Fiéis vão a velório de padre Casemiro e pedem “paz e justiça”

O corpo do religioso começou a ser velado na Paróquia Nossa Senhora da Saúde, na 702 Norte. Vítima foi assassinada em assalto

atualizado 23/09/2019 11:57

Myke Sena/ Especial para o Metrópoles

O corpo do  sacerdote Kazimerz Wojno, conhecido como padre Casemiro, 71 anos, chegou à Paróquia Nossa Senhora da Saúde, na 702 Norte, no começo da manhã desta segunda-feira (23/09/2019). Ele foi vítima de um assassinato brutal no fim de semana. Alguns fiéis o aguardavam. Entre eles, Ana Maria de Lima Marques, 60.

“Já fui assaltada e sempre rezo por isso. Fiquei muito triste da forma como aconteceu o crime com o padre. Ele era uma pessoa muito humana, importante para a comunidade. Vim para rezar pela alma dele, pedir paz e justiça”, desabafou a servidora pública.

Conceição de Maria, 60, conta que conhecia o pároco há mais de 10 anos. Ela se diz chocada com o assassinato.  “Conheci ele no Hran (Hospital Regional da Asa Norte), porque era o capelão de lá. Aí eu vinha para cá assistir à missa de sábado. Quando a gente precisava de unção no hospital, pedia para ele”, ressaltou.

A aposentada diz que o padre ajudou a construir a igreja e foi uma perda muito grande para toda a comunidade católica da região. “Era o tipo do padre que a gente ligava e marcava de fazer as confissões, ele fazia um atendimento muito pessoal. Ele tinha muita atenção com os fiéis. Eu fiquei muito abalada, era é uma pessoa fora do comum”, completou dona Conceição.

 

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Velório e sepultamento

O corpo do sacerdote foi liberado pelo Instituto Médico Legal (IML), no início da noite desse domingo (22/09/2190), e seguiu para a funerária. Às 14h desta segunda-feira (23/09/2019), o arcebispo de Brasília, Dom Sérgio Rocha, realizará uma missa na paróquia. O sepultamento ocorrerá, a partir das 16h30, no Cemitério Campo da Esperança (Asa Sul).

“De início, os parentes dele não virão, mas estamos esperando a confirmação da embaixada da Polônia. São eles que estão intermediando esse contato. Estamos só aguardando essa confirmação, em respeito à família. A partir das 8h, estaremos aqui para começar o nosso velório. Às 10h, terá uma missa e outra ocorrerá às 14h ou 14h30. Se for possível, e necessário, vamos aguardar mais”, disse o padre João Firmino, assessor da Arquidiocese de Brasília.

Violência a templos religiosos

Igrejas, paróquias e templos religiosos do Distrito Federal estão na mira dos bandidos. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF), 163 ocorrências de furtos a santuários foram registradas só neste ano na capital federal. Se comparado ao mesmo período de 2018, quando ocorreram 150 furtos a templos, há um aumento de 8% nesse tipo de crime.

Estrangulado com arame

O crime ocorreu na noite desse sábado (21/09/2019), no momento em que o padre saía de uma missa e se dirigia ao terreno da paróquia. Os autores agiram com requintes de crueldade e teriam usado um arame para matar o sacerdote enforcado. Ele foi encontrado com mãos e pés atados e o arame envolto ao pescoço – além de uma lesão na cabeça.

Até o momento, a polícia trabalha com a hipótese de que quatro homens cometeram o assassinato. Para Laércio Rosseto, delegado-chefe da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte) – responsável pelo caso –, o modus operandi dos bandidos deixa claro que eles conheciam a rotina do padre.

Os criminosos teriam ficado entre duas e três horas na casa do religoso. Casemiro, cujo o nome original é Kazimerz Wojno, havia se queixado da insegurança na região – a Paróquia Nossa Senhora da Saúde foi assaltada este ano. Porém, o caráter bárbaro do assassinato é um indicativo, segundo a polícia, da não relação entre os casos.

