Cláudio Melo Filho: o lobista de Brasília que colocou na bandeja a cabeça de 51 políticos

Conheça a história do executivo da Odebrecht que fez fortuna intermediando pagamento de propina a políticos e depois entregou todo o esquema

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Arte/Metrópoles
Claudio_Soho
1 de 1 Claudio_Soho - Foto: Arte/Metrópoles

Envelopado em um terno de corte fino, o ministro do Esporte, Leonardo Picciani, surgiu discreto no restaurante. Estava desacompanhado. Vagarosamente, atravessou o salão principal até alcançar a varanda. O anoitecer já havia caído sobre a orla do Lago Paranoá. Interpelou brevemente um garçom, dobrou a esquina e, em um dos cantos mais reservados do local, sentou-se à frente do colega que o aguardava.

Entre uma bocada e outra, os dedos do político corriam pela tela do celular. Seus olhos paravam atentos às curvas de uma bela moça só de lingerie. Eram quase 21h30 de uma segunda-feira despretensiosa. O salão daquele lugar que já foi um dos mais badalados do Lago Sul, em Brasília, agora estava tomado pelo silêncio das ausências. Picciani, seu interlocutor e sua musa virtual eram um dos poucos frequentadores naquela noite.

Sujeito à indigestão que a Lava Jato trouxe para a classe política da capital da República, o imponente Soho, encravado em um dos metros quadrados mais caros do Brasil, perdeu a glória. À medida que a maior operação contra a corrupção no país engolia seus alvos, o Soho minguava. Vários de seus habitués clientes hoje estão presos. E, mesmo aqueles que ainda não caíram em desgraça, evitam desfilar pelo simpático ambiente onde outrora bebiam, comiam e fechavam negócios.

A crise bateu à porta do Soho e sentou-se à mesa de um dos donos do restaurante na capital federal, o ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht, Cláudio Melo Filho. Lobista papa-fina, ele se tornou um dos principais delatores da Lava Jato e colocou na bandeja a cabeça de dezenas de caciques da política. Com o cardápio variado à disposição, o Ministério Público Federal (MPF) ficou diante de um verdadeiro banquete de nomes e de esquemas.

Confira fotos dos Melo e do restaurante Soho, no Pontão do Lago Sul, em Brasília:

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Médica por formação, Cláudia Melo é esposa de Cláudio e sócia majoritária do Soho Brasília
Cláudio e a esposa, Maria Cláudia Lyra Gurgel do Amaral Melo
O executivo recebeu Medalha do Mérito Legislativo, em 2012, por indicação do ministro das Cidades, Bruno Araújo
Com projeto assinado pelo arquiteto Adriano Mascarenhas, o Soho foi inaugurado no dia 1º de junho de 2011, em Brasília, quando o país ainda digeria o Mensalão
A Ação Penal 470  (Mensalão) começou a ser julgada no STF em agosto de 2012, pouco mais de um ano depois da inauguração do restaurante
Cláudio Melo Filho é baiano, tem 50 anos e tornou-se delator da Odebrecht do alto do cargo de diretor de Relações Institucionais
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Cláudio Melo Filho é baiano, tem 50 anos e tornou-se delator da Odebrecht do alto do cargo de diretor de Relações Institucionais

Reprodução
Médica por formação, Cláudia Melo é esposa de Cláudio e sócia majoritária do Soho Brasília
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Médica por formação, Cláudia Melo é esposa de Cláudio e sócia majoritária do Soho Brasília

Felipe Menezes/Metrópoles
Cláudio e a esposa, Maria Cláudia Lyra Gurgel do Amaral Melo
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Cláudio e a esposa, Maria Cláudia Lyra Gurgel do Amaral Melo

Bruno Pimentel/Metrópoles
O executivo recebeu Medalha do Mérito Legislativo, em 2012, por indicação do ministro das Cidades, Bruno Araújo
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O executivo recebeu Medalha do Mérito Legislativo, em 2012, por indicação do ministro das Cidades, Bruno Araújo

