Mortes em casa no DF aumentam 37% durante a pandemia de coronavírus

De acordo com o Serviço de Verificação de Óbitos, 39 pessoas já faleceram por coronavírus em residências na capital do país

atualizado 01/08/2020 15:20

Ambulância socorre vítima covid-19Igo Estrela/Metrópoles

Entre janeiro e junho de 2020, o Distrito Federal registrou um aumento de 37% nas mortes em domicílio em relação ao mesmo período do ano passado. Do total de 987 falecimentos em casa neste ano, 39 óbitos são de vítimas de Covid-19. Os dados são do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), da Secretaria de Saúde do DF.

No primeiro semestre de 2019, o SVO atendeu 720 óbitos em casa no DF. Isso significa que, entre janeiro e junho deste ano, o serviço verificou 267 mortes a mais.

Segundo Áurea Sakr Cherulli, diretora do SVO, durante a pandemia do novo coronavírus os casos de óbito em domicílio exigem novos protocolos a serem seguidos. “O corpo é removido para o Hospital Regional de Ceilândia (HRC), onde está funcionando temporariamente o SVO desde 2018. Lá, a família passa por uma entrevista e nos informa dos sintomas”, explica.

“Se existir suspeita de coronavírus, fazemos o teste. Sendo confirmado o diagnóstico, é feito esse sepultamento restrito”, completa ela.

De acordo com Tânia Batista da Silva, presidente da Associação das Funerárias do DF, “é mais comum morte em residência de idosos ou de pessoas que têm alguma doença preexistente”.

Conforme a presidente da entidade, as funerárias têm notado o aumento no número de mortes em casa e avaliam que um dos motivos pode ser o isolamento social provocado pela pandemia.

“As pessoas estão evitando muito procurar os hospitais pelo receio de contrair a Covid. Então, muitas vezes não têm ajuda médica e acabam morrendo em casa mesmo”, analisa.

Veja os números:

 

Morte por Covid-19 em casa

Maria Jaci Nunes da Silva, 89 anos, foi uma entre os moradores do DF que faleceram vítimas da Covid-19 em seu próprio lar. Quando começou a apresentar febre e dor no corpo, ela foi cuidada em casa pelos filhos, mas não tinha melhora em seu estado de saúde. No dia 10 de maio, a dona de casa veio a óbito, deixando grande dor na família que não encontrava respostas para a partida da idosa.

“Ela já estava muito fraquinha e deitada. Foi como se estivesse só dormindo mesmo”, relata a filha Aldenice Nunes da Silva, 51 anos.

Quando tentaram acordar Maria Jaci sem sucesso, os familiares logo acionaram o socorro. “O Samu veio, tentou reanimá-la, mas minha mãe já havia falecido”, conta.

Após o óbito, um teste de Covid-19 foi feito em Maria Jaci devido aos sintomas da doença que a idosa apresentara. “Já depois dela ter morrido, descobrimos que era coronavírus”, lamenta a filha.

A dona de casa é lembrada pela família como uma “mulher guerreira”. Teve cinco filhos e acompanhou o crescimento de 10 netos e quatro bisnetos.

Ela esteve casada por 57 anos. Há cinco, estava viúva. Morava em Planaltina e era frequentemente visitada pelos filhos, que não permitiam que a idosa ficasse sozinha.

“Deixou amor e exemplo de como ser uma pessoa do bem, e isso não tem preço. Com certeza Deus a recebeu de braços abertos”, conclui a filha.

O idoso David Cardoso Serrão, de 85 anos, também faleceu em casa. Ele era morador do município de Portel, no Pará, mas estava hospedado na residência do filho, no DF.

O aposentado estava há um mês na casa do filho Daniel Santos Serrão, 34 anos, na Estrutural, quando começou a sentir fraqueza e dores no corpo. “No dia 16 de abril, levamos meu pai para o Hospital do Guará. Ele fez alguns exames e retornamos para casa”, narra Daniel.

Entretanto, os dias se passaram e David continuou se sentindo mal. No dia 22, o idoso sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e não resistiu.

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Sem ainda saber ao certo a causa da partida do pai, Daniel foi fazer o reconhecimento do corpo quando descobriu que os médicos suspeitavam que o aposentado estava com Covid-19. “No dia seguinte, saiu o resultado do exame que fizeram nele. Deu positivo.”

David teve a interrompida por conta do novo coronavírus sem ser portador de comorbidade. “Apesar da idade, meu pai era muito comunicativo, bem brincalhão. Um cara trabalhador, exemplar”, descreve o filho.

O idoso foi casado por mais de 40 anos. Deixa quatro filhos e tantos netos e bisnetos que Daniel já nem consegue contar.

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