Pacientes com câncer no DF denunciam médica por humilhação em perícia

Um dos casos ocorreu em 29 de abril e foi registrado no CRM-DF e na Polícia Civil do DF

atualizado 12/05/2021 10:00

Google Street View/Reprodução

Uma paciente com câncer que recorreu à Justiça para garantir que o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) avaliasse a aposentadoria por invalidez registrou denúncia no Conselho Regional de Medicina do DF (CRM-DF) contra a médica que fez a perícia. Segundo Elza Lucia Santos, 39 anos, ela foi humilhada durante o atendimento na Seção Judiciária do Distrito Federal (SJDF), vinculada ao Tribunal Regional Federal 1 (TRF-1). Outras três mulheres ouvidas pela reportagem relataram experiências parecidas.

O caso de Elza aconteceu em 29 de abril. Conforme detalha a paciente, foi a segunda vez que ela se consultou com a médica Márcia Ayres da Motta Teodoro. A primeira vez, em 2019, já teria tido um problema, mas, na segunda, a situação piorou. Ao procurar, na sacola que carregava, uma biópsia feita em 2017 para entregar à médica, ela teria ouvido: “Pode parar! Eu não vou iniciar uma perícia com paciente de costas! Trate-se de virar pra mim!”.

De acordo com Elza, a perita simplesmente jogou os documentos dela no chão. “Ela espalha os documentos como quem manuseia cartas de baralho, aparentemente como quem está acostumada a agir assim. Pasma, sou eu quem localizo a biópsia que ela desejava. Pego-o em minhas mãos e entrego a ela”, descreve.

Durante perguntas sobre dados básicos como nome completo e data de nascimento, Elza conta ter se confundido quando questionada há quanto tempo fazia o tratamento e teria ouvido nova grosseria. “Nesse momento, uma lágrima escorreu. Respirei fundo e disse que meus neurônios foram comprometidos pela medicação”, lembra.

Ao perceber o choro, Márcia Ayres teria começado a dizer que não poderia continuar a perícia daquele jeito. A paciente afirma que foi dito a ela: “Você vai ficar quieta e calada ou vai me esperar do lado de fora da sala”.

Após uma discussão sobre quais relatórios deveriam ser avaliados, uma vez que Elza teve metástase e a primeira biópsia não contemplava tal diagnóstico, a médica teria mandado a paciente ir para fora da sala sob ameaças de cancelamento de perícia. “Ela me disse que eu teria de esperar ainda mais até eles te arrumarem vaga com outro médico e eu aceitei”.

“Sai, sai, sai! Segue seu rumo!”, teria esbravejado a responsável pela perícia, enquanto Elza juntava os documentos espalhados.

Na saída do consultório, ela gravou um vídeo, ainda aos prantos. Depois, registrou um boletim de ocorrência contra a médica e uma denúncia no CRM-DF.

Caso não é isolado

O Metrópoles entrou em contato com outras mulheres que também tiveram câncer, passaram pela perícia com a médica Márcia Ayres e relatam tratamento semelhante em diferentes datas. Edileise Lopes Mol, 57 anos, por exemplo, foi atendida em 2016 e ainda se lembra da forma que foi atendida. “Cheguei lá ainda careca da quimioterapia, com os neurônios afetados e ela quer muita pressa nas respostas, foi muito grossa. Saí de lá chorando”, lembra.

O episódio ficou marcado na família, tanto que o marido de Edileise, Márcio Barbosa, 60, diz que o trauma existe até hoje. “Lembro muito bem da minha esposa voltar chorando. Fiquei extremamente chocado”, relata.

Em 2019, foi a vez de Rosa Maria Rodrigues, 48. Apesar de ela ter conseguido prorrogar o benefício que pedia, a paciente resume o atendimento em uma palavra: desumano. “A gente chega lá e não tem direito de falar um ‘A’. Entrei na Justiça acreditando que seria acolhida, mas a gente é humilhada”, lamenta.

Segundo ela, todos os exames foram ignorados. Apenas um laudo foi avaliado. “No dia eu ainda estava com os pontos da minha cirurgia, acho que foi isso que convenceu, pois ela não olhou nada”, explica.

Gleiciane Pereira de Sousa, 39, relata a mesma experiência. “Eu tentava responder alguma coisa e já cortava. Só podia falar o que ela perguntava. Eu saí da sala em pânico e chorando”, comenta.

O benefício foi negado a princípio, mas após outro recurso, ela conseguiu prorrogá-lo por mais alguns meses. “Eu saí de lá e já liguei para a advogada dizendo que não ia ser aprovado. Fiquei muito abalada”, lembra.

O que diz a médica

Procurada, a médica Márcia Ayres disse que não poderia dar detalhes sobre o que ocorreu na consulta com Elza para não quebrar o sigilo médico. No entanto, alegou que a pessoa alterada era a paciente. “Ela já chegou estressada. O problema foi não só dentro do consultório, mas também com a secretária. Em nenhum momento foi recusada a perícia”, explicou.

Segundo a médica, após gritos de Elza, ela teria oferecido a oportunidade de remarcar a consulta para um momento em que ela estivesse melhor. “O que foi perguntado, por duas vezes, é se ela queria continuar ou fazer a perícia em outro momento. Primeiro houve a negativa e depois ela aceitou”, relembrou.

Já com relação a outros casos ouvidos pela reportagem, a médica disse que trabalha com total transparência. “Minhas consultas são com porta aberta. Só fecho para fazer o exame físico. Em nenhum momento é meu interesse destratar ninguém que venha aqui”, afirmou.

Segundo ela, essas outras reclamações foram recebidas com surpresa. “Sempre procurei agir com muita lisura”, resume.

A SJDF, responsável por conduzir os pedidos de recurso contra o INSS, também foi procurada, mas não houve resposta. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.

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