Por “casos assombrosos”, CLDF entra na investigação sobre seita
O presidente da comissão, distrital Fábio Felix, disse ter se surpreendido com os relatos de vítimas e defende uma fiscalização na igreja
atualizado
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A Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) oficiou a Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF) e a Polícia Civil (PCDF) para receber detalhes das investigações sobre a seita acusada de manter jovens em cárcere privado. O presidente da comissão, distrital Fábio Felix, disse ter se surpreendido com os relatos de vítimas e defende, inclusive, uma fiscalização rigorosa por parte dos órgãos governamentais na Igreja Adventista Remanescente de Laodicéia, situada em uma chácara às margens da DF-290, no Gama.
“São casos assombrosos. Nossa intenção é, neste primeiro momento, dar acolhimento a essas meninas. A partir dos desdobramentos das investigações, pretendemos fazer diligências a fim de evitar novas violações de direitos”, sustentou o deputado.
No documento enviado pela comissão à SSP-DF e à PCDF, o parlamentar cita reportagens publicadas pelo Metrópoles e por outros veículos de comunicação para justificar a entrada da CLDF no acompanhamento do caso.
“Diante da gravidade dos fatos, venho solicitar à Secretaria de Segurança Pública que encaminhe, a esta Comissão, as informações disponíveis sobre o caso, para avaliação de providências a serem tomadas”, escreveu Felix.
Pastora presa
Os episódios começaram a se tornar públicos em 7 de janeiro deste ano, quando a 20ª Delegacia de Polícia (Gama) anunciou que, 10 dias antes, havia prendido Ana Vindoura Dias Luz, 64, por cárcere privado. Na ocasião, os agentes resgataram da casa uma moça de 18 anos que fora mantida trancada por quatro meses.
Ana Vindoura acabou detida, entretanto foi liberada no dia seguinte, após audiência de custódia. Segundo a juíza substituta Simone Garcia Pena, da 2ª Vara Criminal do Gama, embora estivesse “evidenciada a materialidade delitiva […], entendo que a conduta em si não causou significativo abalo da ordem pública nem evidenciou periculosidade exacerbada do seu autor, de modo a justificar sua segregação antes do momento constitucional próprio, qual seja, após o trânsito em julgado de eventual sentença condenatória”.
Como é ré primária, Ana Vindoura foi liberada por meio de medidas cautelares, entre elas: proibição de ausentar-se do Distrito Federal por mais de 30 dias, a não ser que autorizada pela Justiça; proibição de mudança de endereço sem comunicação prévia; e comparecimento mensal ao juízo processante.
Nos dias subsequentes, o Metrópoles publicou outras denúncias contra a seita. O pai de uma menina de 15 anos contou que a pastora e seus seguidores tentaram submeter a garota a um “casamento espiritual”. Prometida a um homem que ela não queria, a adolescente rebelou-se, iniciou um relacionamento com um rapaz da mesma idade – também integrante da comunidade – e acabou engravidando dele.
No entanto, a desobediência às rígidas e retrógradas regras impostas pela Igreja Adventista Remanescente de Laodicéia custaram um alto preço à garota. A resistência foi interpretada como “obra do demônio” e ela passou a ser exposta a longas sessões de orações. Em um episódio, sob argumento de “expulsar o capeta”, a adolescente foi imobilizada no chão e agredida com tapas no rosto e puxões de cabelo.
Sem querer se identificar, o homem contou detalhes angustiantes dos cinco anos em que a filha viveu na comunidade. “Minha filha, menor de idade, foi prometida a um vagabundo qualquer e começou a sofrer retaliação porque se recusou a aceitar aquele absurdo.”
Crianças proibidas de serem vacinadas
As cerca de 200 pessoas que vivem na chácara Folhas de Palmeiras, sob a batuta de Ana Vindoura, são submetidas a duras leis criadas pela própria pastora. A primeira regra na seita é abrir mão de bens materiais. Os integrantes não podem usar creme dental, xampu ou sabonete. Todo material de higiene é produzido dentro da comunidade.
No local, não entra televisão ou rádio. Apenas Ana Vindoura e alguns obreiros – auxiliares diretos da pastora – podem ter telefones celulares. Uma das restrições coloca em risco a saúde das crianças que residem no lugar. Há dois anos, a seita foi notificada pelo Conselho Tutelar do Gama por impedir a vacinação desses menores de idade. Em 2016, conselheiros foram à chácara para averiguar denúncia anônima de que seguidores da pastora não estariam levando os filhos para serem imunizados na rede pública de saúde.
De acordo com o conselheiro Wallisson Lourenço, mesmo com a determinação imposta pelo Conselho Tutelar, os pais dos meninos e meninas resistiam. “Nós explicamos que, se eles não apresentassem as cadernetas de vacinação preenchidas em sete dias, acionaríamos a polícia e a Vara da Infância e Juventude. Só então, a contragosto, eles cederam”, disse.
Wallisson ressaltou não ter sido a primeira vez que foi preciso intervir para evitar a violação de direitos de menores de 18 anos. Em outro episódio, os conselheiros tutelares do Gama foram à chácara após delação de que 10 garotos e garotas não estavam frequentando a escola. “Eram crianças de 4 a 10 anos. Depois que fomos ao local, eles matricularam as crianças, mas, como é uma comunidade muito fechada e que se muda muito, é difícil de acompanhar. Tem família que não encontramos lá depois.”













