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Inspirada nas milícias cariocas, que dominam as favelas impondo uma espécie de poder paralelo, a organização criminosa instalada na região do Pôr do Sol, em Ceilândia, sob a batuta do líder comunitário Alisson Borges, faturava alto explorando serviços de TV a cabo, gás de cozinha, transporte alternativo e grilagem. Preso na Operação Confraria, em 28 de setembro, o homem seduzia a população carente com promessa de moradia e chegava a distribuir dinheiro vivo em filas quilométricas para ganhar a simpatia da comunidade. Outra peculiaridade é que ele tinha quatro “esposas” e construiu casa para todas.

Uma testemunha-chave que auxilia a Polícia Civil na investigação conversou com a reportagem do Metrópoles e traçou, com detalhes, toda a trajetória de Alisson Borges, desde os tempos em que se preparava em cursos para pleitear uma vaga de vigilante até galgar o posto de “Rei da favela”, como gostava de ser chamado pelos moradores da comunidade carente de Ceilândia Sul.

Alisson, de 40 anos, sempre morou próximo aos familiares, em várias quadras de Ceilândia Norte. Com baixa escolaridade – cursou apenas o ensino fundamental –, nunca teve emprego fixo ou profissão definida. Mas isso não impediu o líder comunitário de atrair admiradores e construir um patrimônio depois que chegou ao Pôr do Sol, em 2012.

De acordo com a testemunha, a vida de Alisson deu uma guinada após ele perceber que poderia  lucrar com a grilagem nas quadras 702 e 703, hoje consolidadas. “O dinheiro veio rápido. Logo ele estava com carrões, lanchas, jet ski, viajando para lugares chiques e frequentando festas badaladas”, contou a fonte. Ele ostentava nas redes sociais, com fotos que o mostram até em voo panorâmico de helicóptero no Rio de Janeiro.

 

Loteamento a jato
O esquema montado por Alisson, de acordo com a testemunha, foi rápido e certeiro. O líder comunitário teria feito um “acerto” com um grupo de grileiros que já preparava a ocupação e o parcelamento irregulares. Ficou com 173 lotes. A venda foi feita por meio do “kit invasão” ao custo R$ 12,5 mil. Mãe, irmã, primos e tios do acusado teriam recebido suas frações no Pôr do Sol.

Segundo a fonte, que colabora com a investigação da polícia, Alisson usou um cartório no Entorno do DF para falsificar cessões de direito e, assim, “esquentar” a documentação dos lotes irregulares.   Com rapidez, os terrenos ganharam casas de um cômodo. “Muitas pessoas tiveram que pagar até R$ 10 mil para entrar no imóvel. Quem não desembolsava o valor era preterido ou até expulso”, contou a fonte.

Um homem que ocupava um lote vendido pelo grupo de Alisson revelou que as cobranças eram extorsivas e se tornavam violentas a cada vez que o pagamento não era quitado. “Para a maioria das pessoas, que não conhece a realidade, Alisson era um líder comunitário que defendia e lutava por melhores condições de vida da população, mas isso era um teatro. Bastava atrasar uma mensalidade que o pesadelo começava”, contou o ex-morador, que precisou deixar o Pôr do Sol temendo represálias.

Entrada no tráfico
Conforme foi ganhando notoriedade e fama na favela, segundo a testemunha, o líder comunitário teria visto no tráfico de drogas a oportunidade de fazer fortuna, controlar ainda mais a região e alcançar um sonho antigo: entrar para a política. De acordo com a fonte, Alisson passou a gerir a compra, o armazenamento e a distribuição de entorpecentes na região. “Com o dinheiro que juntou vendendo os lotes, teve como se capitalizar e investir na compra de drogas. Alisson as repassava aos traficantes, que se encarregavam da venda no varejo”, contou.

Junto com o dinheiro que entrava a todo instante, Alisson começou a comprar bens: carros, lanchas, jet skis e mais imóveis. Tudo seria colocado em nome de laranjas, segundo as apurações policiais. As festas regadas a bebidas importadas também se tornaram comuns em sua rotina. “Com essa nova vida, vieram as mulheres. Ele tinha quatro companheiras na comunidade e construiu casas para todas. Um dos imóveis, na Quadra 7.902, tinha projeto até para instalação de banheira de hidromassagem no banheiro”, contou a testemunha.

Com os negócios caminhando a pleno vapor, era comum ver grupo de moradores se enfileirar para receber dinheiro vivo das mãos de Alisson, segundo a fonte. O líder comunitário distribuía notas de R$ 50 e R$ 100 para garantir a simpatia das famílias mais carentes da região. “Também comprava cestas básicas e construía muros para o terreno dos moradores”, contou a testemunha.

Operação Confraria
Durante a Operação Confraria, 10 pessoas foram presas, entre elas, Alisson, e documentos apreendidos. A Polícia Civil fez buscas na Associação dos Moradores do Pôr do Sol (Asmsps), comandada por ele.

Após meses de interceptação telefônica, os investigadores conseguiram identificar a ação criminosa do líder comunitário, ligado a diversos políticos do Distrito Federal. Influente na região, andava sempre ao lado de seguranças armados e em carros de luxo.

De acordo com a polícia, Alisson Borges, além de vender terrenos irregulares, distribuía manuais para as pessoas que compravam os lotes, com instruções sobre como construir os imóveis e se estabelecer nos locais. O homem continua preso. Até a última atualização desta reportagem, o Metrópoles não conseguiu contato com a defesa dele. As investigações sobre o caso correm em segredo de Justiça.

Durante a operação, a polícia divulgou o teor de um áudio encontrado na conta pessoal de Alisson no Facebook. Na gravação, publicada em um grupo de moradores filiados à Amosps, o líder afirma que “não recebe valores”, mas apenas “contribuição” dos interessados em obter os lotes.

 

 

 

 

 

 

 

 

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