Rodolfo Stuckert/Agência Câmara
Com projeto assinado pelo arquiteto Adriano Mascarenhas, o Soho foi inaugurado no dia 1º de junho de 2011, em Brasília, quando o país ainda digeria o Mensalão
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Com projeto assinado pelo arquiteto Adriano Mascarenhas, o Soho foi inaugurado no dia 1º de junho de 2011, em Brasília, quando o país ainda digeria o Mensalão

Rafaela Felicciano/Metrópoles
A Ação Penal 470  (Mensalão) começou a ser julgada no STF em agosto de 2012, pouco mais de um ano depois da inauguração do restaurante
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A Ação Penal 470 (Mensalão) começou a ser julgada no STF em agosto de 2012, pouco mais de um ano depois da inauguração do restaurante

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Escultura do artista plástico Bel Borba compõe a decoração do local
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Escultura do artista plástico Bel Borba compõe a decoração do local

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Restaurante conta com quase 200 lugares – 110 na varanda, 60 no salão principal e aproximadamente 30 no mezanino
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Restaurante conta com quase 200 lugares – 110 na varanda, 60 no salão principal e aproximadamente 30 no mezanino

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Somando-se as bebidas a outros pratos requintados, nas noites mais animadas barões do alto escalão da República chegavam a pagar contas de mais de R$ 5 mil
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Somando-se as bebidas a outros pratos requintados, nas noites mais animadas barões do alto escalão da República chegavam a pagar contas de mais de R$ 5 mil

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Detalhes do paisagismo próximo à varanda
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Detalhes do paisagismo próximo à varanda

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Entre as novidades do sushiman chef, atum com foie gras a R$ 84,80; carpaccio de vieiras canadenses por R$ 99,80; sashimi especial ao preço de R$ 98 e combinado especial por R$ 199
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Entre as novidades do sushiman chef, atum com foie gras a R$ 84,80; carpaccio de vieiras canadenses por R$ 99,80; sashimi especial ao preço de R$ 98 e combinado especial por R$ 199

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Mezanino do Soho costuma ser alugado para reuniões
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Mezanino do Soho costuma ser alugado para reuniões

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Artista plástico Bel Borba assina esculturas que adornam o ambiente
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Artista plástico Bel Borba assina esculturas que adornam o ambiente

Rafaela Felicciano/Metrópoles

 

Cardápio de apelidos
O baiano Cláudio Melo Filho soube temperar como nenhum outro delator as confissões de negociatas que fez aos procuradores da República. Ao dedurar a participação de 51 políticos, deu nomes, sobrenomes e apelidos, muitos dos quais ele próprio cunhou com a criatividade de quem prepara um menu exótico.

O Soho serve atum com foie gras e carpaccio de vieiras canadenses. E o dono de restaurante achou que Romero Jucá combinava com Caju (teria recebido repasses de mais de R$ 22 milhões); que Angorá era a cara do Moreira Franco (pressionou, segundo delação, executivos da Odebrecht para dar andamento a negócios do setor aéreo); que Inaldo Leitão era, simplesmente, Todo Feio e José Agripino, embora “Gripado”, nunca havia perdido o apetite para as doações. Teria levado R$ 1 milhão da empreiteira, a pedido de Aécio Neves, mesmo sem concorrer a cargo eletivo em 2014.

Veja alguns dos apelidos dos políticos delatados por Cláudio Melo Filho:

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Rodrigo Maia, o “Botafogo"
Eduardo Cunha, o "Caranguejo"
Delcídio do Amaral, o "Ferrari"
Renan Calheiros, o "Justiça"
José Agripino, o "Gripado"
Inaldo Leitão, o "Todo Feio"
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Inaldo Leitão, o "Todo Feio"

Kacio Pacheco/Metrópoles
Rodrigo Maia, o “Botafogo"
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Rodrigo Maia, o “Botafogo"

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Eduardo Cunha, o "Caranguejo"
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Eduardo Cunha, o "Caranguejo"

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Delcídio do Amaral, o "Ferrari"
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Delcídio do Amaral, o "Ferrari"

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Renan Calheiros, o "Justiça"
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Renan Calheiros, o "Justiça"

Kacio Pacheco/Metrópoles
José Agripino, o "Gripado"
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José Agripino, o "Gripado"

Clientela VIP
Ex-senador do Distrito Federal hoje condenado e preso pela Lava Jato, Gim Argello caiu na delação de Cláudio Melo Filho. Entre os executivos da Odebrecht, Gim era o “Campari”. Sedento pelos repasses das empreiteiras, ele cobrou, segundo os relatos, R$ 5 milhões em propina das empresas.

