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Já passava de meia-noite da última sexta-feira (12/5) quando uma mulher fantasiada de enfermeira começou seu show de striptease. Abusando da elasticidade nas barras de pole dance, a moça foi a primeira a se apresentar na “Festa da Lingerie”, evento semanal em que garotas de programa desfilam apenas de calcinha e sutiã pelo salão da Vegas World Class Club, na comercial da 403 Sul. A atração é uma das novidades da boate aberta em outubro de 2015, que agora está sob nova direção.

Quem gerencia a casa é Louis Traboulsi (foto principal), irmão do doleiro Fayed Antoine Traboulsi, nome conhecido no noticiário policial. Segundo funcionários e mulheres que trabalham no local, Fayed seria o principal investidor do empreendimento. Juntos nos negócios e nas encrencas, os irmãos Traboulsi foram denunciados pelo Ministério Público Federal por suposto envolvimento em fraudes milionárias. Fayed, inclusive, já foi preso duas vezes.

Louis e Fayed teriam assumido o comando da Vegas há pelo menos seis meses. Com uma vigorosa injeção financeira, a boate foi repaginada, assim como o plantel de garotas de programa. São cerca de 30 meninas, de estados como Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Espírito Santo. Ao menos 10 delas ficam hospedadas em uma mansão na QI 7 do Lago Sul, num esquema discreto para não chamar atenção da vizinhança. O imóvel fica próximo de outro negócio de Fayed: a casa de pôquer P2W, no Setor de Clubes Sul.

Para trabalhar na Vegas, beleza é fundamental. Quem seleciona as meninas é Louis Traboulsi, que é chamado, sem reservas, de “cafetão” pelas garotas. Todas as noites, Louis circula pela boate, coordenando a parte administrativa e conversando com os clientes. Ele também faz a intermediação de programas para os frequentadores do local com as prostitutas da Vegas.

O Metrópoles passou a noite de quinta-feira (11/5) e a madrugada de sexta (12) na boate, onde conversou com o irmão de Fayed. Além de agenciar as garotas, Louis disse que os clientes podem alugar o estabelecimento para festas privativas.

 

Baladas privativas
Sem saber que estava sendo gravado, Louis afirmou que as baladas fechadas são negociadas previamente. Os valores dependem do número de clientes, de mulheres contratadas e do volume de bebida consumida. “Para cinco ou seis caras, podemos fechar em R$ 10 mil. Levamos em conta a participação de quatro garotas e a bebida, que estará à disposição.”

Questionado se as relações sexuais com as prostitutas poderiam ser feitas no interior da casa, o irmão de Fayed afirmou que sim. Segundo ele, o segundo andar da boate foi idealizado justamente para oferecer privacidade aos clientes. O programa com cada garota não sai por menos de R$ 500.

“Com certeza, tudo pode rolar. As meninas já vão preparadas para o sexo. Todas elas circulam peladas pelo segundo andar. Os sofás e os vidros fechados com película dão bastante privacidade para os clientes aproveitarem a festa.”"
Louis Traboulsi

Funcionários da boate ouvidos pela reportagem disseram que, após os irmãos Traboulsi controlarem a Vegas, o empreendimento passou por uma “turbinada”. “Quando o Fayed assumiu o negócio, o número de garotas na casa aumentou. O volume de políticos e de outros clientes com dinheiro também cresceu. Em uma festa bancada pelo pai de um jogador de futebol na época das Olimpíadas, a casa faturou R$ 26 mil apenas com bebidas”, revelou um dos empregados que recentemente deixou a boate.

Alojamento de luxo
O grupo que agencia as meninas da Vegas montou um forte esquema para controlar a rotina delas. Ao menos 10 mulheres ficam alojadas em uma mansão no Conjunto 14 da QI 7 do Lago Sul, uma das áreas mais nobres do DF.

O imóvel divide a rua com embaixadas. Quem passa pelo local não desconfia que na casa está boa parte do “casting” da Vegas. Uma das garotas que já trabalhou na boate contou à reportagem que é difícil sair da residência. Segundo a mulher, os seguranças monitoram o local 24 horas e não permitem que elas deixem a casa sem uma boa justificativa. A ideia é evitar que elas façam programas “por fora”.

Daniel Ferreira/Metrópoles

Casa no Lago Sul usada como alojamento pelas garotas de programa da boate Vegas

 

As garotas passam o dia no local e são levadas para a boate apenas à noite. As mulheres ainda pagam uma espécie de aluguel para garantir a hospedagem de alto padrão. Antes de os Traboulsi assumirem o empreendimento, as moças que trabalhavam na Vegas tinham como ponto de apoio um apartamento modesto na 403 Sul.

 

Débito ou crédito
Boa parte dos programas fechados dentro da Vegas é paga por meio de cartão de crédito ou débito. Dias depois, um depósito bancário é feito na conta da garota, reforçando a participação da boate no esquema de prostituição.

Ex-funcionários da Vegas revelaram que diversas empresas passaram a ser usadas para manter o fluxo financeiro da boate. O nome de uma dessas companhias aparece no comprovante emitido pelas máquinas de débito e crédito: a MN Gestão e Serviços Eireli, com sede na Asa Sul.

