Quase metade da população PCD no DF é autista. Veja principais desafios

O número de pessoas diagnosticadas com autismo chega a 24.130, segundo o sistema de Cadastro da Pessoa com Deficiência (CADPCD)

atualizado

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O número de pessoas diagnósticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) passa dos 24 mil no Distrito Federal. Ou seja, 45,3% da população brasiliense cadastrada no sistema de Cadastro da Pessoa com Deficiência (CADPCD) é autista. Esse número vem com uma bagagem cheia de desafios que esse grupo enfrenta diariamente, como dificuldades para conseguir emprego, diagnóstico tardio e falta de acessibilidade em atendimentos.

Advogada especializada em direito de pessoas com deficiência, Adriana Monteiro, em conversa com o Metrópoles, explicou que o aumento no número de pessoas autistas no DF é consequência da ampliação de critérios diagnósticos, do avanço da conscientização social e do maior acesso a profissionais capacitados.

Além disso, Adriana afirmou que durante décadas muitas pessoas autistas eram descritas, erroneamente, com outros transtornos mentais como boderline, depressão e bipolaridade, sendo diagnosticados corretamente apenas depois de adultos, o que dificulta ainda mais o cotidiano. “O que estamos testemunhando agora é, na verdade, uma correção histórica: mais pessoas sendo finalmente reconhecidas dentro do espectro”.

A advogada conta, ainda, que mesmo sendo agraciados com direitos básicos como assentos preferenciais em transportes públicos e atendimentos prioritários, o acesso a terapias essenciais como o Applied Behavior Analysis (ABA), ou Análise de Comportamento Aplicada – voltada principalmente para pessoas autistas, fonoaudiologia, além de um acompanhante especializado no ambiente escolar, bem como a garantia de uma educação inclusiva efetiva, ainda são distantes, sendo adquiridas apenas quando esses indivíduos entram na Justiça para reivindicar seus direitos.

Já na fase adulta, o maior obstáculo que o neurodivergente enfrenta é a falta de oportunidades no mercado de trabalho, com a falha no sistema de cotas, adaptação e o preconceito das grandes empresas contribuindo para esse fato. Adriana conta que o problema não está na falta de legislação, mas no descumprimento sistemático. Ela ainda explica que muitos autistas possuem ensino superior completo, além de mestrado. Porém, por conta do problema estrutural e do capacitismo, eles acabam cogitando assumir cargos abaixo de sua capacidade e formação.

“Existe uma clara dissociação entre o discurso institucional e a prática efetiva. Muitas pessoas autistas, mesmo tendo um bom currículo, acabam entrando em vagas de menor complexidade, simplesmente porque é a vaga que a empresa decide destinar ao cumprimento de cotas”, explica.

Frisando que não há qualquer desvalor na função em si, a especialista ressalta que o problema reside no fato de que as pessoas com deficiência frequentemente enfrentam trajetórias muito mais desafiadoras para alcançar alta qualificação e, ainda assim, são direcionadas, de forma sistemática, a posições abaixo.

Diante desse cenário, ela argumenta que para uma vida mais digna e sem tantos empecilhos, pessoas com o TEA precisam, com a ajuda do governo, de políticas públicas que garantam um diagnóstico bem fundamentado desde a infância, acompanhado de relatórios técnicos consistentes, aliado a uma atuação jurídica preventiva. “A minha experiência, como mãe e advogada, demonstra que a rapidez na adoção de medidas jurídicas impacta diretamente na redução de danos”.

Segundo a especialista, é necessário que o GDF realize obras de centros especializados, além da formação obrigatória de profissionais da educação, regulação mais rigorosa das unidades de saúde e o desenvolvimento de políticas efetivas de inclusão no mercado de trabalho. Ela ainda levanta uma questão delicada: o falecimento dos pais de pessoas autistas com nível 3 de suporte. “Para onde irão essas pessoas na falta dos pais? O DF precisa urgentemente pensar em moradia assistida para quem não consegue sobreviver sozinho”.

Metrópoles conversou com o jornalista Luis Felipe Sales, 24 anos, autista nível 1 de suporte, ou grau leve. Ele compartilhou a sua trajetória profissional e afirmou que dentre todos os contratempos, a falta de emprego ainda é o maior deles.

Formado em jornalismo desde 2024, Luis estagiou na Associação Brasileira de Autismo Comportamento e Intervenção (Abracic), fazendo reportagens sobre autismo, além de já ter feito outras atividades audiovisuais em veículos de comunicação, durante sua formação. Seu último emprego foi em uma empresa na área de Recursos Humanos (RH). Ele conta que pediu demissão pois não conseguia se adaptar e as pessoas não tinham muita paciência para lidar com ele.

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“Eu acredito que a minha dificuldade de encontrar emprego é por eu ser uma pessoa autista. Muitas empresas têm receio ou preconceito de contratar candidatos como eu”, desabafa.

O jornalista também demonstrou insatisfação com alguns serviços on-line, ele afirmou que passa por apertos na hora de ter que comprovar que é uma pessoa com TEA.

“Alguns atendimentos feitos pela internet são muito ruins. Algumas firmas pedem o laudo para comprovar, e na hora de enviar o sistema trava ou eles não aceitam por um erro de leitura ou do sistema”.

Luis compartilha da mesma opinião de Adriana e diz que o o ideal é que o mercado crie mais postos de atendimento para pessoas autistas e com deficiências e garanta mais serviços preferenciais, pois “mesmo com o cordão de autista, os passageiros não cedem o lugar preferencial no transporte público”, por exemplo.

“O atendimento depende do local. Enquanto uns são pacientes e atenciosos, outros querem que o serviço seja feito rápido e acabam sendo rudes e não têm compreensão”. 

Mesmo enfrentando esses problemas, Luis sonha em ser repórter de TV e tem um canal no YouTube com cerca de 10 mil inscritos, onde publica vídeos diversos de treinos e exercícios que faz na academia, “mesmo sendo difícil eu não vou desistir”, finaliza.

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