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Distrito Federal

No DF, 9 mil idosos têm direitos humanos violados todos os dias

Capital federal ocupa a 4ª posição entre as unidades da Federação com maior número de violações de direitos humanos contra pessoas idosas

28/06/2026 03:25
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Arte/Metrópoles
No DF, 9 mil idosos têm direitos humanos violados todos os dias

A violência contra a pessoa idosa muitas vezes acontece dentro de casa, é silenciosa e nem sempre é reconhecida pela própria vítima. No Distrito Federal, 10.755 idosos figuraram como vítimas de violações de direitos humanos entre janeiro e 24 de junho deste ano, segundo denúncias recebidas pela Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (Disque 100). Para mais de 9,3 mil deles, as transgressões aconteciam com frequência diária.

Os registros resultaram em 50.116 violações de direitos humanos, já que uma mesma denúncia pode reunir diferentes tipos de violência e infrações aos direitos da vítima.

Os dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos colocam o Distrito Federal na 4ª posição do ranking nacional de unidades da Federação com o maior número de violações de direitos humanos contra pessoas idosas registradas no primeiro semestre de 2026.

Às vésperas do encerramento do Junho Violeta, voltado para a conscientização e combate à violência contra a pessoa idosa, a campanha chama atenção para diferentes formas de violência, que podem ser físicas, psicológicas, patrimoniais, institucionais, sexuais ou decorrentes de negligência e abandono.

Entre as pessoas idosas que aparecem nas denúncias, a maior parte tem entre 70 e 74 anos, faixa etária que concentra 8.657 vítimas. Em seguida, estão pessoas de 75 a 79 anos (508); 65 a 69 anos (372); 80 a 84 anos (366); 60 a 64 anos (334); 85 a 89 anos (245); e 90 anos ou mais (198). Em outros 75 registros, a idade da vítima não foi informada.

Em relação ao sexo das vítimas, os homens representam a maior parte dos registros, com 9.313. As mulheres somam 1.394 vítimas. Há ainda registros em que essa informação não consta na denúncia.

A categoria de violação mais recorrente é a relacionada à integridade, com 10.624 registros. Também aparecem entre as principais ocorrências as violações de direitos sociais (3.638) e de violência institucional (936). O painel ainda contabiliza violações envolvendo liberdade (373), direitos civis e políticos (101) e igualdade (50).

A coordenadora-geral do Disque Direitos Humanos (Disque 100), Franciely Almeida, explica que as violações de integridade compreendem ocorrências de violência física, violência psicológica, violência patrimonial, tortura, maus-tratos, negligência, abandono e outras condutas que comprometam a segurança, a saúde ou a dignidade da pessoa.

Outro dado que chama atenção é a recorrência das agressões. Segundo o Painel da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, mais de 9,3 mil pessoas idosas sofreram violações classificadas como de frequência diária.

“A classificação como frequência diária indica que, conforme o relato apresentado, a violação ocorre de forma contínua ou reiterada todos os dias, não se restringindo a um episódio isolado. Essa informação é um elemento relevante para a avaliação da gravidade da situação e subsidia a definição do fluxo de encaminhamento e a priorização das medidas de proteção a serem adotadas pelos órgãos competentes”, ressalta a coordenadora-geral.

De acordo com Fraciely, a recorrência diária é mais frequentemente observada em situações de violência ocorridas no contexto das relações familiares ou de cuidado, especialmente nos casos de negligência, abandono, violência psicológica, violência física continuada e violência patrimonial.

Confira os dados: 

Desafios na rede de proteção aos idosos

A Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou Contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin/PCDF) também tem observado aumento nas ocorrências envolvendo pessoas idosas.

Entre 1º de janeiro e 25 de junho deste ano, foram registradas 123 ocorrências, ante 101 no mesmo período de 2025 e 92 em 2024. O crescimento foi de 21,7% na comparação com o ano passado.

O número de investigações instauradas também aumentou. A delegacia abriu 102 inquéritos neste ano, contra 83 em 2025 e 71 em 2024.

Segundo a delegada-chefe adjunta da Decrin, Cyntia Carvalho, o crescimento está relacionado tanto ao envelhecimento da população quanto ao fortalecimento da delegacia especializada.

“Quanto mais pessoas idosas nós temos, maior é a possibilidade de haver vítimas. Ao mesmo tempo, a Decrin tem ampliado suas ações e divulgado seu trabalho, o que encoraja mais vítimas a procurar a delegacia”, explica.

