Flávia, Janaína e Hildene: femicídios crescem no DF e alertam autoridades
Dezesseis mulheres foram mortas no DF em 2026 pela condição de gênero. Casos já somam 57,1% dos crimes de 2025

Em oito meses, 16 mulheres tiveram as vidas interrompidas no Distrito Federal em casos classificados como feminicídio. No mesmo período, outras 68 foram vítimas de tentativas do crime. O número de casos consumados já representa 57,1% dos 28 feminicídios registrados em todo o ano passado. Nos três anos anteriores, o DF contabilizou 31 casos em 2023, 23 em 2024 e 28 em 2025.
O dado que mais chama atenção está nas tentativas de feminicídio. Foram 68 casos de janeiro a agosto deste ano, 15 a menos que os 83 registrados no mesmo período de 2025. Apesar da queda, o número ainda supera os 54 casos contabilizados nos oito primeiros meses de 2023 e 2024. Entre os feminicídios consumados, foram 16 casos neste ano, um a mais que em 2024 e três a menos que em 2025. Dois feminicídios ocorreram na mesma semana.
Violência precisa ser combatida antes do feminicídio
Diante dos números, o secretário de Segurança Pública do DF, Alexandre Rabelo Patury, afirma que o objetivo das forças de segurança não deve ser apenas prender os autores depois que o crime acontece, mas impedir que a violência chegue ao feminicídio. “A gente quer que o crime não aconteça”, afirmou.
Segundo Patury, os protocolos utilizados pelas forças de segurança adotam critérios de proteção à vítima. “Na prática, quando uma mulher sofre uma agressão grave e existe dúvida se o agressor tinha a intenção de matá-la, o caso pode ser registrado inicialmente como tentativa de feminicídio. Posteriormente, essa classificação pode ser revista ao longo da investigação e do processo”, explica.
Por isso, o secretário afirma que parte do aumento nas tentativas registradas pode estar relacionada ao próprio critério adotado para classificar as ocorrências, e não necessariamente a um crescimento proporcional da violência.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DF“Então o cálculo da tentativa de feminicídio não necessariamente mostra um aumento excessivo em relação aos anos. Às vezes você modula o critério para que busque a máxima proteção da mulher, principalmente quando há uma lesão que pode causar uma morte”, disse.
Independentemente da classificação da ocorrência, Patury defende que a atenção esteja voltada para o que acontece antes do desfecho fatal. “O feminicídio é o ato final. A violência costuma dar sinais antes de chegar ao assassinato, como o controle do celular, das roupas e do dinheiro da mulher, seguido por violência psicológica e física. Esses sinais precisam ser identificados e enfrentados antes que a agressão evolua”, acrescenta.
É nesse ponto que entra a importância da denúncia. Patury afirma que a vítima nem sempre consegue procurar ajuda por medo, mas ressalta que familiares, amigos e vizinhos também podem acionar a polícia diante de uma situação de violência. “A gente tem que buscar evitar o que vem antes”, diz.
Relembre feminicídios que chocaram o DF em 2026
- Janaína Rodrigues da Silva, 45 anos — Foi encontrada nua, com sinais de facadas e carbonizada em uma fogueira em uma chácara na AR 18, em Sobradinho II, na madrugada de 10 de setembro. Uma testemunha relatou ter visto um homem arrastando o corpo. Até a publicação da reportagem, o autor não havia sido identificado ou preso;
- Flávia Gomes da Silva, 35 anos — Foi morta a facadas pelo companheiro, Anderson Gonçalves, de 44 anos, em 7 de setembro, no Itapoã. O crime ocorreu na frente da filha do casal, de 4 anos. O suspeito fugiu após o assassinato e foi preso no dia seguinte. Familiares relataram à polícia episódios anteriores de agressão;
- Hildene Rodrigues da Silva, 37 anos — Foi esfaqueada diversas vezes em 13 de agosto, atrás de uma escola na QNN 3, em Ceilândia Norte. Ela foi levada ao Hospital Regional de Ceilândia, mas não resistiu aos ferimentos. Moradores afirmaram que a região é conhecida por ocorrências relacionadas ao tráfico e ao consumo de drogas;
- Dileusa Almeida Durães, 46 anos — Foi morta pelo companheiro, Sandro de Souza Oliveira, na madrugada de 20 de junho, no Recanto das Emas. O filho dela, de 14 anos, também foi ferido ao tentar proteger a mãe. Segundo relatos, Dileusa havia terminado o relacionamento, mas reatou após o homem não aceitar a separação;
- Cláudia da Silva Nascimento, 50 anos — Foi morta a tiros pelo marido, o policial militar da reserva Josimar da Costa, de 56 anos, em 16 de maio, em São Sebastião. Após matar a esposa, ele tirou a própria vida com a mesma arma. Uma sobrinha afirmou que o homem apresentava comportamento possessivo e era “doente de ciúmes”;
- Luana Moreira Marques, 41 anos — Foi morta a facadas pelo ex-marido, Wellington de Rezende Silva, de 43 anos, em 9 de março, na região de Planaltina. Segundo a investigação, ele armou uma emboscada e confessou o crime, atribuindo o assassinato a “ciúmes intensos”. Luana planejava viajar com a filha no dia seguinte;
- Maria Elenice, 61 anos — A professora foi morta com uma facada no pescoço, em 20 de janeiro, no Guará II. O filho dela, Vinicius, confessou o crime e afirmou ter tido um “surto”. A defesa pediu que a prisão fosse substituída por internação psiquiátrica, mas a Justiça negou o pedido;
- Bruna Stephanie Freitas Brandão, 36 anos — Foi morta a facadas pelo ex-companheiro, Elenilton Pereira Bezerra, de 36 anos, em 3 de abril, no Riacho Fundo II. O crime ocorreu na frente do filho do casal, de 2 anos. Após o assassinato, o suspeito fugiu para Samambaia, onde foi preso por policiais militares. O caso é investigado como feminicídio;
- Jussiara Ferreira dos Santos, 42 anos — Foi ferida com golpes de arma branca por volta das 4h de 29 de agosto, em Samambaia. Ela chegou ferida à casa da irmã e foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros ao Hospital Regional de Taguatinga, mas não resistiu. O ex-companheiro dela, João Alberto Mesquita da Silva, de 44 anos, foi preso em flagrante. Inicialmente registrado como ameaça, o caso foi transferido para a 32ª Delegacia de Polícia e reclassificado como feminicídio consumado após a morte da vítima.