Nos tempos de pré-delação, Gim era cliente vip do Soho. Uma plaquinha com o nome dele identificava sua garrafa exclusiva de whisky Blue Label (mais de R$ 1 mil a unidade). A bebida etiquetada ficava exposta em uma cristaleira, mimo para os frequentadores mais bajulados do restaurante. “O duro é que alguns já foram presos. A do Gim Argello, por exemplo, retiramos para evitar constrangimentos”, disse um protocolar funcionário do Soho.

Foi pela língua cirúrgica de Cláudio Melo Filho que muitos de seus ex-colegas acabaram abatidos na Lava Jato. Beneficiado pela delação, o lobista continua firme. A garrafa de Blue Label batizada com seu nome está lá, intacta, em lugar de destaque. E, enquanto enxerga desmoronar cada um dos políticos que sentaram à sua mesa para negociar, Cláudio Melo Filho pavimenta em Brasília um futuro de bonança.

Confira imagens do Clube do Whisky, lugar mais exclusivo do Soho:

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Um espaço com poltronas de couro, na varanda lateral do restaurante, é destinado para guardar parte da bebida e receber clientes
A sala, envolta por paredes de vidros, tem entrada pela lateral do salão principal
No espaço de pouca luminosidade, preto e azul, um armário de vidro ao fundo expõe as garrafas da bebida compradas pela clientela VIP
Cada pequeno espaço, trancado à chave, traz uma placa com o nome do proprietário
A primeira unidade, no topo, à esquerda, leva o registro do executivo Cláudio Melo
Fina expressão de status, o Blue Label ganha simbolismo ainda mais luxuoso no Soho, que tem um lugar reservado para garrafas customizadas
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Fina expressão de status, o Blue Label ganha simbolismo ainda mais luxuoso no Soho, que tem um lugar reservado para garrafas customizadas

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Um espaço com poltronas de couro, na varanda lateral do restaurante, é destinado para guardar parte da bebida e receber clientes
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Um espaço com poltronas de couro, na varanda lateral do restaurante, é destinado para guardar parte da bebida e receber clientes

Rafaela Felicciano/Metrópoles
A sala, envolta por paredes de vidros, tem entrada pela lateral do salão principal
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A sala, envolta por paredes de vidros, tem entrada pela lateral do salão principal

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No espaço de pouca luminosidade, preto e azul, um armário de vidro ao fundo expõe as garrafas da bebida compradas pela clientela VIP
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No espaço de pouca luminosidade, preto e azul, um armário de vidro ao fundo expõe as garrafas da bebida compradas pela clientela VIP

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Cada pequeno espaço, trancado à chave, traz uma placa com o nome do proprietário
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Cada pequeno espaço, trancado à chave, traz uma placa com o nome do proprietário

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A primeira unidade, no topo, à esquerda, leva o registro do executivo Cláudio Melo
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A primeira unidade, no topo, à esquerda, leva o registro do executivo Cláudio Melo

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Atualmente, há 22 garrafas guardadas no local
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Atualmente, há 22 garrafas guardadas no local

Rafaela Felicciano/Metrópoles

 

Homem de posses
Em meio ao tsunami que suas inconfidências provocaram na cidade, o lobista ergueu um novo palacete em Brasília. Proprietário de uma mansão na QI 7 do Lago Sul, onde atualmente mora, Cláudio Melo Filho se dedica a uma nova empreitada: a construção de casa na QL 22, em uma chamada ponta de picolé, à beira do Lago e avaliada entre R$ 7 milhões e R$ 8 milhões. Será vizinho do senador afastado Aécio Neves, o “Mineirinho” — que também mora na 22, mas, nesse caso, paga aluguel (R$ 25 mil) — e do senador e ex-jogador Romário, com endereço na QL 24.

