Jovem baleado por PM teme pela vida: “Outros ainda estão soltos”

Em entrevista ao Metrópoles, o rapaz de 21 anos, cuja esposa está grávida, diz que foi agredido e levou tiro após "mal-entendido"

Anna Karoline Rodrigues/Metrópoles

atualizado 20/12/2019 12:56

O jovem de 21 anos baleado por um policial militar no Riacho Fundo II, na noite de segunda-feira (16/12/2019), lembra do momento de terror vivido na lanchonete onde foi encurralado e agredido pelo sargento da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) Adailton Portela dos Santos e mais três homens. Nesta sexta-feira (20/12/2019), o rapaz foi ao Instituto de Medicina Legal (IML) para fazer exame de corpo de delito. Ao Metrópoles, disse que saiu de casa, onde morava com a esposa, e teme por sua vida. “Os outros ainda estão soltos”, afirmou.

Nessa quinta-feira (19/12/2019), a Justiça decidiu manter o sargento preso. Os outros envolvidos — entre eles, o filho do PM — não foram detidos. De acordo com o jovem, a agressão começou devido a um mal-entendido. “Eu estava na lanchonete esperando minha mulher responder por mensagem o que ela iria querer comer e conversava com o dono da lanchonete. Aí, teve um momento que falei: ‘Tô indo no banheiro, viu, seu viado’. Só que o PM achou que eu tinha dito isso para ele”, narrou.

Mesmo assim, o sargento teria dito para o jovem respeitá-lo. “Eu pedi desculpas e ele falou: ‘Desculpa é o caralho’. E me deu um murro na cara”, afirmou. Após ser agredido, o rapaz revidou com um soco. “Aí juntaram mais três caras, me seguraram e o policial já sacou a arma. Um deles gritava: ‘Mata ele, pai'”, afirmou.

Anna Karolinne Rodrigues/Metrópoles
Vitima levou um tiro no tórax

Ainda segundo a vítima, enquanto era imobilizado pelos outros homens, Adailton chegou a apontar a arma para sua cabeça. Nesse momento, o filho do PM teria incentivado o pai a disparar.

Com a esposa grávida de sete meses, o rapaz, que está desempregado, contou à reportagem que ainda pediu para que o sargento não atirasse, pois iria ser pai em pouco tempo. “Falei: ‘Não atira, não atira. Minha filha vai nascer em dois meses'”, comentou.

No entanto, o PM teria dito: “‘Viado é uma porra’ e mirou na minha cara”. Foi quando o dono da lanchonete o empurrou e eu consegui chutá-lo e sair correndo para casa. “Ele [proprietário do estabelecimento] salvou a minha vida”, disse, aliviado.

Segundo lembra o jovem, Adailton disparou três vezes, mas apenas um dos tiros o atingiu, no tórax. “E eu ainda caí em cima de pedaços de vidro. Nem tinha visto que tinha levado um tiro. Quando fui procurar meu celular e documentos que vi o buraco e o sangue. Aí, quando cheguei em casa, um vizinho que é enfermeiro me socorreu até o Samu chegar.”

Para a vítima, a tentativa de homicídio cometida pelo militar foi “uma covardia”. Após o crime, o sargento ainda teria ameaçado testemunhas para que alegassem que fora o jovem quem iniciou as agressões. “Não deveria nem ser policial um homem com esse tipo de caráter. Não dá para uma pessoa dessa trabalhar protegendo a população”, defendeu.

A mãe do rapaz diz que soube do crime pela sogra do filho. “Estava em casa e ligaram falando que tinha sido baleado. Fiquei desesperada. Não atingiu nenhum órgão, foi muita sorte. Mas estamos com medo, porque o policial está preso, mas os outros, não”, afirmou.

Audiência de custódia

Na audiência de custódia, a juíza Flávia Pinheiro Brandão Oliveira considerou que a detenção do acusado “faz-se necessária para a garantia da ordem pública e da instrução processual”.

A magistrada levou em conta relatos de testemunhas de que, após o primeiro disparo, Adailton teria corrido para se aproximar do jovem e atirado novamente, dessa vez, na perna. No momento dos tiros, os agressores e a vítima não estavam mais em luta corporal, conforme consta na ata da audiência.

Outro argumento usado para converter a prisão em flagrante em preventiva foram as suspeitas de que o policial estaria ameaçando testemunhas para que não relatassem os fatos, pois apenas um dos presentes se dispôs a ir até a delegacia para prestar depoimento.

O delegado responsável pelo caso, Renato Vieira Damasco, da 27ª DP (Recanto das Emas), ressaltou que “testemunhas foram ameaçadas por Adailton e pelos policiais que atenderem a ocorrência para que não revelassem o que havia acontecido de fato”.

“Elas foram localizadas por policiais civis que fizeram buscas perto da ocorrência. Muito amedrontadas, nenhuma queria falar. Uma delas chorou muito em seu depoimento”, diz trecho da ata de audiência.

Em seu relato, Adailton afirmou pertencer ao mesmo batalhão dos policiais que atenderam a ocorrência e já ter sido superior deles. Ele omitiu a participação de seu filho e de mais pessoas nas agressões. Ele disse que teria sido chamado de “comédia” pelo rapaz de 21 anos.

O Metrópoles questionou a Polícia Militar sobre as medidas adotadas pela corporação para apurar o caso. Até a última atualização deste texto, a PMDF ainda não havia encaminhado resposta. O espaço permanece aberto.

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