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“Vocês são um casal?”: servidor da PF armado com pistola ameaça dupla. Veja vídeo
Caso aconteceu na sexta-feira (13/2). Segundo a PMDF, autor é agente administrativo da PF e foi autuado em flagrante por injúria racial
atualizado
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Um momento de descontração após o expediente de trabalho transformou-se em um cenário de “humilhação” na noite de sexta-feira (13/2), em Samambaia (DF). O que deveria ser apenas a compra de um jantar para a família tornou-se um caso de homofobia envolvendo ameaça com arma de fogo de um agente administrativo da Polícia Federal (PF).
Na ocasião, dois colegas de trabalho decidiram ir a uma barraca de espeto em um posto de abastecimento da região. Lá, um optou por comer no local, enquanto o outro pediu que o alimento fosse embalado para viagem, a fim de realizar a refeição com a esposa em casa.
De acordo com um dos envolvidos, que preferiu não ser identificado, ambos aguardavam o pedido quando um homem, identificado como Diego de Abreu Souza Borges, abordou os dois e questionou: “Vocês são um casal?”.
“Ele estava bebendo e ficou insistindo na pergunta. Eu respondi que não éramos e, como imaginei se tratar apenas de uma conversa de um bêbado, disse que ele era meu filho, na intenção de cortar o assunto”, conta.
A resposta, no entanto, desencadeou uma nova pergunta. “Logo em seguida, ele veio perguntar: ‘Como é para você ter um filho gay?’”.
Nesse momento, o pedido para viagem do envolvido ficou pronto, e uma funcionária do restaurante foi à mesa para que o cliente realizasse ao pagamento.
Diego decidiu abordá-lo apontando uma arma em sua direção e ordenando que deitasse no chão, conforme mostra o vídeo da câmera de segurança do local (assista acima).
“Do nada, ele se levantou por trás de mim e apontou uma arma para mim. Ele começou a pedir que eu virasse de costas e ficasse com a mão na cabeça. Eu comecei a gritar para que alguém chamasse a polícia e ele dizia: ‘Pode chamar, pois eu sou a polícia!’. E o tempo todo ele ficava gritando, apontando a arma e falando palavrões”, ressalta.
A Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) foi acionada. Segundo a corporação, ao chegarem ao local, os policiais abordaram Diego, um agente administrativo da Polícia Federal (PF).
Com ele, foi encontrada na cintura uma pistola calibre 9 mm com 13 munições intactas. Embora Diego possuísse porte de arma ativo, a conduta no local motivou a intervenção policial.
Ainda de acordo com a PMDF, o agente alegou ter apenas sacado o armamento, sem apontá-lo diretamente.
“A polícia foi muita rápida. Eu poderia estar morto neste momento, morrer por nada, pois não houve briga nem discussão. Eu nunca antes tinha visto esse cidadão na minha frente”, desabafou.
As vítimas, então, decidiram representar criminalmente o caso, registrando a injúria e a ameaça. Todos foram conduzidos à 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia), e o autor, autuado em flagrante por injúria racial. A arma foi apreendida para as providências legais.
No domingo (15/2), um juiz mandou soltar Diego após audiência de custódia. Ele, porém, determinou a suspensão da posse de arma.
“Nunca pensei que eu passaria por uma situação dessas. Um crime de injúria racial e, ainda mais, cometido por um agente administrativo da Polícia Federal”, contou a vítima.
Por meio de nota, a defesa do servidor da PF informou que as imagens divulgadas publicamente registram apenas um recorte visual do ocorrido, carecendo de elementos contextuais que permitam a compreensão integral da situação.
De acordo com o advogado Raimundo Nonato Vieira Teixeira Júnior, o episódio ocorreu em ambiente público, sob circunstâncias de tensão e rápida evolução.
“Naquele momento, Diego interpretou estar diante de um risco iminente envolvendo um dos homens, agindo sob a convicção de que buscava evitar uma eventual agressão, ou seja, um possível aliciamento de adolescente. A atuação, ainda que posteriormente questionada, deu-se
dentro de um contexto de percepção de risco e intenção de proteção a esse homem — que, inclusive, aparentava ser menor de idade”, alegou o advogado.
Ainda, segundo o advogado, não houve qualquer motivação discriminatória, preconceituosa ou prática de crime de ódio. ‘Ressalta-se que as imagens editadas ou parciais não retratam a totalidade dos fatos. Interpretações baseadas exclusivamente nesse material conduzem a conclusões precipitadas e desconectadas da realidade”, ressaltou.
Entenda: O crime de homofobia é enquadrado como injúria racial (e racismo) por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que equiparou a discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero à Lei do Racismo (Lei 7.716/89).
Isso ocorre porque o STF entende que a homofobia nega a dignidade e a humanidade, configurando racismo social, tornando o crime inafiançável e imprescritível.
