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A dilatação da pupila e os olhos arregalados revelam a agitação. Em seguida, paranoia e parada cardíaca confirmam o poder letal da nova droga: a n-etilpentilona. Ainda rara no Brasil, a substância é responsável pela morte da universitária Ana Carolina Lessa (foto em destaque), 19 anos, em 23 de junho de 2018. A jovem é a segunda vítima fatal por uso do tóxico em todo o país. A origem dos comprimidos está sob investigação da 3ª Delegacia de Polícia (Cruzeiro).

Os policiais querem descobrir como a droga chegou às mãos da estudante e se havia distribuição de n-etilpentilona na festa rave Arraiá Psicodélico, realizada na zona rural do Recanto das Emas. De acordo com a Polícia Federal, apenas duas apreensões do entorpecente foram feitas no Brasil até hoje, em Santa Catarina e no Rio Grande do Norte.

Segundo a delegada-chefe da 3ª DP, Cláudia Alcântara, os organizadores da festa serão intimados novamente para prestar esclarecimentos. “Ouvimos várias testemunhas que confirmaram a presença da droga e o uso feito pela vítima. Queremos saber, também, se havia a estrutura necessária para o atendimento médico para quem estava na festa”, explicou.

 

Perda de controle
Testemunhas ouvidas na delegacia disseram que, no evento, a universitária perdeu a noção de tempo e espaço, e começou a ferir o próprio corpo. Os relatos dão conta de que Ana Carolina começou a se atirar contra as grades do local, cada vez com mais violência, e depois a rastejar pelo chão. De acordo com os depoimentos, a impressão era de que a jovem tentava atravessar a cerca.

Mais informações colhidas pelos investigadores revelaram que a universitária teria esfarelado os comprimidos e misturado o pó a uma bebida alcoólica. Isso teria causado a potencialização da substância e o aumento da velocidade dos efeitos na estudante. “A vítima teria ingerido a droga com uma dose de catuaba”, detalhou a delegada.

Um motorista de ônibus contratado para transportar quem deixava a festa também foi ouvido pelos investigadores. Ele contou que o número de pessoas sob efeito de entorpecentes era impressionante. De acordo com o depoimento, elas pareciam “zumbis” e caíam uma por cima das outras.

Primeira morte
Ana Carolina foi a primeira vítima fatal da n-etilpentilona no Distrito Federal. Em dezembro de 2017, no Rio Grande do Norte, Carlos Henrique Santa Oliveira, 32 anos, também morreu após fazer uso da substância em uma festa rave. O exame toxicológico confirmou a ingestão e foi divulgado pela Secretaria de Segurança Pública local. Os laudos foram realizados na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo.

Pouco conhecida até por peritos criminais especializados em toxicologia, a n-etilpentilona entrou no registro de entorpecentes da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apenas em março de 2017. O Metrópoles conversou com Bruno Telles, da Fundação de Peritos Ilaraine Acacio Arce e do Instituto de Criminalística (IC) da Polícia Civil, sobre as características da substância.

Confusão
De acordo com Telles, a n-etilpentilona e o MDMA (uma variação do ecstasy) têm efeitos estimulantes similares e causam euforia, podendo ser confundidos pelos usuários. No entanto, o perito explica que pouco se sabe sobre a toxicologia da nova substância. “Não sabemos, por exemplo, sobre os níveis tóxicos desse tipo de droga, ou seja, não é possível mensurar a quantidade que poderia levar uma pessoa à overdose”, explicou.

Algumas das formas de apresentação do novo produto foram periciadas nos laboratórios do IC. “Já a analisamos em sua forma de comprimidos, principalmente, mas ela também apareceu em formato de cristais”, disse.