A nova residência de Cláudio Melo Filho ainda está em obras. Serão três andares e já é possível identificar um terreno reservado para virar campo de futebol. Quem coloca a mão na massa desse empreendimento diz que o projeto foi interrompido durante um período do ano passado. Justamente no momento em que o executivo negociava seu livramento com os procuradores. Não demorou e a equipe voltou à empreitada. Que deve ficar pronta neste ano, estimam funcionários.

Veja fotos da nova mansão da família Melo, à beira do Lago Paranoá:

Cláudio Melo Filho: o lobista de Brasília que colocou na bandeja a cabeça de 51 políticos - destaque galeria
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Fachada, em obra, da futura residência da família Melo
A residência, vizinha à casa alugada do senador afastado Aécio Neves, fica em um dos metros quadrados mais caros de Brasília
O imóvel em construção tem três andares e será alternativa para a família, que hoje vive na QI 7 do mesmo bairro
Parte do terreno já está reservada para virar campo de futebol
Avaliada entre R$ 7 milhões e R$ 8 milhões, futura casa de Cláudio Melo Filho fica pronta neste ano
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Avaliada entre R$ 7 milhões e R$ 8 milhões, futura casa de Cláudio Melo Filho fica pronta neste ano

Daniel Ferreira/Metrópoles
Fachada, em obra, da futura residência da família Melo
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Fachada, em obra, da futura residência da família Melo

A residência, vizinha à casa alugada do senador afastado Aécio Neves, fica em um dos metros quadrados mais caros de Brasília
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A residência, vizinha à casa alugada do senador afastado Aécio Neves, fica em um dos metros quadrados mais caros de Brasília

Daniel Ferreira/Metrópoles
O imóvel em construção tem três andares e será alternativa para a família, que hoje vive na QI 7 do mesmo bairro
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O imóvel em construção tem três andares e será alternativa para a família, que hoje vive na QI 7 do mesmo bairro

Daniel Ferreira/Metrópoles
Parte do terreno já está reservada para virar campo de futebol
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Parte do terreno já está reservada para virar campo de futebol

Daniel Ferreira/Metrópoles

Ônus da delação
Ter um CEP à beira lago aproximou Cláudio Melo Filho de vizinhos com interesses em comum. À época em que o Governo do Distrito Federal anunciou o início do processo de desobstrução da orla do Paranoá, tirando dos moradores a fatia de terreno mais próxima ao lago, muitos se mobilizaram para evitar a iniciativa oficial. Criaram, então, o grupo de WhatsApp “Orla Lapa”. Cláudio era figura ativa na rede. Mas, ultimamente, silenciou. Anda afastado tanto das rodas virtuais quanto dos compromissos sociais.

Aquele baiano de sorriso largo e trato fácil já não é mais tão expansivo. Sua constrição atingiu toda a família. A bela mulher de Cláudio Melo Filho, antes presença fácil nos encontros da sociedade brasiliense, está recolhida. As reuniões agora são restritas aos amigos mais próximos.

Em março deste ano, numa das poucas aparições públicas, Cláudia participou de um aniversário comemorado no restaurante do qual é sócia majoritária. No contrato social, ela, que é médica por formação, detém R$ 756.500,00 de participação no capital do Soho, e o sommelier Marcelo Luiz Ramos, outros R$ 133.500. Embora seja a mulher quem assine a papelada, a propriedade do estabelecimento sempre esteve colada à figura do baiano.

Sem fronteiras
Confiante no tino para os negócios, o casal Melo decidiu expandir. Mas não deu certo. Cláudia e Cláudio lançaram outra unidade do Soho em 2015, no Casa Park Shopping, em Brasília. A filial, no entanto, foi extinta no ano seguinte. Os dois também levaram uma unidade do restaurante para os Estados Unidos.

