
O transtorno, no entanto, não impede a vistoria da fiscalização. Segundo a Agefis, nos casos em que há recusa do morador em permitir a entrada dos agentes, os servidores são orientados a conversar, como primeira alternativa, e, se ele ainda assim não permitir a vistoria, a vigilância recorre a um alvará judicial que obriga a entrada nesses imóveis.
Outros casos envolvem menos esforço. Na Quadra 9, os moradores de uma das casas visitadas se prontificaram a mudar a situação. “Eles ofereceram um caminhão para levar os entulhos de casa. Marcaram para vir na semana que vem. Por mim, eu dava tudo”, conta a dona de casa Márcia Almeida, de 35 anos. Segundo ela, parte dos objetos são do marido, que recolhe materiais da rua para revendê-los. Sempre tem solução.