“Por conta do requinte de crueldade com que executaram o padre, a princípio, o crime não tem relação com os roubos anteriores”, avaliou Rosseto. “Pela situação na qual ele foi encontrado, a gente pode afirmar que houve sofrimento por parte da vítima”, completou o investigador.

Suspeitos

A Polícia Civil afirma já ter nomes de suspeitos de envolvimento no assassinato do padre Casemiro. Segundo o delegado Rosseto, as identidades não serão reveladas para não atrapalhar as investigações. Desde o início da tarde desse domingo (22/09/2019), os investigadores colhem depoimentos de envolvidos, testemunhas e do caseiro que foi mantido refém pelos bandidos juntamente com o pároco.

De acordo com a polícia, a casa tinha cofres modernos e os criminosos estavam preparados para arrombá-los. “Tinha cofre de um metro e meio de altura”, pontuou. Os bandidos levaram uma “makita”, pé-de-cabra, barras e picaretas.

As pessoas estão sendo ouvidas e as informações são conflitantes. Há pontos divergentes e que não estão ainda esclarecidos. Os suspeitos ouvidos podem não ter atuado diretamente no crime, mas, sim, de forma indireta. Ainda é cedo e precisamos ter cautela”, afirmou Rosseto.

A polícia tem imagens da movimentação dos suspeitos. Uma das gravações mostra o rosto de um investigado. O conteúdo ainda está sendo analisado e, por isso, ainda está sendo mantido sob sigilo.

Rosseto revelou que uma das linhas de investigação suspeita de moradores de rua da região. “Ele (Casemiro) era uma pessoa muito austera e muito correta”, ressaltou. “Estamos checando se houve desavença com algum morador de rua”, completou.

O crime levou medo aos moradores da Asa Norte.  Para o garçom Rodrigo Fernandes, 22, toda a W3  e os arredores da paróquia onde o padre foi assassinado são locais muito inseguros. Ele conta já ter sido assaltado quando saía do trabalho rumo à parada de ônibus. Morador de Planaltina, o rapaz diz se sentir tão inseguro no Plano Piloto quanto na cidade onde mora.

“Eu saía por volta da meia-noite do serviço e estava no caminho da parada quando um homem e uma mulher, que pareciam usuários de drogas, cada um com uma faca, me mandaram passar o dinheiro e o celular. Eu iria fazer o quê? Entreguei o aparelho e a carteira com tudo, inclusive o cartão do ônibus”, lembra. O caso ocorreu em janeiro deste ano e o rapaz não quis registrar ocorrência. Naquele dia, ligou de um orelhão e pediu carona ao irmão.

A cuidadora Jaqueline Lima, 35, foi contratada para acompanhar uma idosa de 81 anos, que está internada no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Moradora de Samambaia, ela acredita que a segurança falha na vizinhança da unidade de saúde. “Eu chego entre 20h e 21h para acompanhar a senhora de quem eu cuido, e, tanto faz se é de dia ou de noite, tem sempre alguém usando drogas, principalmente do outro lado da cerca do pronto-socorro e no caminho para o Hemocentro. Graças a Deus, nunca aconteceu nada, mas não me sinto segura”, opina.

Porteiro de um bloco residencial na 302 Norte, Ricardo Gualberto, 33, diz que muitos moradores do prédio frequentam a igreja à qual o padre pertencia. O trabalhador diz que há muitos moradores de rua usuários de drogas e que eles estariam cometendo furtos, roubos e arrombamentos de carros na quadra. “[sic] Às vezes, quando eu estou aqui de madrugada, eu escuto eles brigando, xingando, falando palavrão. De vez em quando, aparecem alguns carros com os vidros quebrados, porque eles querem roubar o que tem dentro”.

Frequentadora da paróquia e moradora da 304 Norte, Luzia Ramos, 59, prefere ir às missas pela manhã porque não se sente segura à noite. “Eu não dirijo, mas como é pertinho, eu vou à pé. Andar duas quadras à noite, num domingo, com as ruas todas vazias, eu não tenho coragem”, lamenta.

 

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