Segundo a Receita Federal, a principal atividade da MN são “serviços combinados de escritório e apoio administrativo”. O Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) ainda indica outras atividades secundárias, como “organização de feiras, congressos, exposições e festas; atividades de intermediação e agenciamento de serviços e negócios em geral, exceto imobiliários; atividades de rádio; fornecimento de alimentos preparados preponderantemente para empresas; serviços de alimentação para eventos e recepções; bufê e reprodução de software em qualquer suporte”.

A reportagem não conseguiu localizar os responsáveis pela companhia para perguntar qual a relação deles com a Vegas.

Reprodução/Arquivo pessoal

 

A prostituição não é crime no Brasil. Mas o Código Penal Brasileiro tipifica a mediação para uma pessoa servir a lascívia de outra (pena de reclusão de um a três anos), o favorecimento à prostituição (de dois a cinco anos de cadeia), a manutenção de prostíbulo (dois a cinco anos, mais multa) e o rufianismo, quando alguém tira proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou fazendo-se sustentar por quem a exerça (um a quatro anos de reclusão, mais multa).

Mercado de câmbio
Louis e Fayed pertencem a uma família de libaneses que fez fortuna no Distrito Federal explorando o mercado paralelo de câmbio. Fayed foi quem assumiu o protagonismo dos negócios. Nascido em Beirute, capital do Líbano, em 28 de fevereiro de 1961, o doleiro não chegou a cursar ensino superior. Nem por isso se acha menos qualificado.

Em depoimentos à Polícia Civil em 2013, quando foi preso na Operação Infiltrados sob a acusação de lavar dinheiro, definiu-se como “autodidata” do mercado financeiro, apenas lendo livros de economia. De amador, Fayed virou, em alguns anos, um “expert” do câmbio negro.

Os serviços do Turco, como é conhecido, eram rotineiramente requisitados por empresários e políticos da cidade desde a década de 1990, e lhe renderam uma vida mais que confortável. Mansões, carros importados, empresas e um barco italiano, único no Brasil, fazem parte do universo de luxo de Fayed, apesar de não estarem, muitas vezes, em nome dele.

Tomando como base os registros de propriedade, Fayed teria apenas uma moto Harley Davidson 2002, uma caminhonete ano 2011 e ações em uma empresa de pecuária, que está com as atividades suspensas.

Mas a Polícia Federal descobriu um patrimônio exponencialmente maior do que o declarado. O iate que o doleiro tem, o maior do Lago Paranoá, foi batizado Georgette, nome da mãe dele. A embarcação está vinculada a terceiros, mas tornou-se símbolo de uma das operações que o levou à cadeia (veja galeria com detalhes da embarcação).

“Prática delitiva”
Em 2016, Fayed foi preso novamente. Desta vez, no âmbito da Operação Miquéias, da Polícia Federal — Louis Traboulsi também foi denunciado pelo Ministério Público. A ação investiga fraudes em fundos de Previdência de servidores de prefeituras de nove estados e do Distrito Federal. O esquema teria desviado ao menos R$ 50 milhões dos benefícios durante quase uma década.

No pedido de prisão assinado pelo juiz federal substituto Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, o magistrado afirma que o contraventor tem “personalidade voltada para a prática delitiva”, pois “responde a vários inquéritos penais, segundo a folha de antecedentes”. Entre eles, destaca o juiz, estão corrupção, crime contra os sistemas financeiro e tributário, contrabando, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, entre outros.

Um ano antes, no fim de março de 2015, o doleiro foi condenado a seis anos de prisão em regime fechado. A sentença, da 1ª Vara Criminal de Taguatinga, é resultado das investigações da Operação Infiltrados. Levado para o Complexo Penitenciário da Papuda, não ficou 24 horas recluso. Uma liminar assinada pelo desembargador Romão Cícero, do Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT), livrou o doleiro da prisão. Hoje, responde em liberdade aos crimes, mas está com o passaporte retido e proibido de viajar sem avisar à Justiça.

O outro lado
Apesar do envolvimento da família Traboulsi com a Vegas, Fayed e Louis não figuram como sócios do estabelecimento no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) da boate. Um dos sócios oficiais é Osmar Rodrigues Torres Neto. Em conversa com a reportagem, ele garantiu que o doleiro não exerce qualquer influência no gerenciamento da boate. “Existe muita fofoca circulando pela cidade. A verdade é que o Fayed é meu amigo pessoal, mas não existe qualquer participação dele na Vegas”, disse.

Osmar Torres justificou que o único laço de Fayed com a boate é seu irmão, Louis, que foi contratado para administrar o local. “Resolvi ajudar o Louis porque ele estava precisando trabalhar e o empreguei como administrador. O Fayed chegou a ficar chateado comigo por conta disso”, contou.

Questionado se a realização de programas dentro da Vegas estava liberada, Osmar negou. “Não existem programas dentro da casa, até porque é proibido”, concluiu.

O Metrópoles também conversou com Fayed. Ele refutou qualquer possibilidade de envolvimento comercial com a boate. “Nunca fui dono nem sócio da Vegas. Podem olhar todas as documentações e o que mais for preciso, pois jamais tive participação em qualquer sociedade envolvendo esse local. Apenas meu irmão trabalha lá, contra a minha vontade. Estive duas vezes no local justamente para pedir que ele deixasse esse trabalho”, disse o doleiro.

 

 

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