Maior chacina do DF: réu absolvido deixa prisão 2 dias após julgamento
Após seis dias de júri, os jurados entenderam que Carlos não participou de nenhum homicídio, mas atribuíram a ele a autoria do sequestro
atualizado
Compartilhar notícia

Carlos Henrique Alves da Silva, absolvido pelo Tribunal do Júri do caso que ficou conhecido como a maior chacina do Distrito Federal, deixou a prisão nesta segunda-feira (20/4).
Após seis dias de julgamento, os jurados entenderam que Carlos não participou de nenhum homicídio, mas atribuíram a ele a autoria do sequestro de Thiago, que resultou na entrega do rapaz aos executores. Carlos Henrique recebeu alvará de soltura nesse domingo (19/4).
Para a defesa do réu, a decisão dos jurados foi justa e “proporcional”. “Foi um trabalho árduo e seis dias cansativos. Nesses dias [de julgamento], conseguimos mostrar e comprovar o envolvimento dele. E o júri foi participativo e justo. Perguntaram, tiveram interesse e foi memorável. Nem as pessoas acreditavam que a justiça seria feita dessa forma, mas Carlos Henrique teve justiça para ele”, disse o advogado Antônio Sardinha.
Conforme Vanessa Ramos, outra advogada do réu, a denúncia contra Carlos Henrique era de homicídio qualificado, e a “defesa demonstrou que ele não participou de nenhum homicídio”: “Para estar em um Tribunal do Júri, [o crime] precisa ter o dolo, vontade. [Carlos] nem lá estava quando a vítima Thiago faleceu. Por esse motivo ele foi absolvido do homicídio e condenado a dois anos pelo sequestro”.
Conforme explicou a defesa de Carlos, devido ao fato de o acusado já ter cumprido mais de dois anos de prisão preventiva, a lei determina que ele seja colocado em liberdade.
Participação
Carlos Henrique foi o último réu a ser preso ao longo das investigações da chacina, ocorrida em janeiro de 2023. Durante depoimento prestado em juízo, na quinta-feira (16/4), o homem contou que foi contratado pelos outros envolvidos para sequestrar Thiago, roubar o celular dele e “pegar dinheiro em aplicativos de banco”. O acusado disse que tinha acertado de receber R$ 5 mil pela participação no crime.
Conforme a declaração, no dia do assalto, Carlos foi buscado por Carloman dos Santos Nogueira e levado à chácara onde viviam as vítimas.
“Ficamos escondidos em um carro velho que tinha lá até o Thiago chegar. Quando ele chegou, o amarramos e vendamos. Nesse momento, Horácio, que também estava no chão fingindo ser vítima, se levantou. Depois fiz um sinal de que o trabalho foi encerrado para o Gideon, que observava de longe e fui embora”, relatou.
Carlos disse, ainda que, após o assalto, Horácio Barbosa o deixou em casa e entregou R$ 2 mil em dinheiro a ele. “Depois disso nunca mais tive contato com ninguém. Mandei mensagem para Carlomam cobrando os outros R$ 3 mil, mas ele não me respondeu mais”, afirmou.
O réu declarou, ainda, que só ficou sabendo que Thiago estava entre as vítimas da chacina quando foi preso pelo envolvimento no crime.
“Foi o fim de tudo para mim. Perdi esposa, minha mãe está doente com diabetes e eu não posso ajudar. Perdi tudo. E tudo isso por R$ 5 mil”, desabafou, logo após alegar que nunca matou ninguém.
Penas somadas chegam a 1.258 anos
O Tribunal do Júri do caso foi encerrado na noite desse sábado (18/4). Além de Carlos, foram condenados por envolvimento no crime os réus: Gideon Menezes, Horácio Barbosa, Carlomam dos Santos e Fabrício Canhedo.
As penas somadas chegam a 1.258 anos, 2 meses e 8 dias de prisão. A maior pena foi a de Gideon Batista Menezes, que foi condenado a 397 anos de prisão.
A sentença condenatória dos réus foi proferida mais de três anos após a execução do crime bárbaro ocorrido entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023. Os cinco homens responderam pelo envolvimento no extermínio de 10 integrantes de uma mesma família.
Retrospectiva do Júri
O julgamento teve início na segunda-feira (13/4), por volta das 10h, e se estendeu até as 20h. Foram ouvidos depoimentos de seis testemunhas naquele dia.
