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Na Mira

MP pede investigação de suposta médium Maira Rocha por crime de estelionato

Promotora pede apuração de estelionato e apropriação indébita contra Maira Rocha. Investigação junta-se a inquérito já em andamento na PCDF

19/10/2026 05:10
Arte Metrópoles
MP pede investigação de suposta médium Maira Rocha por crime de estelionato

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) deu um novo e decisivo passo na apuração de denúncias de fraudes e estelionato atribuídas à médium Maira Alexandrina Leobino Freitas, conhecida publicamente como Maira Rocha. Promotores expediram um pedido oficial para que a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) instaure um novo inquérito policial focado em investigar supostos crimes de estelionato, falsidade ideológica e apropriação indébita.

No despacho expedido em 22 de agosto, o órgão ministerial fixou um prazo rigoroso de dez dias para que a PCDF informe formalmente as providências adotadas. O novo pedido reforça o cerco jurídico em torno da líder espiritual da Casa de Caridade Inácio Daniel, localizada em Águas Claras.

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A medida junta-se a outro procedimento já instaurado pela 11ª Delegacia de Polícia (Núcleo Bandeirante), onde agentes e delegados conduzem diligências para apurar denúncias semelhantes recebidas nos últimos meses. A apuração na 11ª DP encontra-se ativa, no aguardo do cumprimento de relatórios e requisições periciais.

Veja o pedido do MPDFT:

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documento do MP

Cartas sob suspeita

Membros do meio espiritualista e ex-frequentadores do centro espírita denunciam que as cartas psicografadas por Maira Rocha apresentam inconsistências conceituais e erros doutrinários. Segundo os relatos, as mensagens entregues às famílias enlutadas seriam montadas a partir de dados coletados diretamente em redes sociais como Facebook e Instagram.

A Casa de Caridade Inácio Daniel afirma em seu portal oficial que o serviço de psicografia é gratuito e que as mensagens dependem da autorização espiritual do falecido — adotando a máxima de que “o telefone só toca de lá para cá”. Contudo, as vítimas sustentam que o conteúdo entregue reflete buscas efetuadas na internet.

Um dos relatos que integram o conjunto de denúncias envolve Paulo*, de 52 anos. Em busca de conforto após a perda de sua mãe, Gabriela*, ele frequentou a casa e recebeu uma carta atribuída à genitora. Apesar da comoção inicial, a análise detalhada do texto revelou discrepâncias significativas entre o escrito e a realidade da família:

  • O ensinamento com a régua: A carta iniciava com a frase: “Meus amados filhos, lembro que quando pequenos eu ensinava a Salve Rainha com a régua na mão, era preciso viu”.
  • Um comentário idêntico já constava no perfil pessoal do Facebook de Gabriela: “Lembro como se fosse hoje, ela batendo a régua na perna e nos ensinando a Salve Rainha”.
  • Referência a neta inexistente: o texto mencionava o nome de uma neta chamada Fernanda*. Na realidade, Fernanda é filha de uma das noras de Gabriela, fruto de um casamento anterior, não possuindo vínculo de parentesco com a falecida. A suspeita é que a informação tenha sido extraída de publicações da nora no Facebook declarando amor à filha.
  • Apelidos de redes sociais: a carta fez uso do nome “Julie” ao referir-se à irmã de Gabriela, Juliana*. A família pontua que Juliana utilizava o apelido no perfil do Facebook, mas que a irmã falecida jamais a tratava por esse nome em vida.
  • Cópia de grupos temáticos e homenagens: Trechos inteiros da carta apresentavam redação idêntica a postagens feitas em uma comunidade de ciclistas no Facebook, além de repetir comentários públicos do próprio filho sobre sua formatura e sobre a semelhança física entre ele e a mãe.

Impactos emocionais

Além do depoimento de Paulo*, outros relatos reunidos na investigação reforçam o mesmo modo de atuação. O caso da empresária Márcia*, de 44 anos, traz contornos ainda mais chocantes sobre o impacto das falsas psicografias.  Após perder o filho jovem em um trágico acidente de trânsito, ela buscou alento na Casa de Caridade Inácio Daniel e recebeu um bilhete assinado com o apelido do rapaz.

Tomada pela emoção no momento da leitura pública, Márcia só percebeu a fraude semanas depois, ao reler a mensagem com calma acompanhada da família: o texto reproduzia na íntegra a legenda de uma foto que a própria mãe havia publicado no Instagram no dia do aniversário de um ano do falecimento, contendo inclusive uma metáfora poética autoral que o jovem jamais usara em vida.

Para piorar a situação, a carta trazia menções carinhosas a um suposto cachorro de estimação pelo qual o filho teria grande afeto no plano espiritual, mas a família nunca teve animais domésticos — o pet pertencia, na verdade, a uma vizinha marcadora de perfis em publicações antigas da jovem vítima.

Outro lado

Com o prazo estipulado pelo MPDFT, a Polícia Civil do Distrito Federal deverá formalizar as medidas tomadas quanto à abertura do novo inquérito policial e prosseguir com as oitivas de testemunhas e análise do material apreendido e apresentado pelas vítimas.

A coluna mantém o espaço aberto para a manifestação da defesa de Maira Alexandrina Leobino Freitas e da administração da Casa de Caridade Inácio Daniel.