Policial federal que matou homem a tiros em barco é condenado
O magistrado determinou a prisão imediata de Ricardo Matias que respondeu o processo em liberdade e seguiu trabalhando normalmente
atualizado
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O policial federal Ricardo Matias Rodrigues, 53 anos, foi condenado pelo Tribunal do Júri de Brasília a 24 anos de prisão, em regime fechado, por matar o bancário Cláudio Muller a tiros durante uma festa em um barco em 2016 e por ter atirado no amigo da vítima, que sobreviveu com sequelas.
Na dosimetria, o juiz Paulo Rogério Santos fixou 18 anos de reclusão pelo homicídio consumado e 7 anos e 6 meses pelo crime tentado. Em razão da continuidade delitiva, aplicou aumento de um terço sobre a pena do crime mais grave, totalizando 24 anos de reclusão.
Com a decisão do Júri, o magistrado determinou a prisão imediata de Ricardo Matias que respondeu o processo em liberdade e seguiu trabalhando normalmente.
O juiz afirmou que o réu agiu com “culpabilidade intensa”, destacando que, por ser policial federal e habituado ao uso de armas, deveria ter maior controle, mas optou por ingerir álcool, “rebaixando seu nível de percepção, acuidade e tomada prudente de decisões”. Ressaltou que a conduta foi “absolutamente desnecessária”, pois havia outras formas de resolver a situação, e que as vítimas foram surpreendidas e estavam desarmadas.
Também apontou indícios de “certa frieza e ausência de empatia” por parte do réu, evidenciados ao chamar as vítimas de “vagabundos” após o ocorrido. Segundo o magistrado, o comportamento da vítima “não pode ser considerado como comportamento que pudesse gerar reação tão desmedida e violenta”. Por fim, afirmou que a pena aplicada é “necessária e suficiente para a reprovação e prevenção do crime”.
Matias chegou a ser condenado a 24 anos, nove meses e 15 dias de prisão pelo Tribunal do Júri de Brasília em 2018 pelo assassinato. No entanto, a decisão foi anulada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2019 após identificação de falha procedimental.
A condenação do plenário foi anulada em razão da “ofensa aos princípios da correlação, da plenitude de defesa e do contraditório”. Matias chegou a ter a prisão domiciliar decretada, mas foi revogada depois da anulação da decisão.
O crime
- O policial federal foi julgado novamente por homicídio duplamente qualificado, por motivo fútil e uso de recurso que impossibilitou a defesa do bancário do Banco do Brasil Cláudio Muller, aos 47 anos.
- Além do assassinato, Matias foi condenado por disparar contra Fábio Cunha, que, na época, tinha 37 anos e conseguiu sobreviver após tiro no peito, onde ficou com bala alojada. O agente utilizou uma pistola glock 9mm para efetuar os disparos, mas não chegou a ser preso porque nenhum policial fez o flagrante.
- As versões contadas por testemunhas divergem em alguns aspectos, mas há um fator em comum nos depoimentos: o desentendimento entre mulheres presentes na comemoração foi o motivo da discussão que acabou na tragédia.
- A esposa de Cláudio alega que foi agredida pela companheira do policial federal, momento em que o marido e o amigo Fábio foram tirar satisfações.
- Já segundo o agente Rodrigues, durante a comemoração do aniversário de três mulheres na embarcação Lake Palace, houve uma confusão, e Cláudio e Fábio teriam agredido a esposa do PF. Rodrigues, então, sacou a arma e ordenou aos supostos agressores que se afastassem.
- Ao perceber que o comando não foi atendido, o policial disparou um tiro no abdômen de cada um e, em seguida, teria pedido para que alguém solicitasse socorro.
À época do crime, Rodrigues se apresentou à 5ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), entregou a arma e afirmou ter agido em legítima defesa. Ele foi liberado após assinar termo de compromisso para comparecer aos atos do processo.
Testemunhas, porém, contestam a versão e dizem não ter visto o agente se identificar como policial. O próprio autor dos disparos admitiu ter ingerido bebidas alcoólicas durante a festa. A defesa sustenta que ele teria consumido “apenas duas ou três taças de vinho”.
Cláudio Muller era assessor empresarial de tecnologia da informação do Banco do Brasil, nasceu no Rio de Janeiro e foi transferido para Brasília em 1998. Ele deixou duas filhas, esposa e um enteado.
Fábio Cunha chegou a pedir indenização de R$ 800 mil, mas a Justiça fixou o valor em R$ 50 mil.
Gratificações
Mesmo respondendo ao processo, o policial segue na Polícia Federal. Matias, que ingressou na corporação em 2006, continua lotado na Diretoria de Combate ao Crime Organizado e à Corrupção (Dicor).
Entre novembro de 2020 e fevereiro de 2025, ele recebeu mais de R$ 22 mil em gratificações e diárias por atividades profissionais, como ministrar cursos de gestão de crise e segurança em cidades como Brasília (DF), Goiânia (GO), Paracatu (MG) e Eunápolis (BA), além de participar de capacitações.
Os pagamentos são previstos na Gratificação por Encargo de Curso ou Concurso (GECC), destinada a servidores públicos federais que atuam eventualmente em treinamentos ou atividades semelhantes.
Segundo tabela salarial da Polícia Federal, um agente especial recebe cerca de R$ 21.987,38. Com reajuste aprovado para este ano, a remuneração pode chegar a R$ 25.250, sem considerar adicionais por tempo de serviço.
Formado em Ciências Econômicas, Matias tem especialização em inteligência competitiva e contrainteligência corporativa, além de MBA em gerenciamento de crises.














