Fumaça na escola: DF lidera ranking de alunos que usam vapes
Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar revela que mais de 43% dos estudantes do DF, entre 13 e 17 anos, já experimentaram cigarro eletrônico
atualizado
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Mais de 43% dos estudantes do Distrito Federal, entre 13 e 17 anos, já experimentaram cigarro eletrônico — o maior índice entre todas as capitais do país. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e revelam um cenário preocupante.
Mesmo proibido no Brasil, o vape segue circulando com facilidade. Apenas nos dois primeiros meses de 2026, a Receita Federal apreendeu 238.801 unidades do produto no território nacional, o que equivale a uma média de cerca de 4 mil dispositivos retirados de circulação por dia.
O tema ganha ainda mais relevância após a divulgação pelo IBGE da última edição da PeNSE 2024, que revelou uma expansão acelerada do consumo entre adolescentes. Segundo o levantamento, a experimentação de vapes entre adolescentes do DF saltou de 30,8% em 2019 para 43,7% em 2024, um aumento de 12,9 pontos percentuais em cinco anos.
A PeNSE 2024 pesquisou o tabagismo através de quesitos que abordam a idade da experimentação e o uso recente de cigarro, narguilê, cigarro eletrônico (vaper, pod, e-cigarrette) e outras formas de consumo do tabaco, além da forma de obter o produto e da exposição indireta.
No Distrito Federal, o contato com o cigarro eletrônico é mais frequente entre meninas (44,5%) do que entre meninos (43%) e se destaca entre estudantes da rede pública (48,5%), com uma diferença expressiva em relação aos da rede privada (29,7%).
Para o gerente da pesquisa, Marco Andreazzi, o cigarro eletrônico representa hoje um grande desafio que merece ser enfrentado. Segundo avaliações da Organização Mundial da Saúde (OMS), esse aumento se deve a uma política das empresas produtoras do tabaco, que investem maciçamente na propaganda direcionada para os adolescentes e crianças, para o uso do cigarro eletrônico.
“Apesar dos sucessos obtidos com a política e as campanhas para a redução do consumo do cigarro, o cigarro eletrônico cresce sob uma propaganda enganosa de ser de baixa toxicidade, com seu cheiro e sabor atraente para os jovens e as crianças”, avalia Andreazzi.
Falta de controle regulatório
Para especialistas em segurança pública, a combinação entre proibição, alta demanda e ausência de controle regulatório criou um ambiente propício para o crescimento do mercado ilegal.
“É especialmente alarmante ver que um mercado 100% ilegal agora avança justamente sobre um público que não deveria ter qualquer acesso a esse tipo de produto. O crime organizado não tem compromisso com regras, com idade mínima ou com proteção ao consumidor. Quando não há controle eficaz, quem ocupa esse espaço é o ilegal”, afirma Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP).
Diante desse cenário, o FNCP reforça a necessidade de rediscussão das políticas regulatórias que envolvem o mercado de cigarros eletrônicos e das estratégias de combate à ilegalidade, sob o risco de o Brasil assistir à consolidação definitiva de um mercado paralelo cada vez mais estruturado, acessível e lucrativo para o crime organizado.
“Estamos diante de um contrabando altamente organizado, que se aproveita de diversos canais para vender, inclusive da internet. E, em muitos casos, da estrutura oficial de entregas para distribuir. Isso amplia o poder de atuação dos criminosos e dificulta o trabalho de combate por parte das autoridades”, pondera Vismona.
Mercado ilegal movimenta R$ 154 milhões no DF
O mercado ilegal dos chamados novos produtos de tabaco e nicotina, como cigarros eletrônicos e sachês de nicotina, por exemplo, movimenta R$ 154 milhões no Distrito Federal. É o que aponta pesquisa inédita feita pela Universidade de São Paulo (USP). O dado consta no 1º Levantamento Nacional sobre a Demanda por Bens e Serviços Ilícitos, feito pela Escola de Segurança Multidimensional (ESEM), da USP, em parceria com o Instituto Ipsos, divulgado em outubro do ano passado.
O fato de o mercado paralelo movimentar R$ 154 milhões por ano gera ao Distrito Federal uma perda de R$ 268,2 milhões anuais em impostos relacionados à comercialização de cigarros eletrônicos e sachês de nicotina.
Isto é, se a venda desses itens fosse regulamentada pelo estado, o DF faturaria aproximadamente R$ 266,3 milhões em vapes e R$ 1,89 milhão em sachês, uma vez que seriam aplicados impostos estaduais e federais sobre os produtos.
O levantamento da USP e do Ipsos afirma ainda que 167 mil moradores do DF usam cigarros eletrônicos e/ou sachês de nicotina frequentemente. Dos entrevistados, 343,6 mil dizem ter usado pelo menos uma vez nos últimos seis meses.
Audiência pública sobre uso de vapes
A Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal promoverá uma audiência pública sobre o uso dos cigarros eletrônicos na próxima segunda-feira (6/4), às 14h.
O foco do debate deverá recair sobre o impacto dos vapes na saúde de crianças e adolescentes, como sugerido pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), autora do pedido de audiência.
O colegiado trará de volta o assunto à baila, em uma audiência que terá entre seus convidados a Secretária-Geral da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, Flávia Fonseca Fernandes; o Coordenador do Grupo de Trabalho de Drogas na Infância e na Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria, João Paulo Becker Lotufo; e o Secretário da Família, Cidadania e Segurança Alimentar da Prefeitura de Osasco, Marcelo Couto Dias.
