Quatro esposas e kit grilagem. Conheça o líder de milícia preso em Ceilândia
Detido na Operação Confraria, Alisson Borges é acusado por testemunhas de comandar poder paralelo no Pôr do Sol

Inspirada nas milícias cariocas, que dominam as favelas impondo uma espécie de poder paralelo, a organização criminosa instalada na região do Pôr do Sol, em Ceilândia, sob a batuta do líder comunitário Alisson Borges, faturava alto explorando serviços de TV a cabo, gás de cozinha, transporte alternativo e grilagem. Preso na Operação Confraria, em 28 de setembro, o homem seduzia a população carente com promessa de moradia e chegava a distribuir dinheiro vivo em filas quilométricas para ganhar a simpatia da comunidade. Outra peculiaridade é que ele tinha quatro “esposas” e construiu casa para todas.
Uma testemunha-chave que auxilia a Polícia Civil na investigação conversou com a reportagem do Metrópoles e traçou, com detalhes, toda a trajetória de Alisson Borges, desde os tempos em que se preparava em cursos para pleitear uma vaga de vigilante até galgar o posto de “Rei da favela”, como gostava de ser chamado pelos moradores da comunidade carente de Ceilândia Sul.

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Ver todasDe acordo com a testemunha, a vida de Alisson deu uma guinada após ele perceber que poderia lucrar com a grilagem nas quadras 702 e 703, hoje consolidadas. “O dinheiro veio rápido. Logo ele estava com carrões, lanchas, jet ski, viajando para lugares chiques e frequentando festas badaladas”, contou a fonte. Ele ostentava nas redes sociais, com fotos que o mostram até em voo panorâmico de helicóptero no Rio de Janeiro.
Loteamento a jato
O esquema montado por Alisson, de acordo com a testemunha, foi rápido e certeiro. O líder comunitário teria feito um “acerto” com um grupo de grileiros que já preparava a ocupação e o parcelamento irregulares. Ficou com 173 lotes. A venda foi feita por meio do “kit invasão” ao custo R$ 12,5 mil. Mãe, irmã, primos e tios do acusado teriam recebido suas frações no Pôr do Sol.
Segundo a fonte, que colabora com a investigação da polícia, Alisson usou um cartório no Entorno do DF para falsificar cessões de direito e, assim, “esquentar” a documentação dos lotes irregulares. Com rapidez, os terrenos ganharam casas de um cômodo. “Muitas pessoas tiveram que pagar até R$ 10 mil para entrar no imóvel. Quem não desembolsava o valor era preterido ou até expulso”, contou a fonte.
Um homem que ocupava um lote vendido pelo grupo de Alisson revelou que as cobranças eram extorsivas e se tornavam violentas a cada vez que o pagamento não era quitado. “Para a maioria das pessoas, que não conhece a realidade, Alisson era um líder comunitário que defendia e lutava por melhores condições de vida da população, mas isso era um teatro. Bastava atrasar uma mensalidade que o pesadelo começava”, contou o ex-morador, que precisou deixar o Pôr do Sol temendo represálias.
Entrada no tráfico
Conforme foi ganhando notoriedade e fama na favela, segundo a testemunha, o líder comunitário teria visto no tráfico de drogas a oportunidade de fazer fortuna, controlar ainda mais a região e alcançar um sonho antigo: entrar para a política. De acordo com a fonte, Alisson passou a gerir a compra, o armazenamento e a distribuição de entorpecentes na região. “Com o dinheiro que juntou vendendo os lotes, teve como se capitalizar e investir na compra de drogas. Alisson as repassava aos traficantes, que se encarregavam da venda no varejo”, contou.
Junto com o dinheiro que entrava a todo instante, Alisson começou a comprar bens: carros, lanchas, jet skis e mais imóveis. Tudo seria colocado em nome de laranjas, segundo as apurações policiais. As festas regadas a bebidas importadas também se tornaram comuns em sua rotina. “Com essa nova vida, vieram as mulheres. Ele tinha quatro companheiras na comunidade e construiu casas para todas. Um dos imóveis, na Quadra 7.902, tinha projeto até para instalação de banheira de hidromassagem no banheiro”, contou a testemunha.
Com os negócios caminhando a pleno vapor, era comum ver grupo de moradores se enfileirar para receber dinheiro vivo das mãos de Alisson, segundo a fonte. O líder comunitário distribuía notas de R$ 50 e R$ 100 para garantir a simpatia das famílias mais carentes da região. “Também comprava cestas básicas e construía muros para o terreno dos moradores”, contou a testemunha.
Operação Confraria
Durante a Operação Confraria, 10 pessoas foram presas, entre elas, Alisson, e documentos apreendidos. A Polícia Civil fez buscas na Associação dos Moradores do Pôr do Sol (Asmsps), comandada por ele.
Após meses de interceptação telefônica, os investigadores conseguiram identificar a ação criminosa do líder comunitário, ligado a diversos políticos do Distrito Federal. Influente na região, andava sempre ao lado de seguranças armados e em carros de luxo.
De acordo com a polícia, Alisson Borges, além de vender terrenos irregulares, distribuía manuais para as pessoas que compravam os lotes, com instruções sobre como construir os imóveis e se estabelecer nos locais. O homem continua preso. Até a última atualização desta reportagem, o Metrópoles não conseguiu contato com a defesa dele. As investigações sobre o caso correm em segredo de Justiça.
Durante a operação, a polícia divulgou o teor de um áudio encontrado na conta pessoal de Alisson no Facebook. Na gravação, publicada em um grupo de moradores filiados à Amosps, o líder afirma que “não recebe valores”, mas apenas “contribuição” dos interessados em obter os lotes.
























