Integrantes de ONGs que fraudaram INSS têm empresas no mesmo endereço

Ao menos três membros da Conafer e da AAB criaram diversos CNPJs com capitais acima de R$ 100 mil que operam no mesmo endereço no DF

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Jéssica Ribeiro/ Metrópoles
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1 de 1 2f85c3a5-ed85-4e35-84c5-8236c8d7b8cd - Foto: Jéssica Ribeiro/ Metrópoles

Nomes por trás da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais do Brasil (Conafer) e da Associação de Aposentados do Brasil (AAB), ambas investigadas por envolvimento no caso que ficou conhecido como a farra do INSS, criaram diversos CNPJs distintos, com capitais acima de R$ 100 mil, que operam no mesmo conjunto de endereços no Distrito Federal.

Um desses empreendimentos, nomeado como Solution, foi aberto por Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior – contador da Conafer, e supostamente funciona no mesmo local de uma Igreja Evangélica, fundada por uma das sócias da AAB, identificada como Lucineide dos Santos Oliveira, no Recanto das Emas.

Metrópoles esteve no endereço e encontrou apenas a instituição religiosa, erguida entre um centro catequético e um terreno baldio. Apesar disso, segundo dados da Receita Federal, a loja de Samuel está ativa no espaço, configurando a suspeita de ser uma empresa fantasma.

Outros 10 CNPJs também vinculados à dupla, bem como a um terceira pessoa ligada ao presidente da Conafer – o assessor Cícero Marcelino de Souza Santos –, supostamente funcionam na parte superior de um sobrado na região administrativa.

Apesar de os envolvidos terem indicado na Receita Federal o endereço como sede das empresas – que prometem oferecer desde comércio varejista à locação de carros e atividades de apoio à agricultura, – a fachada do pequeno escritório exibe apenas chamada para dois desses empreendimentos: a Expresso e um segunda companhia também apelidada como Solution.

Veja:

Um outro CNPJ registrado no nome de Lucineide dos Santos Oliveira, a sócia da AAB, está localizado na Quadra 403 Conjunto 19 do Recanto das Emas. A reportagem esteve no endereço e ouviu de testemunhas que apenas uma tapiocaria funciona há anos no local.

Além de pertencerem a integrantes de instituições diferentes e dividirem um único espaço, essas empresas carregam um outra curiosidade: a maioria tem como contato principal o mesmo endereço de e-mail.

Conheça as empresas e onde estão localizadas:

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Convocado a prestar depoimento na CPMI que apura as fraudes do INSS, Cícero Marcelino chegou afirmar que lucrava “uns trocos” com o dinheiro que deveria ser destinado aos aposentados e pensionistas. O homem admitiu, ainda, que abriu empresas para prestar serviços a pedido do presidente da Conafer.

Cícero também contou que recebia planilhas de pagamentos para as entidades da Conafer e os repassava, mas negou conhecer Samuel Chrisostomo, apesar de supostamente conduzir empresas no mesmo local que ele.

Durante a CPMI, as empresas de Cícero foram apontadas como empreendimentos laranja. “A única coisa que estou vendo aqui nesta CPMI é que as pessoas que os sindicatos ajudam são os próprios dirigentes e seus familiares, as empresas dos dirigentes, dos familiares, ou dos laranjas e familiares dos laranjas. E você é um laranja, suas empresas são empresas laranja”, disse a deputada Adriana Ventura (Nov-SP).

Programa previdenciário

A Conafer divulga, no site da confederação, o Programa +Previdência Brasil, que, segundo a página, visa dar publicidade a informações sobre a educação previdenciária e o INSS Digital. As iniciativas incluem cursos sobre benefícios, de modo a auxiliar os interessados a reivindicarem os próprios direitos.

O site também detalha que não há custo nesse processo. “As associadas não receberão remuneração advinda do INSS nem dos usuários pela execução do serviço, não sendo impedidas de cobrar a mensalidade associativa do beneficiário do serviço”, diz o portal.

A investigação da CGU demonstrou, porém, que a situação não era como a Conafer fazia parecer. Os auditores ouviram 56 pessoas, em 16 unidades da Federação, que tiveram descontos feitos pela confederação. Nenhuma das vítimas havia autorizado o repasse.

A controladoria acrescentou que 621.094 aposentados tiveram desconto nos pagamentos ligados à Conafer só no primeiro trimestre de 2024.

AAB pediu desconto a pessoa morta

A Associação dos Aposentados do Brasil solicitou o desconto em benefício de pessoas mortas há décadas. Levantamento feito pela Controladoria-Geral da União (CGU) identificou que a AAB, sediada em Brasília, solicitou indevidamente, em mais de 27 mil casos, a inclusão de descontos associativos de pessoas já falecidas.

Foi o caso, por exemplo, de Jaime dos Santos, morto em 25 de outubro de 2002, aos 46 anos de idade. Mesmo assim, a entidade pediu, em março de 2024, isto é, mais de duas décadas depois, o cadastro dele na lista de descontos do INSS.

“Trata-se de conduta que, em tese, configura tentativa de burlar os controles da Administração Pública”, explica a CGU. “Os fatos constituem forte indício de atuação fraudulenta, na medida em que supostamente revela a inexistência de qualquer manifestação válida de consentimento por parte do beneficiário”, prossegue o órgão controlador.

O outro lado

Em nota, a defesa de Cícero Marcelino de Souza Santos declarou “que não tinha acesso ao processo que investiga as empresas no Distrito Federal, tendo tomado conhecimento da existência da apuração somente após a reportagem divulgada pela imprensa”.

“Após isso, a defesa protocolou pedido de acesso aos autos, medida necessária para compreender integralmente o teor da investigação. Dessa forma, a defesa informa que só poderá se manifestar de maneira mais detalhada depois que tiver acesso completo ao processo. Em relação à prisão, a defesa afirma que já está adotando todas as medidas cabíveis para proteger os direitos do seu representado”, disseram os advogados, por meio de nota.

Metrópoles tentou contatar as outras pessoas mencionadas no texto por meio de e-mail e por telefone, mas não obteve retorno até a última atualização. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

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