Apesar do aumento dos registros, a delegada afirma que o maior desafio da polícia continua sendo convencer as vítimas de que elas estão sofrendo violência. “A maior dificuldade é sensibilizar a pessoa idosa para que ela se reconheça como vítima. Sem uma vítima colaborativa, muitas investigações acabam não avançando.”

Cyntia destaca que, na maioria dos casos, os agressores são pessoas da própria família. De acordo com ela, os principais violadores de direitos das pessoas idosas são os filhos e os netos.

Ela explica que as violências mais recorrentes investigadas pela Decrin são a psicológica e a patrimonial.

A primeira ocorre quando o idoso é excluído das decisões familiares, tem sua autonomia desrespeitada ou é isolado do convívio social. Já a segunda envolve desde a apropriação indevida de aposentadorias até pressões para preservar o patrimônio visando uma futura herança.

Outro obstáculo enfrentado pela polícia é a falta de estrutura da rede de acolhimento no Distrito Federal. Segundo a delegada, muitas vezes a prisão do agressor esbarra na ausência de locais para receber a vítima.

“Às vezes conseguimos afastar ou prender o cuidador que pratica a violência, mas não temos para onde levar essa pessoa idosa. A segurança pública faz sua parte, mas faltam equipamentos da assistência social, como instituições públicas de longa permanência e centros-dia.”

Para Cyntia, o enfrentamento da violência contra idosos depende de uma atuação integrada entre segurança pública, assistência social e saúde. “Não basta apenas investigar e prender. É preciso garantir uma rede capaz de acolher e proteger essas vítimas.”

Conscientização e prevenção

Enquanto a Decrin atua na investigação criminal, a Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (Sejus-DF) concentra esforços na prevenção e no acolhimento das vítimas. Segundo a subsecretária de Políticas para a Pessoa Idosa, Dolores Ferreira, a maioria das violações de direitos contra idosos está relacionada à vulnerabilidade social e a conflitos familiares, envolvendo principalmente violência patrimonial, negligência, agressões físicas e violência psicológica.

Dados da pasta mostram que, apenas em 2026, 884 denúncias envolvendo violações de direitos de pessoas idosas foram recepcionadas e encaminhadas pela pasta.

Para a subsecretária, a violência contra a população idosa ainda é, em grande parte, silenciosa e acontece dentro do ambiente familiar, dificultando a identificação e a denúncia.

“Muitos idosos dependem financeiramente ou emocionalmente dos próprios agressores e, por medo, vergonha ou receio de romper vínculos familiares, acabam não denunciando as situações de violência”, afirma.

Segundo Dolores, ampliar o acesso à informação é uma das principais estratégias para reduzir esse tipo de violência. “Quando a pessoa idosa tem acesso às informações corretas, menos violências ela sofre. Ao conhecer seus direitos e identificar situações de abuso, ela se fortalece para buscar ajuda e romper ciclos de violência”, ressalta.

A subsecretária afirma que o DF conta com uma rede integrada de proteção formada por assistência social, saúde, segurança pública e sistema de Justiça.

Entre os serviços disponíveis estão o Programa Viver 60+, os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas), os Centros Especializados para Atenção às Pessoas em Situação de Violência (Cepavs), a Central Judicial da Pessoa Idosa, a Decrin e os canais de denúncia, como o Disque 100, o telefone 197 da Polícia Civil e a Ouvidoria do GDF (162).

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Durante a campanha Junho Violeta, a Sejus promove oficinas, palestras, rodas de conversa e atividades de integração nos 48 polos do Programa Viver 60+, orientando os participantes sobre os diferentes tipos de violência, os sinais de alerta e os canais de denúncia.

Para a gestora, fortalecer os vínculos sociais também é uma forma de prevenção, já que o isolamento aumenta a vulnerabilidade das pessoas idosas.

Disque 100

Por meio do Disque 100, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania recebe, analisa e encaminha aos órgãos de proteção e responsabilização as denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes, pessoas idosas, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+, população em situação de rua, outras populações em situação de vulnerabilidade, como indígenas, quilombolas, ciganos, entre outros.

Posteriormente, é realizado o monitoramento dos encaminhamentos, com o objetivo de acompanhar as providências adotadas pelos órgãos acionados, respeitadas as competências legais de cada instituição.

O serviço pode ser considerado como “pronto socorro” dos direitos humanos e atende graves situações de violações que acabaram de ocorrer ou que ainda estão em curso, acionando os órgãos competentes e possibilitando o flagrante.

O Disque 100 funciona diariamente, 24 horas, por dia, incluindo sábados, domingos e feriados. As ligações podem ser feitas de todo o Brasil por meio de discagem direta e gratuita, de qualquer terminal telefônico fixo ou móvel.