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A Máfia das Funerárias que atuava no Distrito Federal tinha divisão de tarefas organizada, papéis delimitados e estreito relacionamento com dois funcionários lotados no Hospital Regional de Taguatinga (HRT). De acordo com denúncia apurada pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), a qual o Metrópoles teve acesso, duas organizações criminosas trabalhavam para beneficiar quatro funerárias.

Reandreson Miranda Santos — dono das empresas Filadélfia e Brasília Serviços Funerários — é apontado como líder de um grupo formado por cinco pessoas. Com modus operandi similar e em uma frente rival, Cláudio Barbosa Maciel trabalhava com sete parceiros a fim de abastecer as Funerárias Universal e Pioneira.

As duas quadrilhas foram desarticuladas em 26 de outubro, durante a Operação Caronte da Polícia Civil e do MPDFT. Com acesso privilegiado a informações e passando-se por policiais e servidores do Instituto Médico Legal (IML), os integrantes da máfia aproveitavam o momento de fraqueza dos familiares de pessoas mortas para os convencerem a contratar o serviço das funerárias. Os suspeitos cobravam até R$ 6 mil pelos serviços e teriam feito centenas de vítimas.

O esquema arquitetato por Cláudio Barbosa Maciel, segundo o MPDFT, tinha três linhas de atuação: a primeira consistia em captar clandestinamente as comunicações da Polícia Civil. Com o uso de radiorreceptor, eles conseguiam informações como o nome completo das vítimas, o local onde os corpos estavam e o telefone de parentes.

Em uma segunda frente, assediavam familiares na saída do HRT, após informações repassadas por trabalhadores do local. Na terça-feira (14/11), o Metrópoles mostrou que o vigilante e o ascensorista da unidade, Jocileudo Dias Leite e Samuel Aguiar, respectivamente, recebiam de R$ 180 a R$ 300 por cada indicação de cadáver de morte natural que se convertia na contratação das funerárias ligadas à quadrilha. Mesmo sendo suspeito de pertencer ao bando, ele permanece trabalhando no HRT.

Na terceira linha, corrompiam o médico Agamenon Martins Borges, que, sequer olhava os cadáveres e fornecia atestados de óbito.

Reprodução/Metrópoles

 

Confira o papel de cada um dentro da organização criminosa que trabalha para as Funerárias Universal e Pioneira

Cláudio Barbosa Maciel: apontado como líder da organização criminosa que atuava em benefício das funerárias Universal e Pioneira, era o responsável pela articulação do grupo. Segundo o Ministério Público, Cláudio também atuava de forma operacional, captando ilegalmente comunicações de rádio da Polícia Civil e entrando em contato com familiares para fornecer serviços funerários. Preso durante a Operação Caronte.

Cláudio Barbosa Maciel Filho: responsável pelo contato com familiares de vítimas de morte natural, é filho do líder da organização criminosa. Ao ligar para parentes dos falecidos, se passava por servidor do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) e afirmava que o contrato com as funerárias favorecidas seria a melhor forma de evitar a realização de necropsia nos corpos. Também ligava nas delegacias   e mentia para conseguir informações sobre parentes e cancelar os serviços de remoção de corpos da Polícia Civil. Também foi na Operação Caronte.

Augusto César Ribeiro Dantas: um dos encarregados de ouvir ilegalmente as comunicações da Polícia Civil, por rádio, também atuava ligando para delegacias com o objetivo de conseguir informações sobre casos de mortes aparentemente naturais. Detido na Caronte.

Agamenom Martins Borges: médico-legista, era responsável por confeccionar atestados de óbito sem a realização de exames. Segundo o Ministério Público, Agamenom cobrava R$ 500 por cada atestado de óbito, documento público e gratuito. Também detido durante a Operação Caronte.

Conrado Augusto de Farias Borges: sobrinho de Agamenom Borges, fingia ser médico com a ajuda do tio e visitava casas onde estavam pessoas mortas por causas aparentemente naturais. Assim, também fornecia atestados de óbito, mesmo sem ter formação necessária para realizar a atividade. Preso na Caronte.

Jocileudo Dias Leite: vigilante do Hospital Regional de Taguatinga, recebia propina para passar informações sobre mortes naturais na unidade de saúde à organização criminosa. Descrevia, também, os familiares do falecido para que integrantes do grupo pudessem reconhece-los e abordá-los. Preso durante a Operação Caronte.

Samuel Aguiar Veleda: ascensorista do HRT, exercia a mesma função de Jocileudo Leite. Segundo o Ministério Público, nenhum dos dois tinha autorização das famílias para divulgar informações sobre as mortes. Detido na Operação Caronte.


Ainda foragidos da Justiça, Reandreson Miranda dos Santos e sua esposa, Miriam Sampaio dos Santos, mantinham um esquema similar ao de Cláudio Barbosa Maciel. No entanto, eles trabalhavam com o acesso irregular à rádio da Polícia Civil e ligavam em delegacias para obter dados das vítimas.

Depois, entravam em contato com as famílias e descreviam os procedimentos adotados pelo IML como invasivos. Alarmavam os parentes dizendo que os corpos seriam desnecessariamente  “cortados e abertos”. Ousados, chegavam ao cúmulo de se passar por servidores da Central de Captação de Órgãos.

Reprodução/Metrópoles

Confira o papel de cada um dentro da organização criminosa que trabalhava para as Funerárias Filadélfia e Brasília Serviços

Reandreson Miranda dos Santos: acusado de ser o líder da organização criminosa, é o dono das duas empresas envolvidas no esquema  — a Funerária Filadélfia e a Brasília Serviços Funerários. Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público, além de coordenar a ação do grupo, Reandreson também atuava operacionalmente, ouvindo ilegalmente as frequências de rádio da Polícia Civil e entrando em contato com as vítimas. Com prisão preventiva decretada, permanece foragido.

Miriam Sampaio dos Santos: esposa de Reandreson, fazia captação ilegal das comunicações de rádio da Polícia Civil para ficar sabendo de mortes por causas naturais informadas pelas delegacias do DF. De acordo com o Ministério Público, Miriam também “incentivava a continuidade das operações criminosas por parte de Reandreson e cobrava a sua atenção nas transmissões efetivadas no rádio da PCDF”. Também com prisão preventiva decretada, Miriam dos Santos está foragida.

Alex Bezerra do Nascimento: era um dos operadores de rádio da máfia das funerárias, captando ilegalmente as comunicações dos rabecões. Após ouvir casos de morte aparentemente naturais, ele repassava as informações aos comparsas para que entrassem em contato com as famílias. Preso durante a Operação Caronte, em 26 de outubro, foi liberado pela Justiça cinco dias depois.

Valtercícero dos Santos: se passando por servidor do Instituto Médico Legal (IML), entrava em contato com as famílias dos mortos por causas naturais e oferecia os serviços das funerárias integrantes do esquema. Segundo a denúncia do MPDFT, Valtercícero. Preso durante a Operação Caronte, acabou liberado pela Justiça cinco dias depois.

Marcelo de Oliveira Silva: também era responsável pela captação ilegal de comunicações da Polícia Civil por meio de rádio. Considerado foragido após a deflagração da Operação Caronte, Marcelo se entregou à Justiça no dia 1º de novembro e se comprometeu a colaborar com as investigações.

 

 

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