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Relatos expõem o desamparo das mulheres que perderam os filhos após o parto

Profissionais das unidades hospitalares não estão preparados para lidar com o sofrimento das mães de bebês que morrem ainda na barriga ou nos primeiros dias de vida. Segundo último levantamento da Secretaria de Saúde, 638 gestantes passaram por esse trauma no DF em 2013

Daniel Ferreira/Metrópoles
Paulo Lannes
 

Não há como mensurar a dor que uma mãe sente com a morte do filho. Agora, imagine quando esse sofrimento é ignorado e falta o mínimo amparo psicológico. Infelizmente, tanto na rede pública quanto nos hospitais privados do Distrito Federal, trata-se de um quadro comum no caso de mulheres que perdem os bebês no fim da gestação ou logo após o parto.

O Metrópoles conversou com mulheres que tiveram a maternidade interrompida precocemente e constatou que sobram relatos angustiantes. A devastação emocional arrasa desde quem foi obrigada a se recuperar do procedimento médico no mesmo ambiente em que mães amamentavam recém-nascidos àquelas impedidas de verem os filhos natimortos, muitas vezes jogados em sacos plásticos para o descarte com o lixo hospitalar.

Em comum, a falta de sensibilidade por parte de profissionais — e até mesmo de parentes  — de que perder um filho com poucos dias de vida é tão difícil e doloroso quanto em qualquer outra idade.

Entre bebês na 22ª semana de gestação (quando deixa de ser considerado feto) e aqueles com até 6 dias de idade, o Distrito Federal contabilizou 638 que vieram o óbito somente em 2013, ano em que foi realizada a última pesquisa da Secretaria de Saúde sobre o assunto. Desse total, 85 já se encontravam no período ideal para o parto (entre a 37ª e a 42ª semana), e 148 morreram com menos de um dia de vida.

*Arte: Joelson Miranda/Metrópoles**

Arte: Joelson Miranda/Metrópoles

 

A professora de ensino fundamental Fernanda Peixoto Balster (foto maior) vivenciou esse drama em julho passado. Seu filho Rafael nasceu após uma gravidez saudável, porém a mãe percebeu que ele sentia desconforto respiratório. Ao completar apenas 8 horas de vida, a pediatra o levou para um “banho de luz”. Pouco mais de 24 horas após o nascimento, o bebê estava morto.

Foi desesperador. Levaram o Rafael e só voltaram com sua roupinha, me informando que ele teve que ir para a UTI"
Fernanda Peixoto Balster, professora

Fernanda conta que, para ver o filho ainda vivo, tinha que obedecer aos rígidos horários de visita da unidade hospitalar. Mas a maior angústia era que nenhum dos especialistas explicava a real condição de Rafael. “Meia hora depois de falarem que a saúde dele estava estável, voltaram me avisando de sua morte”, relembra, muito emocionada.

Após a notícia, ela não teve nenhum tipo de suporte. “Além de não me disponibilizarem uma psicóloga ou assistente social, a equipe médica responsável pelo meu caso caiu em prantos. Os profissionais não sabiam como lidar com o que ocorreu.”

A psicóloga Juliana Benevides, especializada em depressão pós-parto, perdas gestacionais e neonatais, acompanha de perto essa problemática. “É normal as mulheres escutarem que não deveriam se preocupar, que, em pouco tempo, poderão tentar um filho novamente. É como se aquele filho que morreu nunca tivesse existido. Dessa forma, entram em um grande conflito interno sobre essas questões. E sofrem caladas”, explica.

 

 

Descaso
Não há, em nenhum hospital particular ou público do DF, qualquer tipo de política ou estrutura para dar suporte às mulheres que se encontram nessa situação. O próprio manual técnico sobre gestação de alto risco, criado pelo Ministério da Saúde para auxiliar profissionais da área, aborda superficialmente o tema. No capítulo em que fala sobre o “óbito fetal”, diz somente que se deve dar um tempo à gestante para que ela possa definir os próximos passos. Não há qualquer menção sobre haver uma equipe preparada para tornar a situação menos traumática.

O Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB) buscou melhorar esse cenário ao inserir, há dois anos, um protocolo de luto idealizado pela psicóloga da instituição, Alessandra Arrais. O documento não dá suporte às mulheres após o parto, mas determina que, se o bebê morrer ainda dentro da barriga, duas psicólogas devem acompanhar a gestante e acalmá-la até a cesárea.

“Deixamos que sinta a perda, perguntamos sobre o neném e as expectativas que tinham para o futuro dele. É importante para que elas consigam fechar o ciclo e superar o trauma, respeitando o próprio luto”, afirma a psicóloga. Apesar de a iniciativa ter recebido elogios, hoje, os especialistas dificilmente seguem o estudo de Alessandra, que, atualmente, trabalha em outra área do hospital.

Doulas
Se nas unidades hospitalares a dor é minimizada, nos partos em casa, as mulheres que vivenciam a perda de um filho costumam ter um mínimo de amparo das doulas — pessoas responsáveis por dar suporte à gestante. “No treinamento, deixamos claro que a mulher deve ser preservada ao máximo”, afirma Marilda Castro, presidente do Matriusca, curso de formação de doulas. Hoje, há cerca de 400 profissionais da área na capital federal.

Quem passou por essa situação foi a servidora pública Rosana Marques. Ela soube, na 39ª semana de gestação, que seu filho havia morrido, e, mesmo assim, decidiu fazer o parto em casa.

Pedi para abraçar meu filho já morto e não fui criticada. Minha irmã passou pela mesma situação em um hospital e nem deixaram ela olhar para o filho, afirmando que não faria bem. Para mim, foi essencial. Pude me despedir"
Rosana Marques, servidora pública

Grupos de apoio
Outra ação que pode ajudar nos momentos de dor é trocar experiências com quem sentiu na pele o mesmo drama. Brasília conta com dois grupos de apoio às mulheres que sofreram perdas durante a gestação. O “Mães de estrela” se destaca por promover encontros, toda primeira quinta-feira do mês, em que se reúnem, em média, 12 mulheres. “Desabafar e ouvir relatos de superação fazem as participantes se sentirem acolhidas”, explica a funcionária pública Mary Baleeiro, responsável pelo grupo.

Mary também criou um grupo no aplicativo móvel WhatsApp, que funciona como suporte para as mulheres que entram em crise ou que só precisam de algumas palavras para relaxar. Nesse ambiente virtual, há 60 pessoas de todo o país. Kamilla Barbosa, uma das participantes de ambos os espaços, perdeu o filho há quatro anos durante o parto e sabe a diferença que faz uma palavra de conforto. “Nos sentimos solitárias, pois parece que sofremos sozinhas. Estar perto de outras que passaram pela mesma situação me tranquilizou e me permitiu seguir em frente.”

 

 

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