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Nem ônibus nem Uber. Morar em determinadas áreas do Distrito Federal pode ser uma barreira para quem precisa se locomover pelas cidades, não importa se a opção for transporte público ou particular. Já imaginou ter dinheiro, querer pagar por um trajeto e ficar na mão? Os principais motivos para as viagens negadas, canceladas ou interrompidas são falta de infraestrutura, como em Vicente Pires e Sol Nascente, e medo da violência, a exemplo da Estrutural, Ceilândia, Samambaia e Sobradinho II.

Morador de Vicente Pires há mais de 20 anos, o dentista Mário Genaro, 56, é usuário regular do aplicativo Uber e já cansou de ter viagens canceladas por motoristas. Só na Rua 12 da Chácara 322, onde ele mora, outras cinco pessoas relataram passar pela mesma situação com frequência.

“Toda semana sofro com cancelamentos. Tem vezes que você não consegue simplesmente chegar ou sair de casa. Já fiz diversas reclamações à empresa”, afirmou.

Segundo os moradores, os motoristas de aplicativos acionados por celular, como Uber, Cabify e 99, costumam perguntar onde estão e para onde vão os passageiros. Se a resposta for Vicente Pires, o cancelamento já é esperado. Há ainda relatos de que os condutores ficam parados para que o próprio cliente cancele a viagem, já que eles podem ser penalizados pelas empresas.

Quem já foi até lá de carro sabe que é difícil voltar com o veículo sem marcas de terra. Em dias de chuva, a situação complica ainda mais. Caso extremo foi uma caminhonete “engolida” recentemente por uma cratera aberta na Rua 3, que está em obras desde início do ano.

Na opinião de Mário Genaro, a má gestão é a maior razão para a população ficar refém da terra seca ou da lama. “Nos causa revolta. Somos moradores, pagamos nossos impostos. Eu até entendo os motoristas. Eles ganham R$ 15 com a corrida e têm que pagar R$ 30 para lavar o carro”, completou.

Ônibus no atoleiro
A aposentada Leatriz Alves, 48 anos, confirma que a reclamação sobre cancelamentos de corridas é geral entre moradores de Vicente Pires, mas lembra que até o transporte público é prejudicado. “Ônibus também ficam atolados por causa dos buracos. Se os coletivos ficam assim, imagina carros de pequeno porte”, comentou.

Em meados de outubro, a contadora Miriam Anjos, 48, ficou esperando em vão por um ônibus na Rua 3. Indignada, fez uma reclamação formal à Auto Viação Marechal, que opera a linha esperada. A resposta da empresa foi que os motoristas estão autorizados a alterar seus itinerários para evitar risco aos passageiros, danos aos veículos e problema na oferta de viagens.

“Deixar os passageiros à mercê da própria sorte, derrapando na lama, é preocupação? Nós podemos arriscar nossas vidas, mas o ônibus não pode atravessar o mesmo local”, reclamou a moradora.

O presidente da Associação de Moradores de Vicente Pires (Amovipe), Gilberto Camargos, lembrou que os congestionamentos causados pelas obras inacabadas também inibem motoristas de aplicativo a fazerem viagens. As ruas mais evitadas são 3, 3B, 3C, 4B, 4C, 5, 6, 8 e 10.

“Os motoristas de aplicativo não vão à maioria dos lugares aqui. Dependendo do horário que eles vêm, não conseguem sair facilmente. E qualquer carro que entrar em Vicente Pires fica completamente sujo. Mesmo quando não chove, a poeira deixa os veículos imundos”, disse.

Além disso, o escasso transporte público não é de fácil acesso à população. Passando pela região, poucas paradas de ônibus são vistas. “Conseguimos linhas novas, mas não atendem todas as ruas”, explicou Camargos.

Hugo Barreto / Metrópoles

Johnny Israel, comerciante em Ceilândia, usa diariamente aplicativo para se locomover

 

O problema da violência
Em Ceilândia, os relatos mostram que os motoristas de aplicativo fazem as corridas, mas perguntam para onde os passageiros vão antes de iniciar a viagem. O comerciante Johnny Israel, 31 anos, mora em Ceilândia Sul e usa o aplicativo 99 diariamente. “O que acontece comigo é a substituição do motorista no aplicativo. Já perguntaram para onde eu ia, mas como fico na área central, eles costumam aceitar”, contou.

A situação é diferente no Setor Habitacional Sol Nascente: os moradores contam que é difícil motoristas de aplicativo entrarem na comunidade. Apesar de ter muitas ruas sem asfalto, o principal impeditivo é a insegurança.

“Minha filha desce sempre no posto policial, porque eles não entram nas ruas. Acho que, além de não querer sujar os carros, fazem por segurança, porque o Sol Nascente tem má fama”, conta a vendedora Joanilia Barbosa da Silva, 49 anos. “Se tivesse mais segurança, os motoristas viriam”, acredita o morador Adriano Gomes, de 43 anos.

O transporte público também é precário. A moradora Patrícia Ultra, 45 anos, ressaltou que, há três meses, nenhuma linha de ônibus chegava até o Trecho III do Sol Nascente. Hoje, a linha 928, operada pela São José, faz o percurso. “Até a cobradora desce antes de ir até o final”, disse. “Acho injusto, porque tem cidadão de bem que precisa usar ônibus”, comentou o vigilante Rubens Santos, 33 anos.

As empresas de ônibus São José, Marechal e Pioneira informaram que cumprem todos os itinerários determinados pelo Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTrans). Em relação a Vicente Pires, os coletivos deixam de passar em locais previstos na rota se as ruas não estiverem em boas condições.