Encabeçado pela empresária Karine Queiroz, dona da matriz do Soho, na Bahia, e por Cláudia, sócia minoritária na gestão, o Soho Bay foi inaugurado, com pompa e circunstância, em Miami Beach. A excursão da família Melo rumou aos Estados Unidos para abrir as portas do novo espaço, que tinha capacidade para 200 pessoas.

Apesar da decoração luxuosa assinada pelo arquiteto Marlon Gama e da cidade onde tudo prospera, o Soho Bay durou pouco. O restaurante ficava praticamente embaixo de uma ponte, sem visibilidade. Funcionários de um prédio próximo dizem que construções ao lado do estabelecimento teriam ofuscado o negócio e contribuído para o seu fim. Nesse caso, não houve lobby que desse jeito. O lugar fechou em 2016.

Com a derrocada do empreendimento, o espaço – atualmente vazio, mas ainda ostentando o letreiro do antigo restaurante – está à disposição. A reportagem do Metrópoles esteve no local e descobriu que o aluguel do espaço custa US$ 25 mil.

Confira imagens da antiga sede do Soho Bay, em Miami Beach:

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São 5 mil pés de área interna e um pátio de 7 mil pés
O espaço está para alugar por US$ 25 mil mensais
Cláudia Melo era sócia do restaurante, ao lado de Karine Queiroz
Decoração era assinada pelo arquiteto Marlon Gama
Área externa do restaurante, em Miami Beach
Soho Bay foi inaugurado em 2015, nos EUA
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Soho Bay foi inaugurado em 2015, nos EUA

Metrópoles
São 5 mil pés de área interna e um pátio de 7 mil pés
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São 5 mil pés de área interna e um pátio de 7 mil pés

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O espaço está para alugar por US$ 25 mil mensais
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O espaço está para alugar por US$ 25 mil mensais

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Cláudia Melo era sócia do restaurante, ao lado de Karine Queiroz
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Cláudia Melo era sócia do restaurante, ao lado de Karine Queiroz

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Decoração era assinada pelo arquiteto Marlon Gama
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Decoração era assinada pelo arquiteto Marlon Gama

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Área externa do restaurante, em Miami Beach
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Área externa do restaurante, em Miami Beach

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Outra vista da área externa do restaurante, em Miami Beach
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Outra vista da área externa do restaurante, em Miami Beach

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Vida de luxos
Cláudio Melo Filho é um bon-vivant. Gosta da boa comida, faz questão de vinhos sofisticados e coleciona viagens internacionais: Vegas, Londres, Aspen, Paris, Nice. Ele fez fortuna comprando políticos. Até momentos antes da delação, exibia seu padrão de vida sem constrangimento. Mas as confissões dos esquemas de corrupção o tornaram mais reservado. Dois de seus três filhos – duas meninas e um menino – hoje moram no exterior. Enquanto estavam em Brasília, estudaram na Escola Americana, com mensalidade de até R$ 5.720, uma das mais caras do país.

Antes de Cláudio se posicionar no epicentro da Lava Jato, as festividades eram constantes na rotina do casal. Em 2015, as amigas Karina Rosso (esposa do deputado federal Rogério Rosso), Melissa Gontijo e Caroline Collor (casada com Fernando Collor de Mello) organizaram um grande almoço no Soho para comemorar meio século da vida de Cláudia. No local, um painel com fotos de amigos e de familiares chamava atenção dos convidados.

Em outra confraternização, o casal abriu as portas da própria casa para o lançamento do relógio de grife “King Power Guga Bang”, assinado pelo ex-campeão mundial de tênis Gustavo Kuerten. O rei das quadras e o príncipe das empreiteiras se encontraram no evento, que reuniu a alta sociedade de Brasília. Na ocasião, Cláudio Melo Filho ganhou de Guga um autógrafo na quadra de tênis que mantém no quintal. Esse, aliás, é um de seus hobbies, mas a prática ficou prejudicada após cirurgia no joelho, em 2012.

