Salada de personagens em teatro frustra crianças e deixa pais pistolas
Ingressos foram vendidos como show oficial da "Bluey", mas público se deparou com espetáculo genérico e confuso de outros personagens

Domingo (18/5) foi dia de frustração para dezenas de famílias que estiveram no Teatro Royal Tulip, em Brasília. Pais se programaram e filhos ficaram eufóricos para assistir ao espetáculo infantil anunciado como oficial da personagem Bluey. Porém, quando abriram as cortinas, a surpresa: sem qualquer aviso prévio, o público se deparou com uma apresentação genérica, que misturava personagens da Patrulha Canina, a Moana e Stitch. Até o Homem-Aranha estava no elenco.
Débora Vieira, 41 anos, foi uma das mães que se sentiram enganadas. Ela levou o filho Teo, 2, para assistir à peça e conta que a troca foi frustrante, especialmente pelo perfil do público que consome o desenho.
“Quem vai assistir o show da Bluey é um público muito específico. É um desenho com pouco estímulo visual, ideal para crianças neurodivergentes. Meu filho nunca assistiu Patrulha Canina ou Homem-Aranha. O único desenho que ele assiste é esse, liberado após avaliação da neurologista dele”, relata.
Com a nítida insatisfação do público, a produção improvisou uma curta aparição da personagem ao fim da apresentação — cerca de 10 a 15 minutos. “A encenação foi insuficiente e deu a impressão de uma tentativa emergencial de conter a frustração dos espectadores. Inventaram um enredo improvisado com um urso atacando uma família, e depois a mãe da Bluey começa a espancá-lo com um cassetete. Como colocam uma cena de agressão num espetáculo infantil?”, questiona. “A cachorrinha ensina diálogo, empatia, nunca violência”, conclui.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles DF
Frequência de envio: Diário
Ver todasUm dos organizadores alegou, em vídeo, que a substituição foi feita de última hora, mas os pais suspeitam que a mudança já estava em curso dias antes. O Metrópoles apurou que, desde a segunda-feira anterior ao evento (12/5), os ingressos estavam sendo comercializados sob o nome “Festival Kids” — e não mais como “Bluey”.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DFConsumidores que já haviam adquirido entradas anteriormente afirmam que não foram notificados sobre a alteração. “Entrei em contato com a Bilheteria Digital, e me disseram que a mudança para Festival Kids foi por questões burocráticas, mas que o espetáculo continuaria sendo da Bluey”, relata Eber Melo, 43, que levou o filho, de 4 anos, ao evento.
Assista ao pronunciamento:
O caso pode configurar propaganda enganosa, segundo o advogado Alexandre Patara, especialista em direito do consumidor. Ele explica que o artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor (CDC) proíbe publicidade enganosa e que os pais foram induzidos ao erro ao adquirirem ingressos para um espetáculo que não foi entregue como anunciado.
Patara também destaca a violação do direito à informação clara e adequada, previsto no artigo 6º do CDC. “Os consumidores têm direito à devolução do valor pago ou a um abatimento proporcional, conforme o artigo 35. Em caso de negativa por parte dos organizadores, é possível exigir judicialmente a rescisão do contrato e reembolso integral, com atualização monetária e até mesmo pedido de indenização por danos materiais e morais”, detalha.
Em nota o Teatro Royal Tulip lamenta pelo ocorrido no último fim de semana e informa que é responsável estritamente pela locação do espaço para espetáculos. Dessa forma, o Teatro não se responsabiliza pelo conteúdo apresentado e por quaisquer informações sobre produção e comercialização de peças.







