Operação Drácon: Liliane Roriz presta depoimento como testemunha

Antes da ex-distrital, prestaram depoimento, na condição de réus, os ex-colegas de CLDF Celina Leão e Julio Cesar, além de Valério Neves

atualizado 04/03/2020 22:49

Após os ex-deputados distritais Celina Leão (Progressistas) e Julio Cesar (Republicanos) e o ex-secretário-geral da Câmara Legislativa Valério Neves serem ouvidos na condição de réus no âmbito da Operação Drácon, a ex-parlamentar da CLDF Liliane Roriz prestou depoimento nesta quarta-feira (04/03). Ela é testemunha do processo de improbidade administrativa que corre na 7ª Vara de Fazenda Pública do DF.

Liliane começou a falar por volta das 19h e pediu que todos os réus deixassem a sala da audiência por sentir-se “constrangida”. Questionada pelo promotor do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) Clayton Germano sobre por que começou a gravar a ex- presidente da Câmara Legislativa Celina Leão, ela afirmou que foi para “se proteger”.

“Havia uma ‘fumaça’ muito estranha sobre a reeleição da Celina. Ela nunca tinha me chamado para conversar e me chamou. Achei estranho e comecei a gravar. Tinha medo”, afirmou, em depoimento à 7ª Vara. Ela se referia à conjuntura da CLDF à época em que fez as gravações. Celina tentava aprovar um Projeto de Emenda à Lei Orgânica (Pelo) para instituir a reeleição na Casa e se candidatar.

Nesse contexto, também era negociada uma emenda a fim de destinar recursos à área da Saúde. A pedido do ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB), os deputados se articulavam para tirar a área de “calamidade pública”.

Liliane, que era vice-presidente da CLDF em 2015, queria enviar suas emendas para a educação. A princípio, ela chegou a elaborar um documento, junto com seu chefe de gabinete, José Adenauer, destinando R$ 24 milhões para a educação e R$ 2,4 milhões para restaurantes comunitários. Porém, essa emenda foi alterada por integrantes de chamada Mesinha – formada pelos secretários executivos dos secretários da Mesa.

Assim, a emenda, hoje investigada pela Drácon, passou a destinar R$ 30 milhões para a Saúde, na área das Unidades de Terapia Intensivas (UTIs) e R$ 1 milhão para a educação. Durante o depoimento como testemunha do MPDFT, Liliane afirmou acreditar, à época, que os recursos das emendas seriam divididas em metade para saúde e metade para a educação. “Metade de R$ 31 milhões era para as duas áreas, mas foi grande parte para a saúde. Foi onde vi o que estava acontecendo”, afirmou.

O projeto

Durante as gravações, divulgadas em agosto de 2016 por Liliane Roriz e que deram origem às investigações, a então presidente da Casa, Celina Leão, falava diversas vezes sobre um “projeto”. Em depoimento, Liliane ressaltou não ter conhecimento do que era esse “projeto” tratado por Celina nos áudios. “Ela disse que eu estava dentro, mas eu não tava. Não fazia parte do conluio dela”, rechaçou.

Liliane afirmou, na 7ª Vara de Fazenda, ter feito emendas no início do governo para reformas de escolas. Quem as elaborava era José Adenauer. “Essa emenda [que destinou R$ 30 milhões para área de UTI] foi elaborada pela Mesa, e o Adenauer cumpriu ordens dos integrantes da Mesinha. Para esse recurso, as ordens foram da Mesinha, não a mando meu”, disse Liliane Roriz.

Questionada pelo promotor Clayton Germano por que demorou para divulgar os áudios, gravados em 2015 e liberados somente em agosto de 2016, Liliane novamente falou de seu temor em denunciar.

“Eu tinha muito medo de algo respingar em mim em uma situação bem cinza, bem complicada. Não tinha nem noção dos ataques que iam fazer contra mim, minha família, minha filha, meu marido”, afirmou. Segundo Liliane, ela e Celina não eram amigas. “Celina tinha raiva de mim porque eu era filha do Roriz”, disse na audiência.

Arquivos deletados

Liliane negou ainda as afirmações de Celina Leão de que ela teria apagado 60 mil arquivos dos computadores da CLDF. “Eu estava de licença não remunerada. Celina que ameaçou as pessoas e, com medo, os funcionários saíram apagando seus arquivos, até coisas pessoais”, disse.

Horas antes, prestando depoimento também na 7ª Vara, Celina havia afirmado que as informações deletadas dos computadores da vice-presidência deveriam ser resgatadas e que as informações seriam importantes para as investigações.

A segunda testemunha do MPDFT a ser ouvida foi o ex-chefe de gabinete de Liliane Roriz, José Adenauer. Ele começou a depor por volta das 20h. Explicou as atribuições que tinha no cargo, entre elas, a elaboração de emendas. “A vice elabora, mas não tem iniciativa. A iniciativa de saber onde sobra ou falta orçamento é da 2ª Secretaria”, disse.

Sobre a questão das sobras orçamentárias, ele afirmou que o ex-chefe de Elaboração Orçamentária da CLDF Glauco Azevedo chegou à sala dele pedindo que Liliane Roriz assinasse um documento de sobra orçamentária no valor de R$ 24 milhões para manutenção de escolas.

“Ele elaborou e levou para mim. Fui levar para Liliane, e ela questionou. Eu disse que tinha acordo da Mesa em tirar das sobras para escolas. Ela pediu que tirasse R$ 2,4 milhões para restaurante comunitário. Eu refiz a emenda. Quando fui levar ao plenário, recebi a informação de que houve outra alteração”, contou.

Depois dele, foram ouvidos Glauco Azevedo e Afonso Assad, presidente da Associação Brasiliense de Construtores (Asbraco). O próximo passo desse processo, em que oito réus são investigados por improbidade administrativa, é a realização de oitivas das testemunhas de defesa. A próxima sessão ficou marcada para 29 de abril.

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