Confira como é a fachada da casa onde vivem, atualmente, Cláudio e Cláudia Melo:

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Por trás dos muros que cercam a casa, Cláudio mantém luxos como sua própria quadra de tênis
Casa da família já recebeu o ex-campeão mundial de tênis Gustavo Kuerten, no lançamento de seu relógio de grife na capital
Endereço atual de Cláudio Melo Filho, na QI 7 do Lago Sul
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Endereço atual de Cláudio Melo Filho, na QI 7 do Lago Sul

Daniel Ferreira/Metrópoles
Por trás dos muros que cercam a casa, Cláudio mantém luxos como sua própria quadra de tênis
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Por trás dos muros que cercam a casa, Cláudio mantém luxos como sua própria quadra de tênis

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Casa da família já recebeu o ex-campeão mundial de tênis Gustavo Kuerten, no lançamento de seu relógio de grife na capital
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Casa da família já recebeu o ex-campeão mundial de tênis Gustavo Kuerten, no lançamento de seu relógio de grife na capital

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A vida de luxo e badalação do casal Melo não estava evidente apenas nos eventos, mas também nos incidentes. Em 2016, a esposa de Cláudio foi vítima de uma quadrilha especializada em roubos de relógios importados. Ela teve seu Rolex roubado depois de ser seguida até um dos mais nobres centros comerciais do Lago Sul. Cláudia estacionou o carro e correu em direção a uma loja para tentar se livrar dos criminosos. Não houve tempo hábil, entretanto, para evitar a ação. Armado, o assaltante empurrou a mulher para dentro do estabelecimento e arrancou a joia de seu pulso.

Cláudio(a) e Fernando(a)
O gosto pelo tênis era um dos pontos de convergência entre os melhores amigos Cláudio Melo Filho e Fernando Naves Adriano, herdeiro da Brasal. Cláudio e sua mulher Cláudia dividiam efemeridades e intimidades com Fernando e Fernanda, a esposa do empresário. Fernando era filho do empresário e ex-deputado federal Osório Adriano Filho. E quem tocava os negócios da família ao lado do irmão. Morreu, aos 48 anos, no fim de 2014, depois de passar por uma cirurgia em decorrência de uma úlcera estourada. Na missa de sétimo dia de Fernando, Cláudio Melo Filho comoveu todos ao homenagear o amigo em discurso.

A relação entre as duas famílias não ficou só na amizade. A aproximação uniu também Brasal e Odebrecht, que se tornaram parceiras em um empreendimento suntuoso no coração do Setor de Indústria e Abastecimento (SIA): o Praça Capital. O local de aproximadamente 32 mil metros quadrados, que ainda permanece de portas fechadas, se propõe a um centro de negócios. Recentemente, a Praça Capital foi alvo de delação premiada da Odebrecht.

Apesar de a obra não ter sido atacada nos depoimentos de Cláudio Melo Filho, o ex-presidente da Odebrecht Realizações Imobiliárias Paul Altit posicionou o empreendimento na mira das investigações. Ele revelou aos procuradores supostas irregularidades envolvendo a distribuição de cotas do fundo constituído para erguer o Praça Capital. Segundo a versão do delator, o sócio de uma Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM) teria embolsado R$ 1,5 milhão a titulo de remuneração pelo serviço.

Veja o empreendimento Praça Capital, erguido pela Odebrecht em parceria com a Brasal:

Cláudio Melo Filho: o lobista de Brasília que colocou na bandeja a cabeça de 51 políticos - destaque galeria
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Localizado no SIA, o Praça Capital é um complexo comercial recém-construído no DF
O empreendimento foi erguido pela Odebrecht e pela Brasal em um terreno com mais de 32 mil m² de área
O empreendimento, da Brasal com a Odebrecht, localizado no SIA, tem cerca de 32 mil m² quadrados
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O empreendimento, da Brasal com a Odebrecht, localizado no SIA, tem cerca de 32 mil m² quadrados

Michael Melo/Metrópoles
Localizado no SIA, o Praça Capital é um complexo comercial recém-construído no DF
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Localizado no SIA, o Praça Capital é um complexo comercial recém-construído no DF

