Quem é a jovem engenheira que coordenou a implosão do Torre Palace
Aos 31 anos, engenheira goiana coordenou a operação de implosão de um dos prédios mais icônicos de Brasília
atualizado
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O fim da história do icônico Torre Palace foi marcado por aplausos e euforia por parte dos espectadores que presenciaram a implosão, no último domingo (25/1), que reuniu centenas de pessoas. A implosão, que durou aproximadamente cinco segundos, foi coordenada pela engenheira Lorrana Oliveira, de 31 anos.
O processo, no entanto, levou meses de preparação e marcou não só o fim de um dos prédios mais simbólicos de Brasília, mas também a consolidação da trajetória de uma engenheira que precisou insistir muito mais do que o normal para chegar até ali.
Natural de Formosa (GO), Lorrana se formou em 2018 no Instituto Federal de Goiás (IFG) e, desde 2019, trabalha na empresa responsável pela implosão do Torre Palace.
Na implosão, foram utilizados cerca de 165 kg de explosivos para derrubar a estrutura do prédio. O material foi instalado nos pavimentos térreo, 1º, 2º, 3º e 7º, totalizando 600 metros perfurados nos pilares.
Ela explica que o caminho até a execução da implosão é longo e envolve diversas etapas técnicas e burocráticas. “O processo de implosão é mais demorado do que o posicionamento, do que o carregamento de explosivos. Tanto é que a equipe começou a carregar explosivos três dias antes da implosão”, disse.
O planejamento envolveu autorizações e articulações com diferentes órgãos. “Foi um processo de conseguir licença, de gesticular com os órgãos de segurança pública, fazer reuniões e combinar qual o limite de afastamento e as posições da segurança pública dentro do projeto”, detalhou.
Trajetória profissional
Em busca de melhores oportunidades, Lorrana deixou a cidade natal e construiu carreira em Brasília. Inserida em uma área majoritariamente masculina, ela afirma que os desafios nunca foram motivo para desistir.
“Foi muito desafiador, essa nossa área é muito desafiadora em geral, pra gente que é mulher e tem que ficar mostrando que a gente consegue fazer direito”, disse.
“No meu curso a maioria era homem, mas isso não me desmotivava. Eu gostava muito de cálculo e eu fui percebendo que a gente tem que ter coragem”.
Filha de uma empregada doméstica e de um cabeleireiro, a trajetória profissional começou cedo, ainda como estagiária na Saneago (GO), onde aprendeu a se posicionar desde o início e conquistou o mérito de participação no desenvolvimento da cidade.
“Eu consegui implantar no sistema de abastecimento de água um programa chamado Epanet, que dava para mapear toda a rede de distribuição de água para acompanhar as pressões, e atualizar o cadastro. A gente começou a modular a cidade, por exemplo, quando faltava água numa região, não faltar em outra”, disse.
Após deixar a cidade natal, Lorrana construiu carreira em Brasília, onde passou de assistente de engenharia a gestora de grandes projetos. Ela contou que começou a trabalhar na empresa atual em 2019, como assistente de engenharia.
Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade que não podia deixar passar: o projeto de implosão do Torre Palace. Lorrana foi a escolhida para gerir o encerramento da história de um dos edifícios mais icônicos da capital federal.
“Eu estava com um pouco de medo porque mexer com explosivos tem que ter medo mesmo. Não é porque você trabalha com ele, que você vai perdendo o medo. O medo pra quem mexe com explosivo é bom”, disse.
Segundo Lorrana, a confiança da chefia foi fundamental para que ela pudesse atuar no projeto. Ela foi responsável por gerir os contratos e acompanhar todos os processos da equipe de perto.
“Eu me senti honrada e achei que meu chefe me transmitiu muita confiança, me passou muita responsabilidade e me deu uma oportunidade, que é isso que a gente precisa”, afirmou.
“Eu costumo dizer que estou lutando por um futuro melhor para as mulheres. Um futuro com mais oportunidade porque eu já recebi muito não em entrevistas. E, às vezes, muitas vezes, não é pelo potencial, é pelo gênero”, disse.
Inspiração e críticas
Após a repercussão da implosão do Torre Palace, Lorrana conta que passou a receber inúmeras mensagens de apoio, principalmente de mulheres e engenheiras civis que se sentiram representadas por sua atuação no projeto.
“Recebi muita mensagem, principalmente de engenheira civil, comentando que se sentiram inspiradas, que gostaram muito da minha participação. Eu fiquei até emocionada com tantos comentários”, afirmou.
Segundo ela, incentivar mulheres a estudar, trabalhar e conquistar independência financeira é um dos impactos mais importantes desse reconhecimento.
Lorrana destaca que o retorno feminino teve um peso especial: “Eu gostei muito dessa parte de incentivar as mulheres no mercado de trabalho. De estudarem, de não desistirem. De não acharem que é impossível.”
Servir de inspiração, segundo a engenheira, traz um sentimento de dever cumprido, ainda mais após vivenciar episódios de machismo ao longo da carreira.
Ela lembra que, em algumas situações, oportunidades lhe foram negadas por ser mulher e jovem, mas isso acabou funcionando como motivação.
“O proprietário da casa falou que não queria, que eu era mulher e era muito jovem. E aí isso me dava motivação. Porque eu ia lá e fazia um projeto além do que é para ser”, relatou.
O apoio familiar também foi decisivo para que ela seguisse na profissão. “Tinha vezes que eu falava, mãe, vou desistir, não tô aguentando mais, tá muito difícil a faculdade, mas ela sempre me apoiou muito”, contou.
Em meio aos elogios, vieram também as críticas, principalmente de homens nas redes sociais, que questionaram o resultado da implosão por o prédio não ter caído de forma totalmente vertical. Lorrana explica que a decisão técnica levou em conta a segurança do entorno.
“Naquela situação, nós tínhamos um poço de elevador muito próximo do lado do Nobile e corria risco desse poço tender a puxar o prédio pro lado, mesmo colocando ele pra cair reto. Então, pra garantir a segurança, nós optamos por jogar ele um pouquinho pra lateral e pra diagonal, que foi o que eu expliquei desde o início”, explicou.
No momento da implosão, a tensão deu lugar ao alívio. “Eu passava na obra mesmo fora do expediente sempre pra conferir se os órgãos de segurança publicaram ou não. E aí, na hora que caiu, assim, eu pensei ufa. Estava tudo certo.”
Para Lorrana, o maior legado do projeto vai além da demolição do prédio. A implosão do Torre Palace, que durou poucos segundos, simbolizou anos de insistência, estudo e resistência em uma área onde mulheres ainda precisam provar mais.
“Gostei muito dessa parte das mulheres, mesmo. De incentivar as mulheres no mercado de trabalho. De estudarem, de não desistirem. De não acharem que é impossível”.