Hugo Barreto / Metrópoles

Patrícia Ultra e Adriano Gomes, moradores do Sol Nascente


Motoristas de app fogem do risco

Na manhã de quinta-feira (1°/11), o Metrópoles iniciou uma corrida de Uber no centro de Ceilândia com destino à entrada do Sol Nascente. O motorista, Warley Silveira, 42 anos, aceitou fazer o trajeto e conversou com a equipe durante o percurso. “Hoje eu vou, mas não gosto de ir para lá porque é perigoso. À noite, não entro”, afirmou.

A principal fonte de renda de Warley vem do trabalho como segurança. Como precaução, ele observa sempre as notas dos passageiros informadas no app e o comportamento no decorrer da viagem. Trabalhar no máximo até as 22h também é uma das medidas para evitar riscos. “Tem motorista que leva bem ao pé da letra. Eu consigo ser mais maleável”, contou.

Troca de informações
Profissionais autônomos, os motoristas de aplicativo se reúnem em grupos on-line e fazem encontros para trocar informações sobre o trabalho. A condutora Thais Braga Melo Galheno, 36, está na função há mais de um ano e participa do movimento.

Segundo ela, é prática dos motoristas cancelar viagens quando consideram que o veículo ou a própria vida podem ser colocados em perigo. Disparadamente, Vicente Pires foi citado pelos motoristas como o pior local para se transitar em termos de infraestrutura, especialmente em dias chuvosos. Estrutural, Ceilândia, Samambaia e Sobradinho II são considerados os mais perigosos.

A gente fica com o coração na mão, porque, como população, a gente sabe que a pessoa precisa se deslocar. A maioria dos motoristas também mora em cidades longe do Plano Piloto e sabe como é difícil depender do transporte público, mas não temos o que fazer"
Thais Galheno, motorista de aplicativo

Embora a atitude seja uma precaução, os motoristas também se sentem prejudicados. “É complicado, porque a gente perde muito. Se cancelarmos, o aplicativo demora a chamar novamente. Prejudica o ganho”, reclamou o condutor de aplicativo Francisco Luiz Sirino, 33 anos.

Assalto e tiros
Todos tentam evitar situações como a vivida pelo ex-motorista de app Eduardo Motta, 42 anos, vítima da violência no Sol Nascente em junho. Ao fugir de uma tentativa de assalto, o carro que ele usava foi alvo de vários tiros, por volta das 23h, depois de deixar um passageiro na região.

“Você sai de casa e não sabe se vai voltar. Você não tem o livre arbítrio de escolher a viagem que vai fazer, porque eles não mostram o destino. Quando é em dinheiro, não tem segurança nenhuma para o motorista”, contou. Depois do ocorrido, Eduardo optou por andar apenas no Plano Piloto, mas acabou sendo banido do aplicativo.

As empresas afirmam que os motoristas de aplicativo são autônomos e podem fazer suas escolhas. No entanto, os cancelamentos podem gerar penalizações, como cobrança de taxa e até o fim da parceria.

Destemidos
Os taxistas que ficam no centro de Taguatinga disseram que, para eles, não há tempo ruim. Apesar de cobrarem quase o dobro por uma corrida, não deixam de ir aos locais desejados pelos passageiros.

Na profissão há 16 anos, Leudo do Carmo Moreira, 50 anos, contou que já ouviu reclamações de passageiros que, ao terem viagens negadas por motoristas de aplicativo, o procuraram. “Taxista não escolhe lugar. Tem algumas precauções, mas nós vamos para onde o passageiro quer”, assegurou.

Hugo Barreto / Metrópoles

Taxistas Leudo do Carmo Moreira e Tony Evangelista, em Taguatinga

 

Outro lado
A Uber informou que a plataforma permite que os motoristas tenham a liberdade de não aceitar ou cancelar viagens. “É importante ressaltar que altas taxas de cancelamentos injustificados configuram uma violação aos termos e condições de adesão dos motoristas parceiros à Uber”, diz nota enviada à reportagem.

A 99 disse que tem um mapeamento de áreas de risco e envia aos motoristas notificações sobre zonas perigosas. Também há um canal de atendimento para incidentes de segurança. “Em caso de cancelamento nas áreas demarcadas, o motorista não sofre qualquer tipo de cobrança”, diz a resposta enviada.

A Cabify informou que oferece atendimento aos motoristas 24 horas e também restringe a circulação em áreas consideradas de risco. “A plataforma de mobilidade urbana preza sempre pela melhor experiência para todos, por isso o motorista parceiro possui a opção de aceitar ou não e os orienta a não provocar o cancelamento de viagens”, respondeu a empresa.

O que diz o governo
A Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos afirmou que Sol Nascente e Vicente Pires estão recebendo obras de urbanização nesta gestão. “É importante destacar que apenas com tais obras de infraestrutura os problemas há anos enfrentados pela população local, como alagamentos e poeira, serão solucionados”, diz nota enviada à reportagem.

Segundo a Secretaria de Mobilidade, a operação de todas as linhas do Sistema de Transporte Público Coletivo do Distrito Federal (STPC-DF) é monitorada diariamente, de forma a garantir a rotina acordada de rotas e horários com as empresas, que são responsabilizadas em casos de descumprimento.

O DFTrans esclareceu que foram feitos reforços em diversas linhas do Sol Nascente no primeiro semestre deste ano, levando em consideração o aumento da demanda no local e algumas sugestões de moradores. A autarquia acrescentou que, à medida que as obras de infraestrutura na região forem concluídas, as rotas de ônibus serão expandidas para passar nas ruas que hoje não têm asfalto.

A Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social foi procurada, mas não respondeu até a última atualização deste texto.