Mesmo com posto 24h da PM, tráfico em quadra do SCS dobrou em 2021
Na Quadra 5 do SCS, um prédio ao lado de posto policial tem sido ocupado por usuários de drogas. Criminalidade afasta lojistas da região
atualizado
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Os registros de ocorrência de tráfico de drogas na Quadra 5 do Setor Comercial Sul (SCS) dobraram em 2021. Segundo levantamento da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), foram 15 ocorrências de tráfico naquela quadra em 2020. No ano passado, 29 registros foram feitos. Em 2022, até o momento, a polícia já confeccionou três boletins de ocorrência referente ao crime.
A Quadra 5 do SCS conta com um posto 24 horas da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). Mesmo assim, quem passa pela região diz que a presença de agentes da segurança pública não impede o crescimento da criminalidade.
No local, um prédio com aspecto abandonado chama atenção por estar tomado por usuários de drogas. O Metrópoles mostrou que o espaço ocupado, no bloco C, tornou-se ponto de tráfico.
Conforme a PCDF, no topo do ranking dos crimes registrados na Quadra 5 do SCS estão os furtos diversos. Foram 26 em 2020, 29 em 2021 e nove em 2022. Em segundo lugar está o tráfico de drogas, somando 47 ocorrências de 2020. E, em terceiro, roubo a transeunte, com 13 casos em 2020 e 14 no ano passado.
Veja a tabela:

Crime afasta lojistas
Segundo o Sindicato do Comércio Varejista do Distrito Federal (Sindivarejista), com a alta da criminalidade, cada vez mais lojas têm fechado as portas no SCS. O sindicato afirma que o esvaziamento do Setor Comercial decorre da insegurança.
A entidade calculou que o Setor Comercial Sul tem hoje 148 lojas fechadas e 691 salas comerciais sem utilização. Em agosto de 2021, eram 101 lojas e 680 salas inoperantes.
A Quadra 5 é a que tem mais pontos sem funcionar, somando 34 lojas fechadas. Em seguida está a Quadra 2 do SCS, com 30 lojas sem operar há pelo menos seis meses. A Quadra 1 tem 27 lojas fechadas, e a 3, 17 imóveis sem funcionar. A Quadra 6, a mais perto da W3 Sul, contabiliza 19 lojas inoperantes. E a Quadra 4 tem 12 lojas sem operação.
“No início de Brasília e até meados de 1985, o Setor Comercial Sul era o pulmão da iniciativa privada. Havia empresas de grande porte e não havia mais projeções a serem ocupadas para a construção de edifícios”, diz o presidente do Sindivarejista, Sebastião Abritta.
“A crise que atravessa o SCS precisa passar por uma ampla discussão, envolvendo o governo do DF e entidades do setor produtivo. É uma questão socioeconômica que deve ser tratada com o máximo de seriedade e objetividade”, completa.
Prédio do tráfico
Com aspecto abandonado, um prédio no bloco C da Quadra 5 tem sido ocupado por usuários de drogas e tornou-se ponto de tráfico. Alguns trabalhadores relataram aumento da violência durante a pandemia de Covid-19.
“Antes da pandemia, eles eram poucos, pois aqui era um lugar mais movimentado. Mas, nos últimos dois anos, muitas lojas fecharam e aumentou o perigo”, diz um funcionário de um empreendimento na região. Ele relata que trabalha há oito anos no SCS e que, desde então, nunca tinha visto o ambiente tão inseguro.
“Eles brigam entre si, direto aparece um esfaqueado. A partir das 17h, fica intransitável [a área próxima ao bloco C]”, afirma. “Tráfico rola o dia inteiro, prostituição também é alta depois das 19h”, completa.
Veja imagens:
Imóvel vai a leilão
O bloco C é dividido em diferentes partes. O canto do prédio próximo ao posto da PM, que está ocupado por pessoas em situação de rua, já não tem mais comércios funcionando. Do outro lado, uma loja da Cacau Show e uma lotérica são os únicos empreendimentos que seguem abertos.
