Homem recebe alta, passa mal e morre horas depois em UPA do DF
Francisco Vieira deu entrada na unidade de saúde em 8 de março com dores nos ombros e nas costas; familiares apontam possível erro médico
atualizado
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“Um descaso tão grande. Eu entrei com meu pai e saí com ele num saco preto.” O relato é de Milca Vieira, filha de Francisco Vieira (foto em destaque), de 69 anos, que morreu em 8 de março após ter um ataque cardíaco horas depois de receber alta da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Gama.
Ao Metrópoles, a tecnóloga em radiologia contou que, na manhã de 8 de março, um domingo, por volta das 8h30, o pai reclamava de dores nas costas e nos ombros, além de falta de ar. Por isso, foi levado à unidade de saúde.
“Meu irmão levou ele na UPA. Lá, eles fizeram os exames e pediram um raio-x. Depois, disseram que era uma pequena inflamação no pulmão. Passaram uns remédios e ele foi para casa”, disse Milca.
Segundo o prontuário médico, Francisco deu entrada às 8h46 com dor nas costas e nos ombros desde o dia anterior, além de dificuldade para respirar. Ele tinha histórico de hipertensão, diabetes e era ex-tabagista.
A avaliação inicial apontou suspeita de doença pulmonar obstrutiva crônica (Dpoc) exacerbada, com possível infecção pulmonar.
Após exames e raio-X de tórax, o quadro foi tratado como pneumonia leve. De acordo com o prontuário, Francisco recebeu ceftriaxona e teve alta às 10h15, com orientação para retornar durante os próximos dias para aplicação do medicamento.
No entanto, poucas horas depois, às 13h50, ele voltou a passar mal. “Ele voltou para a UPA de novo com bastante falta de ar, mas continuou nessa coisa de pneumonia silenciosa, e ele com falta de ar. Quando cheguei para ficar com ele, ele estava muito ofegante e já estava com acesso de oxigênio no nariz”, disse Milca.
Diante da gravidade dos sintomas, ela questionou a médica sobre a realização de exames complementares, como ecocardiograma e tomografia.
Segundo Milca, a médica afirmou que iria pedir os exames e depois informou que iriam levar o seu pai para a sala vermelha e que ele ficaria lá por duas horas, usando uma máscara de oxigênio.
Francisco foi encaminhado ao setor destinado a casos de alta complexidade às 16h. Cerca de 40 minutos depois foram solicitados exames cardíacos, como troponina e eletrocardiograma.
O resultado da troponina saiu quase uma hora depois, por volta das 17h42, com nível elevado, indicando lesão no músculo do coração.
Durante a realização do eletrocardiograma, às 17h50, Francisco teve uma parada cardiorrespiratória. A equipe realizou cerca de 50 minutos de reanimação cardiopulmonar, mas ele não resistiu. O óbito foi declarado às 18h40.
“Quando saiu o resultado, estava altíssimo, ou seja, ele já estava infartando. E ele continuou na sala vermelha, depois o pessoal chegou para fazer o ecocardiograma. Quando demorou um pouco, eu vi a correria dos médicos e falei: ‘É meu pai, ele não resistiu’”, afirmou.
“Quanto descaso, quanta falta de respeito com a vida do ser humano, sabe? Cada um tinha que sofrer o que eu e minha família estamos sofrendo por conta da falta dele”, disse. “Eles são assassinos de jaleco. Meu pai não foi o primeiro e não vai ser o último não”, disse.
Outro lado
Em nota, o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF), responsável pelas UPAs do DF, disse que o atendimento “seguiu os protocolos assistenciais adotados na rede pública de saúde”.
Segundo o órgão, a solicitação de eletrocardiograma é indicada prioritariamente em situações clínicas com sinais de comprometimento cardíaco, ou conforme avaliação médica. “No caso em questão, no momento da avaliação inicial, o quadro clínico apresentado direcionou a investigação médica para causas respiratórias.”
O Iges-DF acrescentou que “as condutas assistenciais são definidas com base na avaliação clínica individualizada de cada paciente e nos protocolos vigentes”.
