Legendários pagam R$ 2 mil para "resgate espiritual" em batalhão do CBMDF
Grupo usou centro de treinamento do Corpo de Bombeiros Militar do DF para realizar o evento, no fim de semana. Corporação não se manifestou

Os integrantes do grupo privado Legendários que usaram uma estrutura do Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF) como o próprio QG, nesse fim de semana, pagaram R$ 1.988 para pernoitar no local durante a experiência. Segundo o próprio esquadrão, eles buscavam “resgate espiritual” durante o evento.
Entre sexta-feira (25/9) e domingo (27/9), o Centro de Treinamento Operacional (CTO) da corporação, uma estrutura militar estratégica mantida exclusivamente com os impostos do contribuinte para capacitar bombeiros no combate a incêndios e no resgate de vidas, teve suas portas blindadas para abrigar um evento estritamente particular e religioso.
Para acomodar a estrutura, o grupo privado montou uma enorme tenda em um terreno ao lado do estacionamento interno da área militar, realizando a roçagem do mato e deixando o espaço devidamente preparado e nivelado. Cerca de 80 barracas foram erguidas no pátio resguardado pelos alambrados.
O local, que deveria servir rigorosamente à atividade-fim do Estado e à segurança de toda a população brasiliense, foi transformado em uma espécie de “QG exclusivo” do grupo privado Legendários para a realização do treinamento “FIRE Experience 004”, escancarando um privilégio financiado por recursos públicos.
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Ver todasSegundo a explicação do próprio grupo Legendários publicada nas redes sociais, o objetivo é capacitar os membros para atuarem como uma “Força Imediata de Resgate Espiritual”, levando conforto, consolo, cuidado espiritual e de capelania às vítimas e equipes de linha de frente que atuam em desastres naturais.
A reportagem da coluna Na Mira acompanhou de perto, durante dois dias consecutivos, a intensa movimentação dos organizadores e integrantes do grupo dentro do CTO do CBMDF. No local, a equipe presenciou preparativos ostensivos que alteraram completamente a rotina da unidade militar.
Lojinha legendária
Toda a experiência contou ainda com uma infraestrutura de suporte reforçada pela instalação de oito banheiros químicos para atender ao “batalhão religioso”, desfrutando do conforto e da segurança institucional fornecidos pelas instalações do CBMDF.
Além disso, até mesmo o estacionamento reservado aos militares que trabalham diariamente no complexo foi adaptado: ali, os legendários ergueram outra grande tenda para abrigar uma “lojinha” oficial, onde araras exibiam camisas, casacos, bonés e diversos outros itens estampados com a marca da organização, devidamente colocados à venda para os frequentadores.
Veja imagens dos legendários dentro do Centro de Treinamento do CBMDF:
Farra gratificada
Ao longo de todo o fim de semana, a pista de treinamento e as instalações operacionais da unidade militar estiveram completamente inacessíveis para o público geral e para a rotina normal do serviço de emergência. A restrição no local foi absoluta, visto que ninguém que não seja integrante cadastrado do grupo privado ou militar escalado para o apoio estava autorizado a ingressar na área militar.
Segundo uma fonte militar ouvida pela coluna, a gravidade da situação ganha contornos ainda mais alarmantes. Teriam sido oferecidas 18 cotas de Gratificação de Serviço Voluntário (GSV), para que bombeiros militares atuem na prevenção e na segurança interna do encontro privado durante os três dias de imersão.
Como a GSV é uma verba pública destinada por lei para remunerar militares que trabalham durante o período de folga em prol da segurança da coletividade, o seu emprego em um retiro particular significa, na prática, que o erário do Distrito Federal está custeando a segurança e a logística privada de um grupo seleto.
Veja mais imagens dos legendários dentro do CTO do CBMDF:
Blindagem rigorosa
De acordo com a fonte ouvida pela coluna, a situação envolvendo os Legendários deixou um grupo de bombeiros indignado. “A blindagem rigorosa em torno do evento privado expõe o desvio de finalidade de um bem público de alto custo, que passa a operar com portões fechados para atender aos interesses restritos de uma organização particular de cunho emocional e espiritual”, disse.
Nas redes sociais dos legendários, o “FIRE Experience 004” (Força Imediata de Resgate Espiritual) é uma imersão prática, emocional e espiritual voltada exclusivamente para o público masculino, organizada pelo movimento internacional Legendários.
Projetado como uma vertente avançada dos retiros e encontros da organização, o treinamento combina desafios de alta resistência física e pressão psicológica com princípios e reflexões de matriz cristã, buscando tirar os participantes de sua zona de conforto para restaurar a identidade, a disciplina e o papel de liderança do homem em seu meio familiar e social.
O que é o evento?
A organização é feita pelo “LGND SQUAD”, braço do movimento Legendários dedicado a ações sociais de alto impacto, ajudas humanitárias e apoio em desastres. O objetivo é capacitar os membros para atuarem como uma Força Imediata de Resgate Espiritual (FIRE), levando conforto, consolo, cuidado espiritual e de capelania às vítimas e equipes de linha de frente.
O evento tem o intuito de promover aos voluntários (servos) as características de servidão baseadas no modelo ensinado e testemunhado por Jesus Cristo. Durante os três dias de confinamento, a atividade simula cenários de crise, apoio humanitário, primeiros socorros e cenários de vulnerabilidade extrema, utilizando terminologias e dinâmicas que mimetizam treinos de resgate e operacionalidade militar.
A proposta central da vivência é desenvolver a inteligência emocional, o espírito de unidade, a obediência e a capacidade de reação sob estresse, capacitando os integrantes para atuarem como “líderes servidores” e agentes de suporte espiritual e comunitário em momentos críticos.
O outro lado
A coluna procurou o comando do CBMDF para falar sobre a cessão de uma área militar restrita aliada ao pagamento de gratificações com recursos do Estado em favor de uma entidade particular. No entanto, até a publicação da matéria, a corporação não havia respondido. O espaço permanece aberto para manifestações.






