A área do bloco invadida é a de um imóvel que pertence ao Governo da Paraíba. Isso porque, segundo o Executivo daquele estado, o edifício foi adquirido por meio de desapropriação amigável, em 1998, para instalação do Banco Paraiban. Com a privatização da instituição financeira, ocorrida em 8 de novembro de 2001, em que o adquirente em leilão foi o Banco ABN AMRO, o imóvel passou a integrar o Acervo Público Estadual da Paraíba, e permanece desocupado até hoje.
Procurado, o governo da Paraíba informou que, desde então, foram realizados três leilões com a finalidade de alienação do imóvel, em 18 de setembro de 2017, 19 de dezembro de 2018 e 20 de outubro de 2021. No entanto, todos restaram desertos, isto é, não apareceram interessados.
Ainda segundo o governo do estado, “a prefeita do Setor Comercial Sul, Lígea Meireles, relatou (via WhatsApp) à Secretaria de Administração em 23/02/2021 que fora feito um acordo de cooperação com a ONG que ampara os moradores de rua da área, e segundo ela, a ONG perdeu totalmente o controle quanto à ocupação do espaço urbano da região, culminando assim com as invasões, depredações e depreciações, a exemplo de incêndios”. “A prefeita Lígea Meirelles informou também que há expediente do Ministério Público recomendando a não interferência militar junto aos moradores de rua.”
Em uma das paredes do prédio, um anúncio diz que o imóvel irá a leilão. O Metrópoles telefonou para os números que aparecem no anúncio e falou com um homem que se identificou como Cléber Melo, leiloeiro da empresa Leilões PB.
Segundo ele – que não informou os valores dos leilões anteriores –, o preço agora será reavaliado, “porque essa região está muito complicada, cheia de usuários, e desvalorizou toda a área”. “Não apareceu ninguém quando fizemos o leilão e o Governo da Paraíba não está mais interessado neste prédio”, pontuou.
O que diz a PMDF
Em nota, a Polícia Militar do DF disse que “intensifica o combate ao tráfico de drogas, o que é demonstrado no grande número de prisões de traficantes e apreensão de drogas”.
“Os usuários de drogas, em grande parte reincidentes, são encaminhados à delegacia e são postos em liberdade em audiência de custódia. O problema persiste e foge da competência da segurança pública, tornando-se mais um problema social”, diz a corporação.
O que diz o GDF
O Metrópoles procurou o GDF, para um pronunciamento sobre o assunto. Em nota, a Secretaria de Desenvolvimento social disse que “em 2020, foi realizada uma ação integrada do Governo do Distrito Federal”. “Desde então, o GDF faz ações sistemáticas na região. Também em 2020, a Sedes foi parceira da Associação Comercial para a implementação dos banheiros públicos.”
“Em dezembro de 2021 e março de 2022, a pasta realizou no Centro POP Brasília, que fica na 902 Sul, um mutirão jurídico para a população em situação de rua da área central. A Sedes fez outra ação recente, que são pessoas em situação de rua da área central, ali do Setor Comercial Sul”, informou.
Já a Secretaria de Cultura e Economia Criativa diz que atuou diretamente e indiretamente para promover ações culturais no local. “Em 2019, o 2° Encontro do Grafite ocorreu na Galeria Nova Ouvidor, mais conhecida como Beco do Rato, onde houve intervenção por 2 dias, com remuneração aos artistas urbanos. Nesse âmbito, estabelecemos parceria com o grupo No Setor, que realizou atendimento a pessoas em situação de rua. Este mesmo grupo, que tem atuação marcante no SCS, já recebeu recursos da Secec em outras ocasiões, mediante editais de chamamento público, por exemplo.”
A Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF) acrescentou que, “com base em estudos de manchas criminais e relatórios de inteligência, as forças de segurança vem atuando com objetivo de reduzir a criminalidade na região”. “A SSP/DF ressalta que atuam no local a Polícia Militar do DF (PMDF), com policiamento ostensivo, e a Polícia Civil do DF (PCDF), com a investigação de crimes.”
Ainda segundo o GDF, existe projeto elaborado pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do DF (Seduh) para todas as quadras do setor. “As obras estão em fase de licitação pela secretaria de obras.”
“É importante ressaltar que essa requalificação já começou com a recuperação da Praça do Povo, projeto da Seduh realizado pela Secretaria de Obras, que trouxe um espaço moderno para convivência e prática de esportes no Setor Comercial Sul”, finalizou.
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