MP de SP investiga calote de meio milhão de reais em influencers do DF
O casal acusa a Hello Digital, que os agenciava, de apropriação indébita. Donos do CNPJ teriam retido R$ 551 mil indevidamente
atualizado
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Os influenciadores digitais brasilienses Gustavo Catunda e Robert Rosselló, criadores do perfil “2dePais”, no Instagram, protocolaram uma notícia-crime no Ministério Público de São Paulo (MPSP) contra a agência Hello Digital e seus sócios-administradores: Marcelo Chiba Proença e Rodrigo Holtz Chiba, que os agenciavam.
Na denúncia, o casal acusa os donos da empresa de apropriação indébita majorada ao deixarem de repassar, em apenas um ano, cerca de R$ 551 mil a eles.
De acordo com o documento encaminhado ao MP, os influenciadores mantinham contrato de exclusividade com a Hello Digital, responsável por intermediar campanhas publicitárias, emitir notas fiscais, receber os pagamentos das marcas e repassar aos criadores de conteúdo o valor devido, descontada a comissão da agência.
Esse acordo, no entanto, teria sido sistematicamente violado por Marcelo e Rodrigo. Conforme a denúncia, a relação contratual entre os envolvidos entrou em colapso em meados de 2025, quando a agência interrompeu “completamente” os repasses financeiros mesmo recebendo integralmente os valores pagos pelas marcas por campanhas já executadas.
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Inicialmente, segundo o documento, os atrasos teriam sido justificados com “desculpas evasivas”. Após muita insistência do casal, Marcelo Chiba admitiu, por meio de mensagens de texto, falhas na gestão administrativa e a falta de recursos financeiros para repassar ao casal.
Diante da gravidade da situação, Gustavo e Robert entraram em contato com as marcas anunciantes, que desmentiram os empresários e comprovaram que “vultosas quantias” foram feitas à conta da Hello Digital.
Conforme documentos anexados à denúncia, entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o CNPJ recebeu aproximadamente R$ 467 mil. Desse total, R$ 327 mil pertenciam contratualmente ao projeto 2dePais e teriam sido retidos indevidamente. Considerando campanhas pendentes e valores ainda não liquidados, o prejuízo total estimado pelo casal chega a R$ 551.810,00.
“Única fonte de renda”
De acordo com a defesa dos influenciadores, os valores apropriados pelos sócios da Hello têm “natureza alimentar”, por representarem a única fonte de renda da família envolvida. A retenção dos recursos teria comprometido o sustento doméstico, afetando diretamente crianças, além do pagamento de despesas essenciais, como moradia, saúde e educação.
Além da esfera criminal, os advogados de Gustavo e Robert ajuizaram ação na 38ª Vara Cível de São Paulo, requerendo a apreensão imediata de ativos financeiros e bens da agência e de seus sócios, incluindo veículos e imóveis.
No âmbito do Ministério Público, os influenciadores solicitam a instauração de procedimento criminal, a quebra do sigilo bancário dos investigados para rastrear o destino dos recursos e interrogatório dos sócios da Hello Digital.
O caso, agora, está sob análise das autoridades competentes, que deverão apurar a extensão das irregularidades e eventuais responsabilidades penais.
“A 2dePais espera que o Ministério Público atue com firmeza e celeridade, dando à sociedade — e especialmente ao mercado de comunicação digital — uma resposta clara: não há espaço para agentes que se valem da estrutura empresarial como instrumento de fraude e traição da confiança alheia”, diz o advogado do casal, Leonardo Conte.
Outras denúncias
Diversos influenciadores passaram a denunciar nas redes sociais a agência Hello Group por supostos golpes financeiros, desvio de valores, atrasos em pagamentos e contratos fechados sem autorização. Após a repercussão das acusações, os perfis da empresa foram desativados em diferentes plataformas.
A criadora de conteúdo Lari Teófilo também denunciou irregularidades envolvendo a Hello Group. Além de ocultação de valores e repasses abaixo do esperado, ela afirma que a agência falsificava assinaturas e firmava contratos sem seu conhecimento. As marcas acreditavam que os documentos haviam sido assinados por ela.
“É nesse outro e-mail que havia essa assinatura de contratos, enfim, contratos esses que eu não assinei, mas que as marcas juravam que eu que tinha assinado”, relatou. “Foram cinco anos que eu provavelmente recebi um terço ou um quarto do que eu realmente valia. Em vários momentos eu lembro de ficar sem entender porque que outros influenciadores ganhavam bem mais que eu.”
O influenciador Cesinha Fernandes anunciou o desligamento da agência e informou que ingressou na Justiça para reaver valores não repassados após um trabalho pago por uma marca. Embora classifique o montante como pequeno, ele afirma que o dinheiro lhe pertence. Ele também reforçou a denúncia de pressão psicológica e uso de laços pessoais para aplicar os golpes.
“Eles usaram de pressão psicológica com outros influenciadores, eles usaram de amizade, eles foram baixos para muita gente que está chegando na comunicação agora, que é um mundo completamente novo”, declarou.
Outros criadores também relataram experiências semelhantes. Zel Junior comentou ter confiado a carreira à agência. “Passei meses me odiando por ter acreditado e confiado minha carreira nas mãos deles”, escreveu. Filipe Maia afirmou que enfrentou uma disputa judicial contra a empresa para receber valores devidos.
Após as denúncias ganharem repercussão, os perfis da Hello Group no Instagram, Facebook e LinkedIn foram desativados, assim como o site oficial.
O outro lado
Por meio de nota encaminhada à reportagem em 21 de janeiro, a Hello Group disse que “tem conhecimento das alegações divulgadas e informa que todas estão sendo devidamente apuradas com responsabilidade, cautela e rigor técnico”.
“A Hello Group sempre pautou sua atuação empresarial pela legalidade, transparência e boa-fé nas relações contratuais e comerciais que estabelece. Ainda assim, por dever de diligência e compromisso com as melhores práticas, está sendo realizada uma análise interna detalhada acerca dos fatos noticiados”, consta no documento.
“Caso seja identificada qualquer irregularidade, a empresa adotará de forma imediata as medidas cabíveis para seu saneamento, observando a legislação aplicável e os princípios que regem sua atuação. Por fim, a Hello Digital reforça seu respeito às instituições, aos parceiros comerciais e ao público em geral, e reafirma que eventuais controvérsias devem ser tratadas pelos canais adequados, evitando-se conclusões precipitadas”, finalizou.
