Líder de facção tem mansão, carros de luxo e R$ 347 milhões bloqueados
Mansão, carros de luxo, monopólio da internet e bloqueio de R$ 347 milhões revelam estrutura financeira atribuída a líder de facção carioca

O bloqueio de R$ 347,6 milhões determinado pela Justiça, em 2024, expôs o que investigadores da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ) descrevem como um verdadeiro império milionário construído por Rafael Carlos da Silva Ferreira, conhecido como Parazão, alvo de operação da polícia carioca na última semana.
O criminoso é apontado como uma das principais lideranças do Terceiro Comando Puro (TCP) no Complexo de São Carlos, na região central do Rio de Janeiro. Mansão em bairro nobre de Belo Horizonte, veículos de luxo, empresas sob suspeita e até o controle do mercado de internet em comunidades aparecem entre os elementos reunidos pelas autoridades.
Alvo da operação deflagrada na última semana contra integrantes da facção, Parazão é apontado pelas investigações como muito mais do que um traficante. Segundo as apurações, ele recebeu de Anderson Rosa Mendonça, o Coelho, considerado um dos chefes históricos do TCP, o comando do Morro da Mineira, uma das comunidades que integram o Complexo de São Carlos. As investigações indicam que Coelho deu “carta branca” ao aliado para administrar a área, mantendo influência sobre os negócios da facção mesmo estando preso no Complexo Penitenciário de Gericinó.
Sala VIP
As investigações mostram que a estrutura criminosa extrapolava as fronteiras do Rio de Janeiro. Além de comandar a Mineira, Parazão também é apontado como líder da organização conhecida como Sala VIP, com atuação no aglomerado Cabana do Pai Tomás, em Belo Horizonte. Para os investigadores, o grupo operava como uma empresa, com divisão de funções, operadores financeiros, logística de transporte e controle territorial.
A ostentação também chamou a atenção das autoridades. Recursos provenientes das atividades ilícitas teriam sido utilizados para a aquisição de uma residência de alto padrão no bairro Paraíso, em Belo Horizonte, além da compra de diversos automóveis de luxo. Entre os veículos atingidos pelas medidas judiciais estão uma Mitsubishi ASX, uma Mitsubishi Outlander, uma Toyota Hilux SRX avaliada em cerca de R$ 185 mil, além de Volkswagen Nivus, Honda Civic, Toyota Corolla e outros carros registrados, em alguns casos, em nome de terceiros.
Outro ramo lucrativo atribuído ao grupo era a exploração do serviço de internet em áreas dominadas pela facção. Mensagens interceptadas revelam que Parazão recebia aproximadamente R$ 50 mil por mês com o chamado “negócio da internet”. Segundo os investigadores, empresas concorrentes enfrentavam dificuldades para atuar nas comunidades sem autorização da organização criminosa, que decidia quais provedores poderiam instalar seus serviços.
Lavagem de dinheiro
As apurações revelaram ainda uma complexa engrenagem de lavagem de dinheiro. Relatórios de inteligência financeira apontam movimentações milionárias incompatíveis com a renda declarada pelos investigados.
Um dos operadores financeiros teria movimentado R$ 4,8 milhões, enquanto outro aparece vinculado a transações superiores a R$ 12 milhões. Há ainda registros de mais de R$ 8,6 milhões circulando em contas de pessoas que declaravam rendimentos pouco acima de R$ 1 mil mensais.
Empresas dos setores de internet, transporte, importação e exportação também passaram a ser monitoradas. Uma delas movimentou mais de R$ 52 milhões em aproximadamente um ano, enquanto outra registrou cerca de R$ 22 milhões em operações consideradas incompatíveis com o faturamento declarado. Para os investigadores, os negócios serviriam para ocultar e pulverizar recursos da organização.
Transporte de drogas
As investigações também apontam que o grupo atuava no transporte de drogas entre Minas Gerais e Rio de Janeiro, abastecendo áreas controladas pelo TCP. Foram encontrados registros envolvendo cocaína, crack, maconha, drogas sintéticas, armas de fogo e imagens de fuzis, além de referências à Sala VIP e ao Terceiro Comando Puro.
Deslocamentos frequentes para regiões próximas à fronteira com o Paraguai também foram identificados. Diante do conjunto de provas, a Justiça determinou o bloqueio de contas bancárias, aplicações financeiras, empresas, imóveis e veículos ligados aos investigados, totalizando R$ 347,6 milhões.
Para as autoridades, os elementos reunidos indicam que Parazão estaria no centro de uma estrutura que unia tráfico de drogas, domínio territorial, exploração econômica das comunidades e uma sofisticada rede financeira capaz de movimentar centenas de milhões de reais.
As investigações prosseguem para identificar a extensão do patrimônio atribuído ao grupo e a participação de outros integrantes da organização criminosa.