Segundo dia : na terça-feira(14/4), 12 testemunhas, entre familiares e policiais que atuaram no caso, foram ouvidas no local até as 21h.
Terceiro e quarto dia: os réus prestaram depoimentos, na quarta (15/4) e quinta-feira (16/4), detalhando como foi a participação de cada um no crime.
Quinto dia: defesa e Ministério Público tiveram espaço para debater teses e acusações. Cada um teve 3h20 para discursar.
Sexto dia: após 11h de votação de 500 quesitos, jurados definiram a participação de cada um dos réus na empreitada criminosa. Em seguida, a sentença foi redigida e lida em Plenário.
Entenda o caso
- Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, os acusados se associaram para tomar a chácara Quilombo, no Itapoã (DF), e também para obter dinheiro da família de Marcos Antônio Lopes de Oliveira. O plano inicial previa matar Marcos e sequestrar seus familiares.
- Em 27 de dezembro de 2022, parte do grupo foi à casa da vítima, rendeu Marcos, a esposa e a filha, e roubou cerca de R$ 49,5 mil. As três vítimas foram levadas para um cativeiro no Vale do Sol, em Planaltina (DF), onde Marcos foi morto e enterrado.
- No dia seguinte, as mulheres foram ameaçadas e obrigadas a fornecer senhas de celulares e contas bancárias. Com os aparelhos, os criminosos passaram a se passar pelas vítimas para atrair outros familiares.
- Entre 2 e 4 de janeiro, a ex-esposa de Marcos, Cláudia da Rocha, e a filha Ana Beatriz foram atraídas, rendidas e levadas ao mesmo cativeiro.
- O grupo decidiu matar Thiago, filho de Marcos, e o atraiu ao local em 12 de janeiro. Ele também foi rendido e mantido em cárcere. Com acesso ao celular de Thiago, os criminosos atraíram a esposa dele, Elizamar, junto com os três filhos do casal.
- Eles foram levados a Cristalina (GO), onde foram mortos. Os corpos foram queimados dentro do carro da vítima. Em seguida, os acusados decidiram matar as demais vítimas para evitar que os crimes fossem descobertos.
- Renata e Gabriela foram levadas a Unaí (MG), onde foram mortas e tiveram os corpos queimados. Depois, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram assassinados e tiveram os corpos escondidos em uma cisterna.
- Após os crimes, parte do grupo incendiou objetos das vítimas para dificultar as investigações.
Disputa por terreno de R$ 2 milhões
Um terreno no Itapoã (DF), avaliado em R$ 2 milhões, teria motivado os assassinos a arquitetarem a morte de 10 pessoas. O local tem cachoeira privativa, ampla área de pastagem de gado e cerca de cinco hectares – equivalentes a 50 mil metros quadrados.
O plano seria assassinar toda a família e tomar posse do imóvel, sem deixar nenhum herdeiro vivo. O terreno, no entanto, sequer pertencia à vítima, o patriarca da família, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, o primeiro a ser brutalmente morto. A chácara era alvo de disputa judicial desde 2020, na qual os verdadeiros donos tentam recuperar a área.
Veja imagens do local antes da invasão
Veja imagens do local após a invasão
Os integrantes da família foram atraídos para emboscadas e assassinados um a um. São eles:
- Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca.
- Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos.
- Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal.
- Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal.
- Elizamar da Silva – esposa de Thiago.
- Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar.
- Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de Marcos.
- Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia.
Execução do crime
A primeira ação ocorreu em 27 de dezembro de 2022, quando Marcos, a esposa dele, Renata, e a filha Gabriela foram rendidos dentro de casa. O grupo roubou R$ 49,5 mil das vítimas e levou os três para um cativeiro em Planaltina. Marcos foi morto logo depois, enquanto as duas permaneceram vivas.
A partir daí, os criminosos passaram a usar os celulares das vítimas para se passar por elas e atrair outros integrantes da família. Nos dias seguintes, Cláudia e Ana Beatriz foram enganadas, sequestradas e levadas ao mesmo cativeiro.
Depois, o grupo atraiu Thiago, filho de Marcos, que também foi rendido. Com acesso ao celular dele, os criminosos chegaram até a esposa de Thiago, Elizamar, que foi atraída junto com os três filhos pequenos do casal.








































