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Na Mira

Rota do veneno: "Conexão Paraguai" abastecia laboratórios clandestinos

Esquema usava lotéricas, empresas de fachada e sites de apostas para lavar dinheiro de venenos produzidos sem assepsia em fundos de quintal

12/08/2026 08:04
Reprodução
casal na praia

A “Conexão Paraguai” revelou-se o pilar central da maior engrenagem de fabricação e distribuição ilegal de anabolizantes do país, operando a partir de um esquema estratégico de fronteira que abastecia laboratórios clandestinos espalhados por todo o território nacional. A megarede criminosa é alvo de operação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), desencadeada nesta quarta-feira (12/8).

No centro dessa rota internacional atua Elisangela Pereira Acosta, apontada como a principal fornecedora de medicamentos e insumos proibidos. Residindo em uma mansão de alto padrão em Foz do Iguaçu, no Paraná, Elisangela é sócia clandestina de Jorge Luiz Roa em uma das maiores lojas especializadas na venda dessas substâncias em Ciudad del Este.

Para burlar a fiscalização alfandegária, a dupla desenvolveu um método minucioso: os insumos e matérias-primas importados da Índia, China e Paraguai eram ocultados no interior de peças mecânicas de motocicletas.

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Após cruzarem a fronteira, as mercadorias eram reembaladas em Foz do Iguaçu e despachadas para todos os estados brasileiros por meio de plataformas de e-commerce, Correios e serviços de “freteiros” pagos para o transporte clandestino. O marido de Elisângela, Ricardo Mombach também é alvo de mandado de prisão.

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Laboratório underground

Jorge Luiz foi preso no Paraguai ao lado de Roberto Carlos, conhecido como “Jiraya”, o homem responsável pelo laboratório underground New Science, graças a um acordo de cooperação internacional entre a PCDF, a Polícia Federal (PF) e a polícia paraguaia.

Jiraya gerenciava suas operações a partir do país vizinho com um faturamento líquido estimado em R$ 500 mil mensais, ostentando viagens a hotéis de luxo no exterior enquanto financiava atletas e influenciadores digitais para dar falsa credibilidade aos produtos.

Para ocultar os milhões movimentados pelo tráfico internacional de esteroides e substâncias proibidas, os líderes do esquema dependiam de uma rede de doleiros estabelecida no Paraguai e em Foz do Iguaçu. Esses operadores financeiros indicavam contas de “laranjas” distribuídas pelo Brasil para que os compradores de “bombas” realizassem os pagamentos.

Em Foz do Iguaçu, os doleiros cooptavam empresários e autônomos para cederem suas estruturas financeiras e dissimularem a origem criminosa dos valores. Entre os intermediários identificados pela investigação está um casal dono de uma casa lotérica, o proprietário de uma loja de materiais de construção, um engenheiro agrônomo e dois trabalhadores autônomos.

Veja imagens de Elisângela e Ricardo, presos na operação da PCDF:

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O casal é um dos principais fornecedores de insumos e matérias-primas importadas para esquema de anabolizantes
O casal morava em Foz do Iguaçu/Paraguai
Eles utilizavam rede de doleiros e contas de laranjas para movimentar o capital.
Jorge Luiz Roa e Elisangela Pereira Acosta são alvo da operação
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Jorge Luiz Roa e Elisangela Pereira Acosta são alvo da operação

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O casal é um dos principais fornecedores de insumos e matérias-primas importadas para esquema de anabolizantes
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O casal é um dos principais fornecedores de insumos e matérias-primas importadas para esquema de anabolizantes

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O casal morava em Foz do Iguaçu/Paraguai
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O casal morava em Foz do Iguaçu/Paraguai

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Eles utilizavam rede de doleiros e contas de laranjas para movimentar o capital.
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Eles utilizavam rede de doleiros e contas de laranjas para movimentar o capital.

