Quase metade do lixo coletado no DF é composto por restos de alimentos

Dado foi coletado por meio da gravimetria — processo utilizado para determinar as frações percentuais em resíduos sólidos

atualizado 25/02/2022 20:53

Lixeira em rua do DFMyke Sena/Especial para o Metropoles

Cerca de 40% do lixo produzido em residências e demais localidades no Distrito Federal é composto por sobras de alimentos. Os dados são fruto do relatório gravimétrico realizado pelo Serviço de Limpeza Urbana (SLU) em 2020, mas que segundo especialistas, segue com números similares atualmente.

O levantamento foi coletado por meio da gravimetria — processo utilizado para determinar as frações percentuais dos diferentes tipos de resíduos sólidos, sendo possível, por meio dessa, realizar a caracterização dos detritos gerados, avaliando a geração qualitativa e quantitativa.

“A produção de lixo está relacionada com a renda per capita da região: quanto maior ela for, maior será a produção. A gente pode observar isso em áreas como Lago Norte, Cruzeiro e Plano Piloto”, avalia a gerente de aterros do SLU, Andrea Almeira. “O pessoal quando tem uma renda menor, tende a aproveitar mais o alimento. Eles desperdiçam menos”.

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As análises foram realizadas por empresas contratadas pelo SLU no período chuvoso de 2020, entre janeiro e abril, em 22 das 33 regiões do DF.

A caracterização dos resíduos coletados pelas empresas prestadoras de serviço fundamentou-se na triagem e pesagem do material nos seguintes grupos: plástico, papel, vidro, metal, outros, matéria orgânica — restos de comida e podas — e rejeitos e seus subgrupos.

Confira a porcentagem de algumas regiões:

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De acordo com o estudo, a matéria orgânica predominou nas coletas convencionais analisadas, estando acima de 40% em quase todas as análises.

A elevada quantidade de resíduos orgânicos aponta para o potencial de desvio de rejeitos do aterro sanitário, ampliando sua vida útil, por meio da realização de compostagem, seja a partir de iniciativas comunitárias ou da possibilidade de institucionalização da coleta seletiva orgânica.

“Muitas vezes nem tudo consegue passar pela usina de tratamento biológico devido a grande demanda e esse orgânico acaba virando chorume, diminuindo a capacidade de vida do aterro. Algo que não aconteceria com a ajuda da compostagem”, diz a especialista. “É necessário despertar nas pessoas o senso que é possível ter uma composteira. As pessoas podem fazer em casa, em apartamento, há vídeos no Youtube ensinando. Só basta a boa vontade”.

Em 2020, recolheu-se 787.733 toneladas de resíduos pela coleta convencional. Desses, em média, 315 mil toneladas são materiais orgânicos – podas e restos de comida. Do último número, pelo menos 228 mil toneladas passaram por processamento em duas Usinas de Tratamento Mecânico-Biológico (UTMBs). Parte foram transformadas em 61.975,02 toneladas de composto e doados para agricultura familiar.

O pesquisador da Embrapa Gustavo Porpino fez sua tese de doutorado em desperdício de alimentos e avalia que o relatório gravimétrico é o método mais preciso para chegar ao resultado demonstrado. “Esses dados estão alinhados com os de outras regiões. A gente percebe um desperdício muito grande de alimento no final da cadeia produtiva”, revela Gustavo.

O especialista reforça a visão de que o desperdício é dividido por classes sociais. “Em geral, o que explica são os fatores comportamentais. O desperdício está mais presente na classe média baixa e nos riscos. Classes mais baixas tendem a ter hábitos de reaproveitar de uma forma criativa. Como juntar sobras de arroz para fazer um bolinho, por exemplo”, diz.

“O desperdício de alimento é uma oportunidade perdida de fortalecer o combate à fome”, completa Gustavo.

Onde vai parar o lixo reciclável?

No final de 2021, o Metrópoles foi indicado ao Prêmio Gabriel García Márquez de Jornalismo 2021, um dos mais respeitados do mundo. A reportagem Onde vai parar o Lixo Reciclado concorreu na categoria Inovação, com veículos de Portugal, Espanha, Estados Unidos, Chile, Peru, Cuba e México.

A equipe de reportagem seguiu durante 30 dias o caminho do lixo na capital do Brasil. O repórter Lucas Marchesini distribuiu 72 rastreadores — dentro de materiais recicláveis (papel, plástico e metal) — pelas 23 regiões administrativas da capital federal e monitorou virtualmente o trajeto dos rejeitos.

A aquisição dos rastreadores foi possível graças ao apoio do Pultizer Center for Crisis Reporting, entidade dos Estados Unidos que auxilia projetos inovadores de jornalismo em todo o mundo. (Clique aqui para conferir o material completo).

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