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Distrito Federal

MPF: propina no BRB pagou festa de casamento e camarote no Rock in Rio

Segundo o Ministério Público Federal, ex-dirigentes do Banco de Brasília receberam vantagens ilícitas

29/01/2019 21:50, atualizado 30/01/2019 13:50
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Daniel Ferreira/Metrópoles
MPF: propina no BRB pagou festa de casamento e camarote no Rock in Rio

No rol de benefícios recebidos pelos diretores e ex-diretores do Banco de Brasília (BRB), segundo operação da Polícia Federal deflagrada nesta terça-feira (29/1), estão o pagamento de uma luxuosa festa de casamento em Brasília e de um camarote na disputada abertura do festival Rock in Rio.

Os gastos teriam sido arcados pelo empresário Ricardo Siqueira Rodrigues, apontado como o maior operador de fundos de pensão no país e um dos delatores do esquema criminoso envolvendo a cúpula do banco brasiliense.

A operação, batizada de Circus Maximus, investiga o suposto pagamento de mais de R$ 40 milhões em propinas a dirigentes do BRB para viabilizar negócios.

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As informações fazem parte do processo que resultou no pedido de 14 prisões preventivas e temporárias e mandados de busca e apreensão em 34 endereços no Distrito Federal, no Rio de Janeiro e em São Paulo

Entre os investigados, estão o ex-presidente do BRB Vasco Cunha Gonçalves, recém-nomeado para presidir o Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes), e os agora ex-diretores Financeiro e de Relações com Investidores, Nilban de Melo Júnior, e de Serviços e Produtos, Marco Aurélio Monteiro de Castro. Os três são alvo de mandados de prisão, expedidos pela 10ª Vara da Justiça Federal em Brasília e foram afastados do banco nesta terça (29).

Segundo os investigadores, o dinheiro ilícito bancou a festa de casamento da filha de Nilban, Ana Cláudia Melo, em dezembro de 2015. O relatório do Ministério Público Federal apresentado à 10ª Vara da Justiça Federal traz um trecho da delação de Ricardo Rodrigues, no qual o empresário diz ter pago R$ 50 mil à dona do buffet contratado para a cerimônia.

Nilban era, até o escândalo vir à tona, cotado para assumir um cargo de confiança na Secretaria de Fazenda, Planejamento, Orçamento e Gestão do GDF.

Rodrigues afirmou que o objetivo era “se aproximar” do pai da noiva, então diretor Financeiro e de Relação com Investidores do BRB. No mesmo episódio, o empresário afirma ter entregado R$ 60 mil em notas de R$ 100 para Nilban. O objetivo da propina seria destravar a liberação de uma linha de crédito de R$ 20 milhões do BRB para a empresa responsável pela construção do hotel LSH Lifestyle, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Felipe Menezes/ Metrópoles
Bolo do casamento da filha de Nilban Júnior

Segundo os promotores, no episódio, Nilban praticou crime previsto no artigo 317 do Código Penal: solicitar, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem ilícita ou aceitar promessas de tal vantagem. A pena prevista é de um a oito anos de reclusão e multa.

Já a conduta de Rodrigues poderia ser enquadrada no artigo 333: oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário público, para determiná-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício. A punição é de um a oito anos de detenção e multa.

Rock in Rio
O delator Ricardo Rodrigues afirmou ter convidado Vasco Gonçalves e Nilban Júnior para um camarote VIP do primeiro dia do disputado festival de música Rock in Rio em 2015. A principal atração da noite foi a banda Queen. As passagens para o evento também foram custeadas pelo empresário.

Segundo o relatório do MPF, o objetivo do empresário era conversar com os dirigentes do BRB sobre novos aportes ao empreendimento carioca. No dia seguinte aos shows, Nilban e Vasco teriam encontrado Rodrigues nas instalações inacabadas do hotel. Segundo o delator, na reunião, ele falou sobre a necessidade de R$ 50 milhões para a finalização da obra.

Divulgação
Hotel alvo de investigação, no Rio de Janeiro

O projeto levava o sobrenome do presidente dos Estados Unidos, Trump. Mas, devido a entraves contratuais e com a Polícia Federal no encalço de pessoas ligadas à LSH, o grupo norte-americano desfez a parceria. Em 2016, o Trump Hotel Rio passou a se chamar LSH Lifestyle.

Veja trechos da investigação do MPF:

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Entenda o caso
O LSH Barra Empreendimentos Imobiliários S.A., responsável pelo LSH Lifestyle Hotels, ex-Trump Hotel Rio, criou, em 2012, o Fundo de Investimento em Participações (FIP) LSH a fim de viabilizar o projeto.

A LSH foi ao mercado e lançou debêntures (títulos de dívida) junto a instituições financeiras para captar recursos destinados à construção do hotel na Barra da Tijuca, bairro nobre da capital fluminense.

A operação totalizou R$ 80 milhões em valores corrigidos, conforme noticiou a Coluna Radar, da Revista Veja, em julho do ano passado. Desse total, 42% são do BRB (R$ 33,6 milhões). A instituição financeira adquiriu, administrou e custodiou o fundo por quase quatro anos, entre 2013 e 2017.

Segundo balanço publicado em março de 2018, o banco teve outra participação no negócio. A BRB-DTVM Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., coligada do BRB, fez um aporte de R$ 18,5 milhões no fundo criado pela empresa LSH. Esse valor, contudo, foi a título de investimento e não é cobrado na ação judicial movida pelo Banco de Brasília.

Os problemas começaram a aparecer com o desenrolar, nos últimos anos, de investigações da Polícia Federal que apontavam irregularidades na gestão da empresa carioca. A situação complicou-se a ponto de o hotel que ostentava a marca de Donald Trump precisar mudar de nome.

O outro lado
Sobre a denúncia de que Ricardo Rodrigues teria pago o buffet do casamento da filha de Nilban, o advogado Rodrigo Alencastro afirmou que o serviço foi pago pelos próprios noivos. “Temos as notas fiscais. E o valor foi mais modesto. R$ 36 mil”, afirmou o defensor.

Alencastro negou que o ex-diretor do BRB tenha recebido R$ 60 mil em dinheiro, como afirmou o delator, e que a viagem de Nilban para o Rio de Janeiro durante o Rock in Rio foi custeada por Ricardo Rodrigues.

“O Nilban sempre esteve à disposição das autoridades e prestará todos os esclarecimentos”, afirmou o advogado, que também considerou como “drástica” a prisão de seu cliente.

O BRB afirmou, em nota, apoiar e cooperar “integralmente com todos os órgãos competentes que conduzem a operação”. Informou, também, que a ação corre em segredo de Justiça e todas as informações serão repassadas exclusivamente às autoridades policiais. “O BRB adotará todas as medidas judiciais cabíveis visando preservar o banco e suas empresas controladas”, completou.

Segundo o LSH Hotel, os fatos investigados referem-se a um período anterior à atual administração da companhia. Pontuou, ainda, que a empresa colabora com a PF e o MPF. “O LSH Hotel se mantém operando normalmente e sem impacto para os hóspedes”, concluiu.

As defesas dos demais citados não haviam sido localizadas até a última atualização desta reportagem