“Nada traz ele de volta”: família de homem morto por PM exige justiça

O caso de Cledson de Caldas Souza, morto pelo cabo Bruno Correa, em 2023, vai a júri após 662 dias da morte do feirante. Relembre como foi

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Reprodução/Facebook
Cledson Caldas
1 de 1 Cledson Caldas - Foto: Reprodução/Facebook

Era madrugada de 31 de dezembro 2023, véspera de Ano-Novo. Um dia de tradicional comemoração, mas que se tornou uma data marcada pelo luto na família de Cledson de Caldas Souza (imagem em destaque).

Conhecido como Keke, Cledson morreu após ser baleado na cabeça e no braço pelo cabo Bruno Correa da Hora Fernandes. O policial militar estava de folga no dia, quando, em um comércio, Bruno e Cledson teriam discutido e, ao saírem do local, encontraram-se em um semáforo da Avenida Hélio Prates, onde o militar atirou.

O crime será julgado nesta quinta-feira (23/10) pelo Tribunal do Júri de Ceilândia – 662 dias depois do ocorrido. O policial será julgado por homicídio qualificado, direito penal e crimes contra a vida. No dia do julgamento, há somente um ressalve ao tribunal por parte das pessoas que eram próximas de Cledson: justiça.

“Eu espero de verdade que a justiça seja feita, que o que ele [Bruno] fez com meu irmão ele possa pagar, porque foi uma situação de muita covardia”, desabafou a irmã da vítima, Tereza Cristina.


Relembre o caso

  • O policial Bruno Correia da Hora Fernandes estava acompanhado da esposa e de um casal de amigos quando decidiu lanchar em um estabelecimento da CNM 1;
  • No local, havia um motorista de um Gol, que aparentava estar alterado, segundo relataram testemunhas no boletim de ocorrência. Era Cledson;
  • De acordo com os depoimentos, Bruno teria ido conversar com ele e o orientado a ir embora. Após discutirem, Cledson teria deixado o local e, na sequência, o policial também foi embora;
  • No entanto, na saída, eles voltaram a se encontrar, ao pararem em um semáforo da Avenida Hélio Prates. À polícia o PM disse que Cledson teria socado o vidro do carro e o ameaçado de morte. Alegando temer pela vida, o militar atirou.

Ao Metrópoles Tereza citou, com voz trêmula de emoção, que Bruno “criou um buraco na vida da família”. “Esse policial criou um caminho de uma dor tão grande para nós, que não conhecíamos. Há dias em que eu ainda, depois de quase dois anos, vou ao encontro de meu pai e me vem à cabeça perguntar a ele se Keke tinha ligado, mas infelizmente ‘cai a ficha'”.

O mesmo sentimento é compartilhado por uma amiga de Cledson, Kamila Martins. Os dois eram amigos desde o ensino médio e, para ela, a morte de Keke é “um vazio que fica e não vai embora de jeito nenhum”. “Nada vai trazer ele de volta. Mas eu espero de fato que, agora com o júri, a justiça seja feita, e a gente possa descansar o nosso coração. Mas ainda sim é muito doído. A dor não some.”

Ela acrescenta que Cledson teve seus sonhos “interrompidos brutalmente”, como o de ver sua filha crescer — ele deixou uma garota de 12 anos, que permaneceu com a mãe após a morte de Keke. Segundo Tereza, ainda é muito difícil ver a filha dele crescendo sem ele por perto. “Na época, ele tinha prometido um celular de presente a ela, mas ele nunca pôde cumprir.”

 

“Nada traz ele de volta”: família de homem morto por PM exige justiça - destaque galeria
4 imagens
 Cledson morreu uma semana após completar 44 anos
Cledson morreu na véspera de Ano-Novo
Homem morreu após ser baleado com dois tiros
Cledson deixa uma filha de 12 anos
1 de 4

Cledson deixa uma filha de 12 anos

Reprodução/redes sociais
 Cledson morreu uma semana após completar 44 anos
2 de 4

Cledson morreu uma semana após completar 44 anos

Reprodução/redes sociais
Cledson morreu na véspera de Ano-Novo
3 de 4

Cledson morreu na véspera de Ano-Novo

Reprodução/redes sociais
Homem morreu após ser baleado com dois tiros
4 de 4

Homem morreu após ser baleado com dois tiros

Reprodução/Facebook

“Ele achava que meu irmão sobreviveria”

Foi o que Tereza disse sobre um dos depoimentos prestados pelo policial militar. “Ele alegou legítima defesa e, em um dos depoimentos, ele achava que meu irmão sobreviveria a um tiro na cabeça, ele falou isso!”

Na época, o caso foi encaminhado à 15ª Delegacia de Polícia (Ceilândia) e, posteriormente, ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDF). Apesar da judicialização do caso, o cabo não foi afastado na época.

O Metrópoles apurou que, atualmente, Bruno é 3° sargento do Quadro de Praças Policiais Militares Combatentes (QPPMC) e exerce serviços à corporação desde 2014, com remuneração básica de R$ 9.167,01, segundo o portal de transparência. Apenas no fim de agosto deste ano o policial teve processo de sindicância instaurado. A informação foi divulgada em boletim de comando-geral da PMDF.

O processo justifica a instauração em virtude da apuração sob “aspecto ético disciplinar”. A medida será mantida “até que se finalize o Conselho de Disciplina em discussão, ou que ocorra o trânsito em julgado da decisão administrativa na presente Sindicância”.

Em nota, a PMDF informou que “o policial militar se encontra em serviço administrativo, aguardando o julgamento”.

Alegria e generosidade

Apesar do luto, Kamila e Tereza buscam recordar os momentos bons de Cledson em vida e o jeito divertido e brincalhão dele – e a palavra “alegria” é a mais usada por elas para definir a personalidade de Keke. “Por onde passava deixava memórias felizes, fazendo todos sorrirem.” Além disso, Tereza destaca que ele “sempre ajudava os outros” e que, depois da sua morte, elas chegaram a conhecer pessoas e famílias que haviam recebido cestas básicas de Cledson. “Ele era muito feliz e só queria ajudar as pessoas.”

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comDistrito Federal

Você quer ficar por dentro das notícias do Distrito Federal e receber notificações em tempo real?