Polícias do DF se mobilizam para trocar armas que apresentam falhas

O Exército Brasileiro afirmou ao Metrópoles que instaurou um procedimento investigativo para verificar a adequação das armas produzidas pela empresa brasileira Forjas Taurus

atualizado 10/07/2016 12:20

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Diante das recorrentes falhas envolvendo pistolas e até submetralhadoras da marca brasileira Forjas Taurus, as polícias do Distrito Federal estão se mobilizando para trocar o armamento das corporações. O Exército Brasileiro, órgão que controla a venda de armas e munições no país, afirmou ao Metrópoles que instaurou um procedimento investigativo a fim de averiguar a adequação dos produtos em relação ao protótipo aprovado para fabricação. O procedimento, que ainda está em andamento, vai verificar a qualificação técnica da empresa.

Atenta ao perigo que os PMs correm, a Polícia Militar decidiu nomear uma comissão para relacionar todos os incidentes envolvendo as armas da Taurus. Os trabalhos começam já na próxima semana. Os integrantes serão escolhidos pelo Departamento de Logística da corporação. O grupo fará avaliação para determinar se é o caso de realizar uma nova licitação para a aquisição de produtos de outras marcas.

Já a Polícia Civil está com um processo de compra de 200 pistolas Glock em andamento. O diretor-geral da corporação, Eric Seba, afirmou que é de total interesse da polícia que os agentes tenham armas de boa qualidade. A compra somente foi aprovada porque as armas serão usadas por policiais que atuam nas divisões especiais.

Nossa prioridade é fornecer os melhores equipamentos de trabalho para os policiais, independentemente da marca. No entanto, em algumas situações nos vemos engessados pela legislação, que nem sempre nos permite comprar outras marcas que podem ser mais seguras e baratas.

Eric Seba, diretor-geral da Polícia Civil do DF

A Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados também está com uma licitação em andamento para a compra de 168 pistolas da austríaca Glock, modelo .40 S&W. Em nota, a assessoria da Casa afirmou que a marca foi selecionada “porque seu sistema de funcionamento oferece um bom nível de segurança, além de boa relação custo benefício”.

Os agentes são autorizados pelo Estatuto do Desarmamento a trabalhar armados e têm, entre suas atribuições, fazer o policiamento ostensivo, a proteção patrimonial e a segurança de autoridades.

Os equipamentos serão adquiridos para substituir os utilizados atualmente, que a Câmara considera antigos. Os policiais legislativos são treinados para porte e uso de armas de fogo e passam por reciclagens periódicas, ressaltou a assessoria.

Monopólio
As licitações internacionais precisam passar pelo aval do Exército Brasileiro. O artigo cinco da Portaria Normativa nº 620/MD determina que “a importação de produtos controlados poderá ser negada, quando existirem similares fabricados por indústria brasileira do setor de defesa”. Ou seja, mesmo com as denúncias de falhas, as polícias do Brasil são obrigadas a comprar da única empresa brasileira que atua no setor.

No entanto, o Exército ressaltou que, quando é constatado que o produto nacional não atende às necessidades operacionais do órgão de segurança pública adquirente, a importação poderá ser realizada. Desde o início de 2015, todas os pedidos foram atendidos, destacou o órgão.

Como parte do procedimento de investigação, a fábrica da Forjas Taurus, no Rio Grande do Sul, foi inspecionada por uma equipe de técnicos do Exército. O grupo produziu um relatório preliminar recomendando à empresa que preste todas as informações necessárias à manutenção adequada das armas, oriente os usuários quanto à substituição de peças após determinado tempo de uso ou número de tiros, expanda os “recalls” a todos os adquirentes, entre outras medidas.

Além disso, o Exército afirmou que realiza testes nos armamentos fornecidos aos órgãos de segurança pública em amostras retiradas da linha de produção. As recomendações iniciais devem ser atendidas pela empresa imediatamente.

O outro lado
Questionada pelo Metrópoles sobre os defeitos e o que está fazendo para corrigi-los, a Taurus informou, por meio de nota, não ter conhecimento dos problemas e que “perícias independentes, realizadas dentro das normas aplicáveis, comprovam que não houve qualquer falha ou defeito nos mecanismos de funcionamento e de segurança nas armas fabricadas pela companhia”.

Laudos
Diferentemente do informado pela Taurus, exames feitos por institutos de criminalística do Distrito Federal e do Rio de Janeiro comprovaram que alguns lotes de armas estão com defeito. Análise concluída em março pela Polícia Civil do DF revelou que, durante um teste por amostragem, de 25 pistolas .40, 10 apresentaram falhas de segurança e dispararam ao cair no chão.

As pistolas usadas pertencem à Polícia Civil e não apresentavam qualquer defeito aparente. Durante a avaliação, foram jogados em piso de concreto e de borracha, em cinco posições diferentes. A solicitação para averiguar a segurança do armamento partiu da Divisão de Controle de Armas e Explosivos (Dame) da corporação.

Este ano, a Taurus foi condenada a pagar R$ 70 mil a um agente de polícia do Distrito Federal. A Justiça reconheceu que a pistola falhou depois de cair no chão e disparar. A bala o atingiu na região do tórax.

Os casos de defeitos em armamentos também são investigados, por meio de um inquérito civil, pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

No Rio, a polícia testou vários modelos usados por agentes de segurança. Entre os defeitos mais recorrentes estão os disparos acidentais. A perícia foi feita entre 31 de março e 1º de abril. Das 55 pistolas avaliadas – compradas havia, no máximo, dois anos -, 36 apresentaram problemas.

Inicialmente, 35 pistolas da Taurus, modelo PT 940, passaram pelo exame. Em 20, ao menos uma falha foi identificada. A segunda perícia analisou as PT 840. Das 20 testadas, 16 tinham problemas.

Vítimas da Taurus
Ao menos 34 policiais brasileiros, feridos por disparos acidentais, se uniram em um movimento chamado “Vítimas da Taurus”. Eles estão mobilizados e pressionam os órgãos de fiscalização para cobrar medidas efetivas sobre os defeitos nos equipamentos e o monopólio da venda de armas e munições no país.

Em todos os casos relatados pelos integrantes do grupo não houve acionamento do gatilho. Os policiais foram atingidos depois de as pistolas caírem no chão ou até mesmo quando estavam no coldre, como ocorreu com um tenente da PM de Goiânia. Esse foi o último caso registrado. Na terça-feira (5/7), o militar saía da viatura quando o equipamento disparou e o acertou na perna direita. A pistola que ele usava era uma 24/7 da Taurus.

 

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