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Do pó ao Pix: esquema milionário de tráfico usava bets para lavar montanhas de dinheiro
Ao menos 15 empresas ligadas a “bets” foram mapeadas. Nenhuma das “máquinas de lavar dinheiro”” possuía autorização formal para operar
atualizado
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Uma megaoperação deflagrada nas primeiras horas desta quinta-feira (19/3) pela Coordenação de Repressão às Drogas (Cord) revelou um dos mais sofisticados esquemas de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro já identificados na capital do país.
Batizada de “Resina Oculta”, a ação da Polícia Civil do DF (PCDF) escancarou uma engrenagem criminosa milionária que utilizava empresas de fachada, “laranjas” e plataformas ilegais de apostas, as chamadas bets , para “limpar” montanhas de dinheiro amealhadas com a venda de haxixe, skunk e cocaína.
A ofensiva mobilizou agentes no DF, em Goiás, no Maranhão e Amazonas para o cumprimento de 41 mandados de busca e apreensão e nove de prisão. O golpe financeiro foi severo: o Judiciário determinou o bloqueio de contas de 50 pessoas jurídicas, com um limite de até R$ 15 milhões por empresa, além do sequestro de sete veículos de luxo.
A investigação, iniciada em 9 de outubro de 2025, teve como ponto de partida uma apreensão expressiva: 47,4 quilos de haxixe e 877 gramas de skunk encontrados em um apartamento desocupado no Riacho Fundo. O que parecia, à primeira vista, um caso isolado, rapidamente evoluiu para a descoberta de uma complexa rede interestadual de tráfico e ocultação de capitais.
Embora os investigadores não tenham revelado o nome das bets suspeitas, o Metrópoles apurou se tratar de empresas menores, clandestinas e sem expressão no mundo das apostas virtuais.
Entreposto do crime no DF
As diligências conduzidas pela polícia identificaram quatro indivíduos diretamente responsáveis pela recepção e distribuição das drogas na capital. No entanto, o aprofundamento das investigações revelou algo muito maior: um verdadeiro centro logístico do tráfico, que abastecia diversos revendedores em diferentes regiões do DF e Entorno.
O grupo operava como um entreposto de drogas, concentrando grandes quantidades de entorpecentes antes de redistribuí-los para traficantes de menor escala responsáveis pela venda direta ao consumidor final. Com o avanço das técnicas de inteligência, incluindo cruzamento de dados e análise financeira, os investigadores conseguiram mapear o fluxo de dinheiro da organização criminosa.
Os valores movimentados chamaram a atenção: remessas milionárias eram enviadas regularmente para a região Norte do país, especialmente para cidades estratégicas próximas a áreas de fronteira. Cidades como Manaus surgiram como pontos-chave da engrenagem financeira, funcionando como polos de redistribuição e ocultação dos valores ilícitos.
Laranjal fantasma
Um dos aspectos mais impressionantes do esquema foi a utilização massiva de empresas de fachada. Em São Luís, no Maranhão, mais de 20 empresas foram identificadas como peças fundamentais na lavagem de dinheiro.
Um empresário local, com 22 CNPJs registrados em seu nome, utilizava essas estruturas para movimentações financeiras vultosas. Em apenas 45 dias, uma única empresa movimentou aproximadamente R$ 30 milhões.
Grande parte dessas empresas, no entanto, existia apenas no papel. Durante diligências de campo, os policiais encontraram:
- Endereços residenciais comuns;
- Imóveis sem qualquer atividade comercial;
- Locais onde moradores sequer conheciam as empresas registradas;
- Esses elementos reforçam o uso dessas companhias como instrumentos para dar aparência legal a dinheiro ilícito.
O frentista milionário
Entre os casos mais emblemáticos, está o de um jovem de apenas 19 anos, morador da periferia de Goiânia. Formalmente, ele trabalhava como frentista em um posto de combustíveis. Na prática, porém, figurava como proprietário de 10 empresas utilizadas para movimentar grandes quantias em dinheiro vivo.
Apesar da baixa renda declarada, suas empresas estavam diretamente ligadas ao fluxo financeiro da organização criminosa, um claro exemplo da utilização de “laranjas” para ocultar os verdadeiros beneficiários do esquema.
Outro braço da organização chamou a atenção pelo uso das redes sociais como ferramenta de lavagem de dinheiro. Uma mulher moradora de Manaus (AM), que se apresentava como empresária e influenciadora digital, utilizava uma loja de sapatos e sandálias — com mais de 50 mil seguidores — para justificar movimentações financeiras suspeitas.
Nas redes, ostentava uma vida de luxo. Nos bastidores, segundo a investigação, desempenhava papel relevante no esquema, lavando dinheiro proveniente do tráfico de cocaína e haxixe.
Apostas ilegais: a nova fronteira da lavagem
Um dos mecanismos mais sofisticados identificados foi o uso de plataformas de apostas on-line ilegais. Ao menos 15 empresas ligadas a “bets” foram mapeadas. Nenhuma delas possuía autorização formal para operar.
Muitas utilizavam redes sociais para promover jogos populares, como o chamado “tigrinho”, atraindo milhares de usuários em todo o país. Essas plataformas funcionavam como verdadeiras máquinas de lavagem de dinheiro, permitindo:
- Circulação rápida de grandes quantias;
- Fragmentação de valores (pulverização);
- Dificuldade no rastreamento dos recursos;
- Ocultação da identidade dos beneficiários.
Além disso, parte dessas operações estava associada a fraudes virtuais, o que ampliava ainda mais o alcance criminoso.
Núcleos financeiros
A estrutura da organização era dividida em núcleos:
- São Luís (MA) – centro de passagem de recursos, com empresas responsáveis por movimentações milionárias.
- Manaus (AM) – operado por três mulheres com suposta ligação com o Comando Vermelho, o núcleo realizava a pulverização de valores, dificultando o rastreamento.
- Goiânia (GO) – base do jovem frentista, utilizado como “laranja” para movimentação de dinheiro.
Prisões, bloqueios e operações
Com base nas provas reunidas, a Polícia Civil deflagrou a Operação Resina Oculta com força total:
- 41 mandados de busca e apreensão.
- Nove mandados de prisão.
- Ações no DF, em Goiás, no Maranhão e Amazonas.
No campo financeiro:
- 50 empresas tiveram contas bloqueadas.
- 12 pessoas físicas também foram atingidas.
- Limite de bloqueio: até R$ 15 milhões por empresa.
- Sete veículos de luxo foram sequestrados.
- Ao todo, o impacto financeiro da operação pode ultrapassar centenas de milhões de reais.
Rede criminal
As investigações ainda apontaram que pelo menos 29 pessoas adicionais ligadas ao tráfico no DF e Entorno utilizavam o mesmo sistema financeiro para ocultação de valores. Mandados também foram expedidos contra esses indivíduos.
A Operação Resina Oculta expõe a crescente sofisticação das organizações criminosas no Brasil, que vêm combinando tráfico de drogas com estratégias avançadas de lavagem de dinheiro, incluindo tecnologia digital e exploração de brechas legais.
Ao atingir simultaneamente a logística do tráfico e o coração financeiro da organização, a ação da polícia representa um duro golpe contra um sistema que movimentava milhões e se espalhava por diversas regiões do país. As investigações continuam, e novas fases da operação não estão descartadas.