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O empreendimento foi erguido pela Odebrecht e pela Brasal em um terreno com mais de 32 mil m² de área
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O empreendimento foi erguido pela Odebrecht e pela Brasal em um terreno com mais de 32 mil m² de área

Michael Melo/Metrópoles

 

Cláudio Melo, o pai
Baiano de Salvador, Cláudio Melo Filho herdou do pai o nome, a proximidade de relacionamento com o poder e o traquejo para o lobby. O patriarca ocupou o cargo de diretor de relações institucionais da Odebrecht até 2004, quando foi acometido por um acidente vascular cerebral que interrompeu sua carreira. Ligado a homens fortes do cenário nacional, Cláudio pai passou o bastão para o rebento no mesmo ano. Ele faleceu em janeiro de 2012.

A morte do ex-diretor da Odebrecht abalou, em especial, o deputado federal Paes Landim (PTB/PI). Em um discurso carregado de adjetivos, o parlamentar homenageou o finado conterrâneo na Câmara e, ao mesmo tempo, bajulou o filho dele, que ocuparia seu lugar nos negócios: “Jovem e talentoso empresário, eficiente e dinâmico, um gentleman. Cláudio Melo pai e Cláudio Melo Filho se integraram no espírito da saga de seu Norberto (Odebrecht)”.

A rasgação de seda de Paes Landim não lhe garantiu imunidade nas delações de Cláudio Melo Filho. Ele contou aos procuradores que fez um pagamento, em 2010, no valor de R$ 100 mil ao deputado. O ex-diretor citou as ocasiões em que Paes Landim fez discursos apaixonados em favor da empreiteira e lembrou, inclusive, a homenagem em memória de seu pai. “Acredito que sua postura nutria esperança de receber algum pagamento a pretexto de campanha eleitoral, fato que ocorreu”, cravou o delator.

Brasília de bandeja
Formado em Administração pela Universidade de Brasília (UnB), Cláudio Melo Filho deu início à trajetória na Odebrecht como estagiário, em 1989. À época, ele operou em uma obra em Luziânia (GO). Na sequência, passou a atuar no Metrô DF e foi efetivado no setor da contabilidade. O empresário ainda chegou a integrar, entre 1993 e 1998, a Diplan – área de planejamento e acompanhamento gerencial, burocrático, interno da construtora – e, em seguida, foi convidado para trabalhar no empreendimento imobiliário Luanda Sul.

Morador do DF desde 1972, foi a partir de agosto de 2004 que Cláudio Melo Filho assumiu o cargo de diretor de relações institucionais da Odebrecht, em Brasília. Na delação premiada, ele chegou a dizer que, nessa época, ainda não militava no meio político e não nutria relação com parlamentares, salvo aqueles que conhecia por intermédio de seu pai.

A partir de 2004, o cenário mudou. Ao longo dos anos de trabalho na função, o empresário manteve contato frequente com dezenas de políticos, alguns frequentadores assíduos do restaurante Soho. Com Moreira Franco, por exemplo, Cláudio Melo Filho assumiu ter uma relação mais próxima, de muitos anos, por um parentesco distante. “Utilizei isso nos momentos em que precisei”, confessou aos procuradores. Quando se viu acuado e com a possibilidade de ser ele próprio responsabilizado pelas transações inescrupulosas, não houve amizade que segurasse. Moreira Franco entrou na longa lista das figuras públicas entregues pela boca de Cláudio Melo Filho.

A Odebrecht, agora, guarda a sete chaves a estratégia para preservar a lealdade de seus executivos e ex-executivos. Parte deles é mantida nos quadros da empresa. Outros receberam uma bolada a título de indenização – uma forma que a empreiteira teve de controlar seus colaboradores. Não se sabe em qual dos dois grupos Cláudio Melo Filho está. Mas, a despeito das confissões de ser o intermediário da propina entre a Odebrecht e mais de cinco dezenas de políticos, ele mantém seu alto padrão de vida. O mentor dos memoráveis apelidos de propineiros tem também um codinome para chamar de seu: Dão. Será que algum dos 51 delatados arrisca um palpite sobre o significado?

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