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As boas relações de José Roberto Arruda (PR) com altos executivos das principais empreiteiras do país teriam lhe rendido benefícios financeiros até quando ele não ocupava mais cargos públicos. Engenheiro de formação, ex-diretor do Metrô e secretário de Obras do Distrito Federal na gestão de Joaquim Roriz, ex-governador do DF e ex-senador da República, Arruda teria sugerido a formação de uma coalizão de empreiteiras que dividiram o comando de importantes obras na capital. Um esforço que não foi ignorado pela Odebrecht: a construtora teria injetado R$ 966 mil – não contabilizados – na campanha de 2014 do político identificado pelo grupo como “Parreira”. Na ocasião, Arruda, cassado do cargo de governador após o escândalo da Caixa de Pandora, tentava voltar ao Palácio do Buriti.

Parte da relação de Arruda com a Odebrecht é revelada no depoimento do ex-executivo da empresa, João Antônio Pacífico Ferreira. Segundo ele, o reforço na campanha ao GDF foi pedido diretamente pelo candidato do PR. O pleito foi atendido e dividido em duas parcelas. Em junho de 2014, o político teria recebido R$ 500 mil. O dinheiro estaria vinculado à polêmica obra do Centro Administrativo do GDF, o Centrad, executada em parceria com a brasiliense Via Engenharia. O contrato para a construção foi firmado na gestão de Arruda no GDF e a obra, finalizada durante o mandato do petista Agnelo Queiroz. O custo total ultrapassa R$ 1 bilhão. Até hoje, o Centro permanece ocioso devido a irregularidades apontadas pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas locais.

Três meses depois desse aporte, a Odebrecht teria liberado mais R$ 466 mil para o caixa 2 de Arruda, conforme o depoimento de Pacífico. O curioso é que, desta vez, o dinheiro estaria vinculado a uma obra em outro estado: a construção do VLT de Goiânia. Ao custo de R$ 1,3 bilhão, o modal começou a sair do papel em 2011 e foi finalizado em 2013. A obra foi executada pela Odebrecht (90%) em parceria com o consórcio da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC). Era promessa de campanha do tucano, e aliado de Arruda em Goiás, governador Marconi Perillo. 

Para provar suas afirmações, João Antônio Pacífico Ferreira apresentou à Justiça planilhas de pagamento nas quais Arruda é identificado pelo codinome “Parreira” (confira abaixo).  “Ele solicitou contribuição de campanha (por meio do contrato do Centrad) para reeleição dele. Esse contato foi feito diretamente a mim, porque conheço o Arruda desde quando ele fazia parte do governo de (Joaquim) Roriz, em 1992”, afirmou o ex-executivo da Odebrecht.


Segundo o delator, José Roberto Arruda designou um interlocutor: o empresário Sérgio de Andrade do Vale. “No momento da reunião estava comigo o diretor de contrato Ricardo Ferraz e foram feitas doações via caixa 2 para Arruda”, afirmou Pacífico.

Assista vídeo com o depoimento do ex-diretor da Odebrecht sobre Arruda: 

Dinheiro entregue em São Paulo
As declarações do diretor de contrato da Odebrecht Infraestrutura, Ricardo Ferraz, completam as informações prestadas por João Pacífico. Segundo Ferraz, os R$ 966 mil foram entregues ao operador de Arruda em São Paulo, e os nomes das obras nas planilhas da Odebrecht correspondem ao local onde foram alocados os recursos. Confira algumas respostas de Ferraz durantes seu depoimento à Justiça:

No ano de 2014, foi solicitado ao sr. pelo sr. Pacífico alguma entrega de senha para José Roberto Arruda?
Sim. Em meados desse ano (2014), o João Pacífico, meu diretor, solicitou que efetuasse alguns pagamentos não oficiais ao interlocutor do então candidato José Roberto Arruda, e assim eu o fiz em duas ocasiões.

Onde eram feitos os pagamentos?
Os pagamentos foram efetuados em São Paulo em 9 de junho de 2014, podemos levantar isso no sistema Drousys (R$ 500 mil), e em 8 de setembro de 2014 (R$ 466 mil), para o codinome Parreira.

Parreira quem era?
José Roberto Arruda.

Sobre o Centrad e o VLT Goiânia?
Apesar de nos nomes das obras do Sistema Drousys constar Centro Administrativo de Brasília e VLT de Goiânia, esses nomes de obra não correspondem efetivamente ao local onde foram alocados esses recursos. Na contabilidade, no sistema, saíram daí para fazer o pagamento para o Parreira.

Veja vídeo com o depoimento de Renato Ferraz:

Acordão
João Pacífico também relatou à Justiça uma espécie de acordo orientado por José Roberto Arruda para “evitar conflitos” entre as empreiteiras que tinham interesse em operar no DF. De acordo com o ex-executivo, assim que assumiu o governo local, em 2007, Arruda convocou uma reunião com representantes das principais construtoras que atuavam na capital.

Vamos dizer que se tratava de uma reunião de harmonia de mercado. Ele não queria brigas, cada um ia ajudar seu projeto para evitar que ficassem sendo disputadas várias obras, ou uma obra por várias empresas. Ele não queria tumulto, porque isso poderia gerar muitas demandas judiciais"
João Pacífico, sobre reunião de empreiteiros com o então governador Arruda

Segundo o delator, o ex-governador orientou as empresas interessadas em licitações do GDF a ficarem em constante contato com Márcio Machado, seu secretário de Obras, “para evitar confusões”.

João Pacífico revelou, também, irregularidades na licitação das obras do BRT Sul, que liga Santa Maria ao Gama. Segundo o delator, João Longuinho, diretor da construtora OAS, e Luiz Ronaldo Wanderley, executivo da Via Engenharia, pediram à Odebrecht para apresentar um projeto fictício, com preços acima dos cobrados pelo mercado e dos oferecidos pelas outras concorrentes participantes do conluio. Dessa forma, mesmo a proposta mais barata, ainda seria superfaturada.

De acordo com o delator, com a promessa de que poderia pedir o mesmo “favor” futuramente à Via Engenharia e à OAS, a Odebrecht aceitou o acordo. Segundo João Pacífico, a colaboração entre as empresas para cobranças abusivas em obras públicas ocorria “dentro daquele espírito que foi estabelecido pelo governador (Arruda) de evitar conturbações nos processos licitatórios”.

Segundo o advogado de Arruda, Paulo Emílio Catta Preta, as acusações são improcedentes. “Não tivemos cópias da íntegra dos depoimentos ou dos autos ainda. O que posso lhe dizer é que não há procedência nas acusações porque a Odebrecht não executou grandes obras na gestão do governador José Roberto Arruda, pois ele teve seu governo abreviado no início de 2010, como todos sabem. Todas as execuções foram posteriores a isso”, disse.

 

 

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