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Empresas de fachada

As contas dessas empresas de fachada, consultorias e estabelecimentos comerciais serviam como duto de passagem para o dinheiro sujo. Na deflagração da investida policial, a Justiça decretou a prisão preventiva dos sócios da loja paraguaia e de todos os laranjas envolvidos na lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Toda essa estrutura transfronteiriça servia de combustível para a Operação Narciso. Considerada a maior ação do ano contra o comércio ilegal de anabolizantes, a operação cumpriu 43 mandados de prisão preventiva e temporária e 64 mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça, além de determinar o bloqueio de R$ 32 milhões em ativos financeiros e a quebra de sigilo bancário de 58 alvos.

A teia criminosa estendia-se pelo Distrito Federal e por outros oito estados — Santa Catarina, Acre, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraíba e Minas Gerais —, resultando no lacre de mais de 20 estabelecimentos comerciais, na apreensão de 10 veículos de luxo das marcas Porsche, Audi e Mercedes, e na queda de mais de 30 sites de vendas ilícitas.

Império subterrâneo

As investigações que culminaram no desmonte do império subterrâneo tiveram origem em fevereiro do ano passado com a Operação Béquer. Na ocasião, o cumprimento de um mandado de busca no apartamento de Carlos Henrique Rodrigues de Abreu revelou um laboratório clandestino equipado com insumos, cápsulas, rótulos e dois telefones celulares.

A perícia nos aparelhos revelou que Carlos fabricava os produtos em sua própria residência em parceria com Fellipe Dias e Felipe Semani, criadores das marcas clandestinas AlphaLabs, Mega Burner e Libid Up.

O mapeamento do dispositivo expôs uma teia interligada de fornecedores, gráficas, entregadores e diversos laboratórios underground, como HydraPharmace, Skullredlab, Sypharma, Eurolabs, New Science, GC e Yellow B, todos atingidos pelas ordens judiciais de prisão e busca.

O modus operandi dos laboratórios era classificado pelos investigadores como um “cozimento mortal”. Sob o comando do delegado Rodrigo Carbone, a polícia apurou que as substâncias orais e injetáveis eram produzidas de forma totalmente artesanal em locais improvisados, como fundos de quintal e cozinhas residenciais, em fogo alto e sem qualquer controle sanitário ou assepsia.

Óleo de cozinha

Para baratear o custo e potencializar os lucros, os criminosos misturavam os insumos trazidos da Ásia e do Paraguai com óleo de cozinha comum e óleos de semente de uva e de arroz não estéreis. Substâncias perigosas eram ocultadas nos rótulos: os produtos Mega Burner e Yellow B continham clembuterol — medicamento de uso estritamente veterinário para equinos —, sibutramina, fluoxetina, bupropiona e o diurético hidroclorotiazida.

A contaminação do processo e a viscosidade inadequada dos óleos resultaram em infecções severas, abscessos, embolias, tromboses e quadros de sepse, que provocaram inclusive a morte de uma fisiculturista em Samambaia.

Além dos riscos extremos à saúde dos consumidores, os envolvidos operavam uma sofisticada engenharia de lavagem de capitais para dissimular os lucros do submundo anabolizante. Um dos alvos, André Luiz, utilizava casas de apostas virtuais (bets) para esquentar o capital, fracionando cerca de R$ 4 milhões em pequenas transferências via Pix que eram posteriormente sacadas sob o pretexto de prêmios.

Submundo criminoso

Em outra frente, estabelecimentos como a loja Performance Nutrição Esportiva, pertencente a Wesley Dias Magalhães, serviam simultaneamente como fachada, depósito e ponto físico de venda de produtos ilícitos.

A organização sustentava a maquiagem comercial por meio do apoio de profissionais cooptados — como nutricionistas, médicos veterinários, personal trainers, donos de gráficas que produziam rótulos sofisticados e funcionários dos Correios.

Conforme ressaltou o delegado Rodrigo Carbone, os investigados não atuavam no comércio comum de esteroides, mas sim na gestão de um submundo criminoso cujos operadores ostentavam viagens internacionais e condomínios fechados, e que devem responder rigorosamente como traficantes de drogas.