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O governador Rodrigo Rollemberg (PSB) inaugurou nesta segunda-feira (2/10), no Lago Paranoá, a primeira obra de captação de água pronta para entrar em operação nos últimos 17 anos. Serão captados 700 litros por segundo no braço do Torto. A estrutura fica na ML 4, no Setor de Mansões do Lago Norte. Apesar de reforçar o abastecimento do Distrito Federal na pior crise hídrica da história, o projeto é polêmico. Moradores e especialistas questionam os riscos ao meio ambiente.

Trata-se de uma estação compacta de tratamento de água, com membranas de ultrafiltração, uma das mais modernas tecnologias. Os locais abastecidos serão Asa Norte, Itapoã, Lago Norte, Paranoá, parte de Sobradinho II e Taquari. O fornecimento para essas regiões atualmente é feito pelo Sistema Produtor Santa Maria-Torto.

O sistema funcionará até quando for necessário. A captação representa algo próximo de 20% do que está sendo retirado diariamente do Descoberto, responsável por 60% do abastecimento do DF. “A retirada não vai impactar em nada o nível e a qualidade das águas do Lago Paranoá. Ele tem potencial para fornecer um volume muito maior do que 700 litros por segundo”, garantiu o governador.

Ao chegar, o chefe do Executivo local foi recebido por um grupo de manifestantes, formado por  ambientalistas e moradores do Lago Norte, que são contra a estação. Eles defendem as nascentes e córregos na Serrinha do Paranoá e são contra o Taquari 2. Para a presidente do Conselho de Segurança do Lago Norte, Beth Moreno, é uma solução que vai causar problemas maiores para as futuras gerações. “O governo vai tirar água do Lago Paranoá, com o risco de secar o Córrego do Urubu. Defendemos a proteção das nascentes e, portanto, somos contra essa estação”, defendeu.

 

Segundo o presidente da ONG Amigos do Lago Paranoá, Guilherme Scartezini, dois pontos trazem preocupação. “O primeiro, é a qualidade da água. Como o fornecimento será destinado a residências, a fiscalização é uma questão de saúde pública. E o outro, se dá pelo risco ambiental ao próprio lago. Há um certo receio de redução de volume do reservatório”, relata.

O presidente da Associação Amigos do Lago Paranoá (Alapa), Marconi Sousa, também teme a ação no reservatório. “É preciso cuidar da orla desde já para que a qualidade da água seja mantida. Mas o que vemos hoje é uma ocupação desordenada das margens, o que pode levar à poluição da fonte”, acredita.

Sérgio Koide, professor de engenharia civil da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em recursos hídricos, também faz ponderações quanto à obra. De acordo com ele, as ligações clandestinas de esgoto colocam em risco a qualidade da água.

Trata-se de uma região rodeada por residências e clubes, o que pode gerar problemas com a entrada de elementos químicos."
Sérgio koide, especialista em recursos hídricos

Adasa rebate
O presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa), Paulo Salles, garantiu que a captação da estação de tratamento de água Lago Norte não causará qualquer impacto ambiental.

“Os moradores têm uma demanda que é uma proteção maior para essa região, onde existem nascentes e córregos, e o governo tem feito atividades para preservá-los. Isso é essencial para que a gente pare de perder as nossas fontes e mananciais. Não vamos impermeabilizar todas as áreas e não é o nosso intuito matar as nascentes e córregos. O nosso dever é poupar e preservar a recuperação das nascentes para garantir o ciclo da água”, disse.

Inicialmente, serão três meses de operação assistida, ou seja, a Enfil S.A Controle Ambiental, responsável pela estação, vai atuar em conjunto com a Caesb. Depois desse prazo, a estatal do DF assume a operação.

O investimento ficou em R$ 42 milhões, 15% abaixo do inicialmente estimado — R$ 49.437.958. O Ministério da Integração Nacional liberou R$ 55 milhões para as obras — a diferença volta para a pasta federal.

A água captada vai para dois reservatórios: um no Lago Norte e um no Paranoá. A Caesb tem também um projeto, já licitado, para captar, armazenar, tratar e distribuir água do Lago Paranoá de forma definitiva. As obras estão orçadas em R$ 480 milhões — o governo do DF negocia financiamento com a Caixa Econômica Federal.

Bananal
Com entrega também prevista para este mês, as obras do Subsistema Produtor do Bananal estão 67% executadas. A elevatória 1 e a captação estão prontas, e a elevatória 2, em processo de finalização. Todos os equipamentos e materiais já foram comprados e se encontram no canteiro da obra.

O Bananal significa um reforço de 726 litros por segundo para o Sistema Produtor Santa Maria-Torto. O investimento é de R$ 20 milhões, do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste, do Banco do Brasil. Cerca de 170 mil pessoas serão beneficiadas com as intervenções, que incluem captação no Ribeirão Bananal e bombeamento para a Estação de Tratamento de Água de Brasília.

Corumbá 4
A maior de todas as obras de captação para o DF é fruto de consórcio entre a Caesb e a Saneamento de Goiás S.A. (Saneago). No estado vizinho, o trabalho ficou um tempo suspenso por suspeita de superfaturamento, mas foi retomado em setembro.

A parte goiana consiste em construir a estrutura de captação, a estação de bombeamento (que estão 60% executadas) e 12,7 quilômetros de adutora — 97% concluída. O que cabe ao DF são os outros 15,3 quilômetros de adutora, iniciados em agosto, e a construção da Estação de Tratamento de Água, em Valparaíso (GO), quase pronta. O trabalho está 68% executado.

O orçamento é de R$ 540 milhões, metade para cada unidade da Federação. A quantidade de água captada também é dividida meio a meio entre DF e Goiás: 1,4 mil litros por segundo para cada um na primeira entrega, prevista para dezembro de 2018, e 2,8 mil posteriormente.

As medidas tentam tirar o Distrito Federal da crise hídrica iniciada no final do ano passado. Desde então, o brasiliense passa por uma agenda semanal de racionamento. Chegou a pagar tarifa extra (de contingência), suspensa este ano pela Adasa após questionamentos judiciais.

Os dois principais reservatórios que abastecem a capital da República (Descoberto e Santa Maria) estão com os níveis mais baixos da história (17,8% e 29,7%, respectivamente). Para o mês de outubro, a meta estipulada pela Adasa é manter os reservatórios acima de 9% e 23%, respectivamente. Caso isso não ocorra, a previsão é que o racionamento seja ampliado para duas vezes na semana.